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terça-feira, 8 de julho de 2014

Dinâmica: Perdão e Gratidão


Objetivo: 
Estimular a reflexão e a oração, a partir do instante em que se reconhece o sacrifício de Jesus por nós.

Materiais:
01 vela em um castiçal
01 crucifixo

Como fazer:
Quando desenvolvemos essa dinâmica nossas crianças já tinham vivido a Páscoa e já tínhamos conversado sobre a importância dela. Pedi que as crianças pensassem em silêncio o que gostariam de pedir perdão a Jesus, olhando-O na cruz, diante de tamanha dor e sacrifício para nos salvar. Fizemos uma reflexão em torno do que a cruz representa para nós e como o gesto de se entregar por amor é único e vem de um Deus que verdadeiramente ama os seus filhos.

Ao olharmos a vela acesa, iriamos pensar nas infinitas coisas que temos a agradecer a Jesus por sua ressurreição e por nossa libertação. Resgatamos mais um vez o sentido da Páscoa e partilhamos a importância da mesma.

Na prática, depois de prepararmos as crianças, pedimos que fosse passando a cruz e a vela. Ao olhar para a cruz, cada catequizando deveria pedir perdão por algo que ofendeu a Deus e ao próximo. Ao segurar a vela, todos deveriam agradecer a Jesus.

A dinâmica foi muito interessante, as crianças não se envergonharam de falar. Pedir perdão, sinceramente, valorizando o sacrifício da Paixão. Alegrar-se, rejubilar-se, ao olhar a chama da luz, que nos lembra Cristo, luz do mundo.

Alguns cuidados: Acho que poderia ser melhor se todos estivessem sentados no chão. A vela pode ser menor, daquelas que são bem pequenas, assim seria mais seguro.

Ao final, pode-se cantar um cântico como: Deixa a luz do céu entrar...

Forte abraço,
Clécia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Santa Missa da Solenidade da Epifania do Senhor

Santa Missa da Solenidade da Epifania do Senhor

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica Vaticana
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece conosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20). A Igreja lê a narração do Evangelho de Mateus juntamente com a visão do profeta Isaías, que escutámos na primeira leitura: o caminho destes homens é só o início. Antes, tinham vindo os pastores – almas simples que habitavam mais perto de Deus feito menino, podendo mais facilmente «ir até lá» (cf. Lc 2, 15) ter com Ele e reconhecê-Lo como Senhor. Mas agora vêm também os sábios deste mundo. Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos. Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da Carta aos Efésios exprime, de modo sóbrio e simples, a mesma ideia: os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6). Eis como o formulara o Salmo 2: «Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra para teu domínio» (v. 8).



Os Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos para Cristo. Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação Episcopal a dois sacerdotes, consagrá-los-ei Pastores do povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf. Jo 10, 4). Por isso naqueles personagens, que foram os primeiros pagãos a encontrar o caminho para Cristo, talvez possamos – não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações e tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos. Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronómica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrónomos na antiga Babilónia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no facto de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: «Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel» (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho exterior e interior.

Queridos amigos, em tudo isto é possível ver alguns traços essenciais do ministério episcopal. Também o Bispo deve ser um homem de coração inquieto, que não se satisfaz com as coisas rotineiras deste mundo, mas segue a inquietação do coração que o impele interiormente a aproximar-se sempre mais de Deus, a procurar o seu Rosto, a conhecê-Lo cada vez melhor, para poder amá-Lo sempre mais. Também o Bispo deve ser um homem de coração vigilante que percebe a linguagem subtil de Deus e sabe discernir a verdade da aparência. Também o Bispo deve estar repleto da coragem da humildade, que não se interessa do que a opinião dominante diz dele, mas por critério toma a medida da verdade de Deus, comprometendo-se com ela «opportune – importune». Deve ser capaz de ir à frente indicando o caminho. Deve ir à frente seguindo Aquele que a todos nos precedeu, porque é o verdadeiro Pastor, a verdadeira estrela da promessa: Jesus Cristo. E deve ter a humildade de prostrar-se diante daquele Deus que Se tornou tão concreto e tão simples que contradiz o nosso orgulho insensato, que não quer ver Deus assim perto e pequenino. Deve viver a adoração do Filho de Deus feito homem, aquela adoração que lhe indica sem cessar o caminho.

A liturgia da Ordenação Episcopal exprime o essencial deste ministério em oito perguntas dirigidas aos Ordenandos, que começam sempre com a palavra: «Vultis? – Quereis?». As perguntas orientam a vontade e indicam-lhe o caminho a tomar. Gostaria de mencionar aqui, brevemente, algumas das palavras-chave desta orientação, nas quais se concretiza aquilo que há pouco refletimos a partir dos Magos que aparecem na festa de hoje. A missão dos Bispos é «praedicare Evangelium Christi», «custodire», «dirigere», «pauperibus se misericordes praebere», «indesinenter orare». O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, guardar o depósito sagrado da nossa fé, ir à frente e guiar, a misericórdia e a caridade para com os necessitados e os pobres nas quais se reflete o amor misericordioso de Deus para conosco e, finalmente, a oração contínua são características fundamentais do ministério episcopal. A oração contínua significa nunca perder o contato com Deus, deixar-se tocar sempre por Ele no íntimo do nosso coração e deste modo sermos permeados pela sua luz. Só quem conhece a Deus pessoalmente é que pode guiar os outros para Deus. E só quem guia os homens para Deus é que os guia pela estrada da vida.

O coração inquieto, de que falámos inspirando-nos em Santo Agostinho, é o coração que, em última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus e é, precisamente assim, que se torna um coração que ama. O nosso coração vive inquieto por Deus, e não pode ser doutro modo, embora hoje se procure, com «narcóticos» muito eficazes, libertar o homem desta inquietação. Mas não somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a caminho até junto de nós – até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do mundo. Deus vive inquieto conosco, anda à procura de pessoas que se deixem contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a nosso respeito. Queridos amigos, foi esta a missão dos Apóstolos: acolher a inquietação de Deus pelo homem e levar o próprio Deus aos homens. E, seguindo os passos dos Apóstolos, esta é a vossa missão: deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.

Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contato com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho. Os Santos são estrelas de Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o nosso ser anseia. Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo, quando dissestes o vosso «sim» ao sacerdócio e ao ministério episcopal. E certamente brilharam para vós também estrelas menores, que vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos, invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho. Com a Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a serem estrelas de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à verdadeira Luz: Cristo. Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens a luz de Deus. Amem.

Benedictus PP XVI

© Copyright 2012 – Libreria Editrice Vaticana

Fonte: Católicos na Rede

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O que é catequese?

O que é catequese?


O Papa João Paulo II disse: "A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especialmente um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com fim de os iniciar na plenitude da vida cristã" (CT). Segundo O Novo Catecismo da Igreja Católica (1992) "no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa, a de Jesus Cristo de Nazaré, Filho único do Pai...

A finalidade definitiva da catequese é levar à comunhão com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar da vida da Santíssima Trindade... Todo catequista deveria poder aplicar a si mesmo a misteriosa palavra de Jesus: 'Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou' (Jo 7,16)" (NCIC, 426-427). Em sua origem, o termo "CATEQUESE" diz respeito à proclamação da Palavra. O termo se liga a um verbo que significa "Fazer" - "Ecoar" (gr. Kat-ekhéo). Assim a catequese tem por objetivo último fazer escutar e repercutir a Palavra de Deus.

Desta forma, é missão da Igreja anunciar o Evangelho em todo o mundo, mas, em primeiro lugar, a Palavra de Deus deve ser anunciada aos seus próprios membros. É dentro da Igreja que se desenvolve a formação de seus membros, para que possam depois anunciar a todos a Palavra de Deus. Quando se fala em catequese, muitos pensam na catequese que se prepara as crianças à Primeira Eucaristia. Catequese hoje não se deve confundir com o "dar catecismo".

A catequese faz parte da ação evangelizadora da Igreja que envolve aqueles que aderem a Jesus Cristo. Catequese é o ensinamento essencial da fé, não apenas da doutrina como também da vida, levando a uma consciente e ativa participação do mistério litúrgico e irradiando uma ação apostólica. Segundo o Documento de Puebla (1979) e a afirmação dos Bispos do Brasil, a catequese é um processo de educação da fé em comunidade, é dinâmica, é sistemática e permanente. Os Bispos da América Latina reunidos em Santo Domingo (1992) nos disseram": "Damos graças a Deus pelos esforços de tantos e tantas catequistas que cumprem seu serviço eclesial com sacrifício, selado, às vezes, com suas vidas. Contudo, devemos reconhecer como pastores que ainda há muito por fazer.

Existe ainda muita ignorância religiosa, a catequese não chega a todos e muitas vezes chega em forma superficial, incompleta quanto a seus conteúdos, ou puramente intelectual, sem força para transformar a vida das pessoas e de seus ambientes" (DSD, 41). Todo cristão que aceita Cristo por inteiro, esse é o verdadeiro cristão balizado, ele é responsável, em anunciar a Palavra de Deus, a começar por si próprio e pela família. Para tanto, tem uma maturidade cristã de fé e de amor ao próximo e à Igreja.

Fonte: Catequisar

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Catequese de Bento XVI sobre Salmo 23 - 05/09/2011

CATEQUESE

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 05 de outubro 2011


Voltar-se para o Senhor na oração implica um ato de confiança radical, na consciência de confiar em um Deus que é bom, misericordioso e piedoso, lento para a ira e rico de amor e fidelidade. Por isto, hoje gostaria de refletir convosco sobre um Salmo cheio de confiança, no qual o Salmista exprime a sua serena certeza de ser conduzido e protegido, seguro de todo perigo, porque o Senhor é o seu pastor. Se trata do Salmo 23, que segundo a datação greco-latina é o 22, um texto familiar a todos e amado por todos.

“O Senhor é o meu pastor: nada me falta”: Assim inicia esta bela oração, evocando o ambiente nômade do pastoreio e a experinência recíproca que se estabelece entre o pastor e as ovelhas que compõem o seu pequeno rebanho. A imagem conduz a uma atmosferia de confidência, intimidade, ternura: o pastor conhece as suas ovelhinhas uma por uma, as chama pelo nome, e essas o seguem porquem o reconhecem e confiam nele. Ele cuida delas, as guarda como bens preciosos, está pronto a defendê-las, a garantir-lhes o bem-estar, a fazê-las viver em tranquilidade. Nada pode faltar se o pastor está com elas. A esta experiência se refere o Salmista, chamando Deus seu pastor e deixando-se conduzir por Ele rumo aos campos seguros.

“Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes , restaura as forças da minha alma. Pelos caminhos retor Ele me leva, por amor de seu nome” (v.2-3)

A visão que se abre aos nossos olhos é aquela dos campos verdes e fontes de água límpida, oásis até o qual o Pastor acompanha o rebanho; símbolos dos lugares de vida em direção aos quais o Senhor conduz o Salmista, o qual se sente como as ovelhas deitadas sobre a grama ao lado de uma nascente, em situação de repouso, não em tensão ou em um estado de alarme, mas confiantes e tranquilas, porque o local é seguro, tem água fresca, o Pastor as vigia. E não esqueçamos aqui que a cena evocada pelo Salmo é ambientada em uma terra larga, com uma parte deserta, abatida pelo sol escaldante, onde o Pastor seminômade do oriente médio vive com o seu rebanho nos cerrados áridos que se estendem ao redor dos vilarejos. Mas o Pastor sabe onde encontrar capim e água fresca, essenciais para a vida, sabe levar ao oásis no qual a alma se revigora, onde é possível renovar as forças e as novas energias para colocar-se a caminho.

Como diz o Salmista, Deus o conduz em direção aos verdes prados, às águas tranquilas, onde tudo é abundante, tudo é doado em grande quantidade. Se o Senhor é o pastor, também no deserto, lugar de ausência e de morte, não deixa de existir a certeza de uma radical presença de vida, ao ponto de poder dizer: “nada me falta”. O pastor, de fato, tem no coração o bem do seu rebanho, adapta os próprios ritmos e as próprias exigências àquelas de suas ovelhas, caminha e vive com elas, guiando-as por estradas justas, isto è, adaptadas à elas, com atenção às necessidades delas e não às próprias. A segurança do seu rebanho é a sua prioridade e a esta prioridade obedece ao conduzi-lo.

Por isso o Salmista pode declarar uma tranquilidade e uma segurança sem incertezas, nem temores:
“Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bastão e vosso báculo são o meu amparo”. (v.4)

Quem vai com o Senhor também nos vales escuros do sofrimento, da incerteza e de todos os problemas humanos, se sente seguro. Tu estás comigo: esta é a nossa certeza, aquela que nos sutenta. O escuro da noite gera medo, com as suas sombras insconstantes, a dificuldade de distinguir os perigos, o seu silêncio que por vezes é interrompido por barulhos indecifráveis. Se o rebanho se move depois do pôr do sol, quando a visibilidade se torna incerta, é normal que as ovelhas estejam inquietas, há o risco de assustarem-se, distanciarem-se, perderem-se ou ainda existe o temor de possíveis agressores que se escondam no obscuro.

Para falar do vale escuro, o Salmista usa uma expressão hebraica que evoca as trevas da morte, no qual o vale que se deve atravessar é um lugar de angústia, de ameaças terríveis, de perigos de morte. Todavia, o orante prossegue seguro, sem medo, porque sabe que o Senhor está com ele. Aquele “tu estás comigo” é uma proclamação de confiança inabalável e sintetiza a experiência de fé radical, a proximidade de Deus transforma a realidade, o vale escuro perde todo perigo, se esvazia de toda ameaça. O rebanho agora pode caminhar tranquilo, acompanhado pelo som familiar do bastão que bate sobre o terreno e sinaliza a presença confortante do pastor. Esta imagem confortante fecha a primeira parte do Salmo e dá lugar para uma cena diferente. Estamos ainda no deserto, onde o pastor vive com seu rebanho, mas agora somos transportados para a sua tenda, que se abre para dar hospitalidade.

“Preparais para mim a mesa, à vista de meus inimigos. Derramais o olhos sobre minha cabeça e meu cálice transborda” (v.5)

Agora, o Senhor é apresentado como Aquele que acolhe o orante, com os sinais de uma hospitalidade generosa e repleta de atenção. O anfitrião divino prepara o alimento sobre a “mesa”, uma expressão que em hebraico indica, no seu sentido primitivo, a pele de animal que era entendida no chão e sobre a qual se colocavam os víveres para a refeição em comum. É um gesto de partilha não somente do alimento, mas também da vida, em uma oferta de comunhão e de amizade que cria laços e exprime solidariedade. E depois, tem o dom generoso do óleo perfumado sobre a cabeça, que dá alívio ao calor insuportável do sol do deserto, refresca e suaviza a pele e alegra o espírito com a sua fragrância. Por fim, o cálice cheio acrescenta um toque de festa, com o seu vinho refinado, partilhado com generosidade abundante. Alimento, óleo, vinho: são os dons que fazem viver e dão alegria porque estão além daquilo que é extremamente necessário e exprimem a gratuidade e a abundância do amor. Proclama o Salmo 104, celebrando a bondade providente do Senhor: “Tu fazes crescer a grama para o animal e as plantas que o homem cultiva para tirar alimento da terra, vinho que alegra o coração do homem, óleo que faz brilhar a sua face e pão que sustenta o seu coração”. O Salmista se fez objeto de tantas atenções: ele se vê como um caminhante que encontra repouso em uma tenda acolhedora, enquanto os seu inimigos ficam olhando sem poder intervir, porque aquele que consideravam como presa está seguro, se tornou um hóspede sacro, intocável. E o Salmista somos nós se realmente acreditamos na comunhão com Cristo. Quando Deus abre a sua tenda para acolher-nos, nada pode nos fazer mal.
Quando o caminhante parte, a proteção divina se prolonga e o acompanha na sua viagem.

“Sim, a vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias”.

A bondade e a fidelidade de Deus são a proteção que acompanha o Salmista que sai da tenda e se recoloca no caminho. Mas é um caminho que adquire um novo sentido e se torna peregrinação em direção ao templo do Senhor, o lugar santo no qual o orante quer habitar e ao qual quer retornar. O verbo hebraico aqui utilizado tem o sentido de retornar, mas com uma pequena modificação vocálica, pode ser entendido como habitar, e assim permaneceu nas antigas versões e na maior parte das traduções modernas. Ambos os sentidos podem ser mantidos: voltar ao Templo e habitar nele é o desejo de todo israelita, e habitar próximo a Deus na sua proximidade e bondade é desejo e nostalgia daquele que acredita: poder habitar realmente onde está Deus, próximo a Deus. O seguimento do Pastor leva à sua casa, é essa a meta de todo caminho, oásis desejado no deserto, tenda de refúgio na fuga dos inimigos, lugar de paz onde se experimenta a bondade e o amor fiel de Deus dia após dia, na alegria serena de um tempo sem fim.

As imagens deste Salmo, com as suas riquezas e profundidade, acompanharam toda a história e a experiência religiosa do povo de Israel e acompanham também os cristãos. A figura do pastor, em particular, evoca o tempo originário do Êxodo, o longo caminho no deserto, como um rebanho que está sob a guia do Pastor divino. E na Terra prometida era o rei que tinha a missão de cuidar do rebanho do Senhor, como Davi, pastor escolhido por Deus e figura do Messias. Após o exílio da Babilônia, quase em um novo êxodo, Israel é reconduzido à pátria como ovelha dispersa e reencontrada, reconduzida por Deus aos vigorosos campos e lugares de repouso.

Mas é no Senhor Jesus que toda a força evocativa do nosso Salmo chega a cumprimento, encontra sua plenitude de significado: Jesus é o bom Pastor que sai à procura da ovelha desgarrada, que conhece as suas ovelhas e dá a vida por elas. Ele é a vida, o caminho justo que nos leva à vida, a luz que ilumina o vale escuro e vence todo nosso medo. È Ele o anfitrião generoso que nos acolhe, nos coloca a salvo dos inimigos preparando-nos a mesa do seu corpo e do seu sangue e aquela definitiva do banquete messiânico do Céu. É Ele o Pastor real, rei na mansidão e no perdão, entronizado sobre o madeiro glorioso da cruz.

Queridos irmãos e irmãs, o Salmo 23 nos convida a renovar a nossa confiança em Deus, abandonando-nos totalmente nas suas mãos. Peçamos então com fé que o Senhor nos conceda, também nas estradas difíceis do nosso tempo, de caminhar sempre sobre as suas estradas como rebanho dócil e obediente; que nos acolha na sua casa, na sua mesa, e nos conduza às águas tranquilas, para que no acolhimento do dom do Seu Espirito, possamos beber das suas nascentes, fontes daquela água viva que transborda para a vida eterna. Obrigado.

Fonte: Canção Nova

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Catequese de Bento XVI sobre a viagem apostólica à Alemanha

CATEQUESE
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 28 de setembro de 2011


Queridos irmãos e irmãs!

Como sabeis, de quinta-feira e domingo passados, realizei uma Visita Pastoral à Alemanha; estou feliz, portanto, como de costume, por aproveitar a ocasião da Audiência de hoje para percorrer convosco as intensas e estupendas jornadas transcorridas no meu País de origem. Atravessei a Alemanha de norte a sul, do leste ao oeste: da capital Berlim a Erfurt e a Eichsfeld e, enfim, a Friburgo, cidade próxima à fronteira com a França e a Suíça. Agradeço, antes de tudo, ao Senhor pela possibilidade que me ofereceu de me encontrar com as pessoas e falar de Deus, de rezarmos juntos e confirmar os irmãos e as irmãs na fé, segundo o particular mandato que o Senhor confiou a Pedro e aos seus sucessores. Essa visita, desenvolvida sob o tema "Onde há Deus, há futuro", foi verdadeiramente uma grande festa da fé: nos vários encontros e colóquios, nas celebrações, especialmente nas Missas solenes com o povo de Deus. Esses momentos foram um precioso presente que nos fizeram perceber novamente como é Deus quem dá à nossa vida o sentido mais profundo, a verdadeira plenitude, antes, que somente Ele dá a nós, dá a todos um futuro.

Com profunda gratidão, recordo a acolhida calorosa e entusiasta, bem como a atenção e o afeto a mim demonstrados nos vários lugares que visitei. Agradeço de coração aos Bispos alemães, especialmente aqueles das Dioceses que me hospedaram, pelo convite por quanto fizeram, juntamente com tantos colaboradores, para preparar esta viagem. Um vivo agradecimento dirijo igualmente ao Presidente Federal e a todas as autoridades políticas e civis a nível federal e regional. Sou profundamente grato a quantos contribuíram, de diversos modos, com o bom êxito da Visita, sobretudo aos numerosos voluntários. Assim, essa foi um grande dom para mim e para todos nós e suscitou alegria, esperança e um novo impulso de fé e de compromisso pelo futuro.

Na capital federal, Berlim, o Presidente Federal acolheu-me na sua residência e me deu as boas-vindas, em seu nome e de todos os seus conterrâneos, expressando a estima e o afeto por um Papa nativo da terra alemã. De minha parte, pude esboçar um breve pensamento sobre o relacionamento recíproco entre religião e liberdade, recordando uma frase do grande Bispo e reformador social Wilhelm von Ketteler: "Da mesma forma como a religião precisa da liberdade, assim também a liberdade precisa da religião".

De bom grado, acolhi o convite a dirigir-me ao Bundestag (Parlamento), aquele que foi certamente um dos grandes momentos de minha viagem. Pela primeira vez, um Papa pronunciou um discurso diante dos membros de um Parlamento alemão. Em tal ocasião, quis expor o fundamento do direito e do livre Estado de direito, isto é, a medida de todo o direito, inscrito pelo Criador no ser mesmo da sua criação. É necessário, por isso, alargar o nosso conceito de natureza, compreendendo-a não somente como um conjunto de funções, mas, mais do que isso, como linguagem do Criador para auxiliar-nos a discernir o bem do mal. Sucessivamente, houve também um encontro com alguns representantes da comunidade judaica na Alemanha. Recordando as nossas comuns raízes na fé no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, evidenciamos os frutos obtidos até agora no diálogo entre a Igreja Católica e o Judaísmo na Alemanha. Tive também a oportunidade de encontrar-me com alguns membros da comunidade muçulmana, concordando com eles acerca da importância da liberdade religiosa para um desenvolvimento pacífico da humanidade.

A Santa Missa no estádio olímpico, em Berlim, na conclusão do primeiro dia da Visita, foi uma das grandes celebrações litúrgicas que me deram a possibilidade de rezar juntamente com os fiéis e de encorajá-los na fé. Fiquei muito contente com a numerosa participação das pessoas! Naquele momento festivo e impressionante, meditamos sobre a imagem evangélica das videiras e dos ramos, isto é, sobre a importância de estarmos unidos a Cristo para a nossa vida pessoal de fiéis e para o nosso ser Igreja, seu corpo místico.

A segunda etapa da minha Visita foi na Turíngia. A Alemanha, e a Turíngia, de modo particular, é a terra da reforma protestante. Portanto, desde o início, quis ardentemente dar particular destaque ao ecumenismo no quadro desta viagem, e foi meu forte desejo viver um momento ecumênico em Erfurt, porque exatamente em tal cidade Martinho Lutero entrou na comunidade dos Agostinianos e ali foi ordenado sacerdote. Por isso, fiquei muito contente pelo encontro com os membros do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha e pelo ato ecumênico no ex-Convento dos Agostinianos: um encontro cordial que, no diálogo e na oração, levou-nos de modo mais profundo a Cristo. Vimos novamente o quanto seja importante o nosso comum testemunho da fé em Jesus Cristo no mundo de hoje, que frequentemente ignora a Deus ou não se interessa por Ele. É necessário o nosso esforço comum no caminho rumo a uma plena unidade, mas sempre somos bem conscientes de que não podemos "fazer" seja a fé, seja a unidade tão desejada. Uma fé criada por nós mesmos não tem nenhum valor, e a verdadeira unidade é, mais do que tudo, um dom do Senhor, o qual rezou e reza sempre pela unidade dos seus discípulos. Somente Cristo pode dar-nos essa unidade, e seremos sempre mais unidos na medida em que voltarmos a Ele e nos deixamos transformar por Ele.

Um momento particularmente emocionante foi, para mim, a celebração das Vésperas marianas diante do Santuário de Etzelsbach, onde me acolheu uma multidão de peregrinos. Desde jovem, tinha ouvido falar da região de Eichsfeld – porção de terra que permaneceu sempre católica em meio às várias vicissitudes da história – e dos seus habitantes que se opuseram corajosamente ás ditaduras do nazismo e do comunismo. Assim, fiquei muito contente por visitar essa Eichsfeld e o seu povo em uma peregrinação à imagem milagrosa da Virgem Dolorosa de Etzelsbach, onde, por séculos, os fiéis confiaram a Maria as próprias necessidades, preocupações, sofrimentos, recebendo conforto, graças e bênçãos. Além disso, foi tocante a Missa celebrada na magnífica Piazza del Duomo em Erfurt. Recordando os santos patronos da Turíngia – Santa Elisabete, São Bonifácio e São Kilian – e o exemplo luminoso dos fiéis que testemunharam o Evangelho durante os sistemas totalitários, convidei os fiéis a serem os santos de hoje, válidos testemunhos de Cristo, e a contribuir para construir a nossa sociedade. Sempre, de fato, foram os santos e as pessoas permeadas pelo amor de Cristo a transformar verdadeiramente o mundo. Comovente foi também o breve encontro com monsenhor Hermann Scheipers, o último sacerdote alemão vivo sobrevivente ao campo de concentração de Dachau. Em Erfurt, tive também a ocasião de encontrar algumas vítimas de abuso sexual por parte dos religiosos, aos quais quis assegurar a minha dor e minha proximidade em seus sofrimentos.

A última etapa da minha viagem levou-me ao sudoeste da Alemanha, na Arquidiocese de Friburgo. Os habitantes desta bela cidade, os fiéis da Arquidiocese e os numerosos peregrinos vindos das vizinhas Suíça e França e de outros Países reservaram-me uma acolhida particularmente festiva. Pude experimentá-lo também na Vigília de oração com milhares de jovens. Fiquei feliz ao ver que a fé na minha pátria alemã tem um rosto jovem, que é viva e tem um futuro. No sugestivo rito da luz, transmiti aos jovens a chama do círio pascal, símbolo da luz que é Cristo, exortando-os: "Vós sois a luz do mundo". Repeti a eles que o Papa confia na colaboração ativa dos jovens: com a graça de Cristo, são capazes de levar ao mundo o fogo do amor de Deus.

Um momento singular foi o encontro com os seminaristas no Seminário de Friburgo. Respondendo em um certo sentido à tocante carta que me enviaram algumas semanas antes, quis mostrar àqueles jovens a beleza e a grandeza do seu chamado por parte do Senhor e oferecer a eles algum auxílio para prosseguir o caminho de seguimento com alegria e em profunda comunhão com Cristo. Também no Seminário, pude encontrar-me, em uma atmosfera fraterna, com alguns representantes das Igrejas ortodoxas e ortodoxas orientais, dos quais nós, católicos, nos sentimos muito próximos. Exatamente desta ampla semelhança deriva também a missão comum de ser fermento para a renovação da nossa sociedade. Um amigável encontro com representantes do laicato católico alemão concluiu a série de eventos no Seminário.

A grande celebração eucarística dominical no aeroporto turístico de Friburgo foi um outro momento culminante da Visita pastoral, e a ocasião para agradecer a quantos se empenham nos vários âmbitos da vida eclesial, sobretudo os numerosos voluntários e colaboradores das iniciativas caritativas. São esses que tornam possíveis os múltiplos auxílios que a Igreja alemã oferece à Igreja universal, especialmente nas terras de missão. Recordei também que o seu precioso serviço será sempre fecundo, quando deriva de uma fé autêntica e viva, em união com os Bispos e o Papa, em união com a Igreja. Enfim, antes do meu retorno, falei com milhares de católicos comprometidos na Igreja e na sociedade, sugerindo algumas reflexões sobre a ação da Igreja em uma sociedade secularizada, com o convite de ser mais livre de fardos materiais e políticos para ser mais transparente a Deus.

Queridos irmãos e irmãs, esta Viagem Apostólica à Alemanha ofereceu-me uma ocasião propícia para encontrar os fiéis da minha pátria alemã, para confirmá-los na fé, na esperança e no amor, e compartilhar com eles a alegria de serem católicos. Mas a minha mensagem era destinada a todo o povo alemão, para convidas a todos a olhar o futuro com confiança. É verdade, "Onde há Deus, há futuro". Agradeço, mais uma vez, a todos aqueles que tornaram possível esta Visita e a quantos me acompanharam com a oração. O Senhor abençoe o Povo de Deus na Alemanha e abençoe a todos vós. Obrigado.


Ao final da Catequese, o Papa dirigiu aos peregrinos de língua portuguesa a seguinte saudação:

Amados peregrinos de língua portuguesa,

cordiais saudações para todos vós, de modo especial para os fiéis de Piracicaba e Belo Horizonte, de Bauru e Apucarana: convido-vos a olhar com confiança o vosso futuro em Deus. Com a graça de Cristo, sois capazes de levar ao mundo o fogo do amor de Deus. Sobre vós e vossas famílias desça a minha Bênção.

Fonte: Canção Nova

sábado, 17 de setembro de 2011

Como deve ser a catequese?

Como deve ser a catequese?
A revelação e clareza do caminho de Cristo

A Moral católica é a base do comportamento do cristão; por isso é ensinada na catequese, de modo que o cristão, conhecendo os dogmas da fé e celebrando na liturgia os Sacramentos da salvação, viva também conforme as leis de Deus. O Catecismo da Igreja Católica ensina como deve ser a catequese (CIC §1697): “Importa, na catequese, revelar com toda clareza a alegria e as exigências do caminho de Cristo (Cf. CT 29).

A catequese da “vida nova” (Rm 6,4) em Cristo será:

1 - Uma catequese do Espírito Santo, Mestre interior da vida segundo Cristo, doce hóspede e amigo que inspira, conduz retifica e fortifica esta vida. O Espírito Santo convence o cristão da beleza da “Lei de Cristo”, e o faz vivê-la com gosto, sem peso; é um jugo suave e um fardo leve que verdadeiramente liberta dos pecados e dos vícios e o conduz à santidade.

2 - Uma catequese da graça, pois é pela graça que somos salvos, e é pela graça que nossas obras podem produzir frutos para a vida eterna; sem a graça de Deus o homem não pode vencer a fraqueza da natureza humana prejudicada pelo pecado original. A graça de Deus alimenta e fortalece nossas disposições naturais para vivermos segundo a vontade de Deus.

3 - Uma catequese das bem-aventuranças, pois o caminho de Cristo se resume às bem-aventuranças, único caminho para a felicidade eterna, à qual o coração do homem aspira. No Sermão da Montanha Cristo traçou a “Constituição do Reino de Deus”, a Carta Magna do cristão; a lei da santidade.

4 - Uma catequese do pecado e do perdão, pois, sem se reconhecer pecador, o homem não pode conhecer a verdade sobre si mesmo, condição do reto agir, e sem a oferta do perdão não poderia suportar essa verdade. Reconhecendo-se pecador, e acolhendo o perdão de Deus pelo sangue de Cristo por nós derramado, o cristão se vê livre da pior realidade deste mundo: o pecado. Cristo veio exatamente “para tirar o pecado do mundo” (Cf. Jo 1, 29); Ele é o Cordeiro de Deus que aceitou ser imolado para curar a lepra da nossa alma e nos reconciliar com Deus.

5 - Uma catequese das virtudes humanas, que faz abraçar a beleza e a atração das retas disposições em vista do bem. No lado oposto dos pecados capitais (soberba, ganância, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça),o cristão deve viver as “virtudes capitais” (humildade, desprendimento, pureza, temperança, bondade, diligência), que trazem a felicidade a seu coração.

6 - Uma catequese das virtudes teologais da fé, esperança e caridade, que se inspira com prodigalidade no exemplo dos santos. Essas virtudes são relacionadas ao próprio Deus, por isso são teologais; a fé que vem de Deus (“Sem fé é impossível agradar a Deus”); a esperança que nos conduz ao céu, a vida eterna em Deus; e o amor que é a própria realidade de Deus.

7- Uma catequese do duplo mandamento da caridade desenvolvido no Decálogo. São Paulo disse que “a caridade é vínculo da perfeição”, e que, “quem vive a caridade cumpre toda a lei”. Todos os mandamentos foram reduzidos pelo Senhor em: "Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo". Esta é a Lei e os Profetas.

8 - Uma catequese eclesial, pois é nos múltiplos intercâmbios dos “bem espirituais” na “comunhão dos santos” que a vida cristã pode crescer, desenvolver-se e comunicar-se. Cristo instituiu a Igreja para levar a salvação a todos os homens de todos os tempos e lugares até que Ele volte; por isso a Igreja é “o sacramento universal da salvação”; ela é necessária para a salvação; sem ela não há os sacramentos da salvação. A catequese deve ensinar o Credo da Igreja, os Sacramentos da Igreja, a Moral da Igreja, a Liturgia da Igreja e a Oração da Igreja.

Esses são os princípios básicos que não podem faltar em uma boa catequese, fiel ao que Cristo Jesus nos ensinou e quer que a Igreja transmita a seus filhos para que sejam salvos.

Felipe Aquino
felipeaquino@cancaonova.com

Prof. Felipe Aquino, casado, 5 filhos, doutor em Física pela UNESP. É membro do Conselho Diretor da Fundação João Paulo II. Participa de aprofundamentos no país e no exterior, escreveu mais de 60 livros e apresenta dois programas semanais na TV Canção Nova: "Escola da Fé" e "Trocando Idéias". Saiba mais em Blog do Professor Felipe Site do autor: www.cleofas.com.br

Fonte: Canção Nova

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Catequese de Bento XVI sobre o Salmo 22

CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de setembro de 2011


Queridos irmãos e irmãs,

na Catequese de hoje, gostaria de me aprofundar em um Salmo com fortes implicações cristológicas, que continuamente aflora nas narrações da paixão de Jesus, com a sua dúplice dimensão de humilhação e de glória, de morte e de vida. É o Salmo 22, segundo a tradição hebraica, 21 segundo a tradição greco-latina, uma oração dolorosa e tocante, de uma densidade humana e riqueza teológica que o tornam um dos Salmos mais rezados e estudados de todo o Saltério. Trata-se de uma longa composição poética, e nós nos deteremos particularmente sobre a primeira parte, centrada no lamento, para aprofundar algumas dimensões significativas da oração de súplica a Deus.

Esse Salmo apresenta a figura de um inocente perseguido e circundado por adversários que desejam a sua morte; e ele recorre a Deus em um lamento doloroso que, na certeza da fé, abre-se misteriosamente ao louvor. Na sua oração, a realidade angustiante do presente e a memória consoladora do passado alternam-se, em uma sofrida busca de consciência da própria situação desesperadora, que, contudo, não deseja renunciar à esperança. O seu grito inicial é um apelo dirigido a um Deus que parece distante, que não responde e parece tê-lo abandonado:

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?
Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis;
imploro de noite e não me atendeis" (vv. 2-3)

Deus silencia-se, e esse silêncio lacera a alma do orante, que incessantemente chama, mas sem encontrar resposta. Os dias e as noites sucedem, em uma busca inestancável de uma palavra, de um auxílio que não vem; Deus parece tão distante, tão esquecido, tão ausente. A oração pede escuta e resposta, solicita um contato, busca uma relação que possa dar conforto e salvação. Mas, se Deus não responde, o grito de auxílio se perde no rosto e na solidão tornada insustentável. E ainda assim, o orante do nosso Salmo, por três vezes, no seu grito, chama o Senhor de "meu" Deus, em um extremo ato de confiança e de fé. Não obstante toda a aparência, o Salmista não pode crer que o vínculo com o Senhor tenha sido interrompido totalmente; e, enquanto questiona o porquê de um presunto abandono incompreensível, afirma que o "seu" Deus não pode o abandonar.

Come se nota, o grito inicial do Salmo, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?", é reportado pelos Evangelhos de Mateus e de Marcos como o grito lançado por Jesus morrendo na cruz (cf. Mt 27,46; Mc 15,34). Isso expressa toda a desolação do Messias, Filho de Deus, que está enfrentando o drama da morte, uma realidade totalmente oposta ao Senhor da vida. Abandonado por quase todos os seus, traído e renegado pelos discípulos, entornado por quem o insulta, Jesus está sob o peso esmagador de uma missão que deve passar pela humilhação e aniquilamento. Por isso grita ao Pai, e o seu sofrimento assume as palavras dolorosas do Salmo. Mas o seu não é um grito desesperado, como não o era aquele do Salmista, que na sua súplica percorre um caminho atormentado de névoas, mas, sim, encontra-se em uma perspectiva de louvor, na confiança da vitória definitiva. E porque, no costume hebraico, citar ao início de um Salmo implicava uma referência a todo o poema, a oração agonizante de Jesus, ainda que mantendo a sua carga de indizível sofrimento, abre-se à certeza da glória. "Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?", dirá o Ressuscitado aos discípulos de Emaús (Lc 24,26). Na sua paixão, em obediência ao Pai, o Senhor Jesus atravessa o abandono e a morte para chegar à vida e doá-la a todos os crentes.

A esse grito inicial de súplica, no nosso Salmo 22, segue-se, em doloroso contraste, a recordação do passado:

"Nossos pais puseram sua confiança em vós,
esperaram em vós e os livrastes.
A vós clamaram e foram salvos;
confiaram em vós e não foram confundidos" (vv. 5-6)

Aquele Deus que hoje, ao Salmista, parece tão distante, é, contudo, o Senhor misericordioso que Israel sempre experimentou em sua história. O povo a que o orante pertence foi alvo do amor de Deus e pôde testemunhar a sua fidelidade. A começar pelos Patriarcas, e depois no Egito e na longa peregrinação pelo deserto, na permanência na terra prometida em contato com populações agressivas e inimigas, até a escuridão do exílio, toda a história bíblica foi uma história de grito de auxílio por parte do povo e de respostas salvíficas por parte de Deus. E o Salmista faz referência à constante fé dos seus pais, que "confiaram" – por três vezes essa palavra é repetida – sem nunca ficarem desiludidos. Agora, todavia, parece que essa cadeia de invocações confiantes e respostas divinas se interrompe; a situação do Salmista parece desmentir toda a história da salvação, tornando ainda mais dolorosa a realidade presente.

Mas Deus não pode se contradizer, e eis então que a oração volta a descrever a situação penosa do orante, para induzir o Senhor a ter piedade e intervir, como tinha sempre feito no passado. O Salmista define-se como um "verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe" (v. 7), é ridicularizado, escarnecido (cf. v. 8) e ferido exatamente na fé: "Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama" (v. 9), dizem. Sob os golpes zombeteiros da ironia e da provocação, parece quase que o perseguido perde as próprias conotações humanas, como o Servo sofredor esboçado no Livro de Isaías (cf. Is 52,14; 53,2b-3). E como o justo oprimido do Livro da Sabedoria (cf. 2,12-20), como Jesus no Calvário (cf. Mt 27,39-43), o Salmista coloca em questão o seu relacionamento com o seu Senhor, no realce cruel e sarcástico disto que o está fazendo sofrer: o silêncio de Deus, a sua aparente ausência. No entanto, Deus esteve presente na existência do orante com uma proximidade e uma ternura incontestáveis. O Salmista recorda-o ao Senhor: "Sim, fostes vós que me tirastes das entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio. Eu vos fui entregue desde o meu nascer" (vv. 10-11a). O Senhor é o Deus da vida, que faz nascer e acolhe o recém-nascido e toma cuidado dele com afeto de pai. E, se antes era feita memória da fidelidade de Deus na história do povo, agora o orante evoca a própria história pessoal de relacionamento com o Senhor, ressaltando o momento particularmente significativo do início da sua vida. E ali, não obstante a desolação do presente, o Salmista reconhece uma proximidade e um amor divinos tão radicais a ponto de poder agora exclamar, em uma confissão plena de fé e geradora de esperança: "desde o ventre de minha mãe vós sois o meu Deus" (v. 11b).

O lamento torna-se, então, súplica do coração: "Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de mim, porque não há quem me ajude" (v. 12). A única proximidade que o Salmista percebe e que o espanta é aquela dos inimigos. É, portanto, necessário que Deus se faça próximo e socorra, porque os inimigos circundam o orante, cercam-no, e são como touros numerosos, como leões que abrem suas fauces para rugir e arrebatar (cf. vv. 13-14). A angústia altera a percepção do perigo. Os adversários parecem invencíveis, tornam-se animais ferozes e perigosíssimos, enquanto o Salmista é como um pequeno verme, impotente, sem defesa alguma. Mas essas imagens usadas no Salmo servem também para dizer que, quando o homem torna-se brutal e agride o irmão, algo de animalesco toma conta dele, parece perder toda a aparência humana; a violência tem sempre em si algo de bestial e somente a intervenção salvífica de Deus pode restituir o homem à sua humanidade. Ora, para o Salmista, objeto de tantas ferozes agressões, parece não haver mais escapatória, e a morte começa a tomar posse dele: "Derramo-me como água, todos os meus ossos se desconjuntam; [...] minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar a minha língua [...] repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica" (vv. 15.16.19). Com imagens dramáticas, que se reencontram nas narrativas da paixão de Cristo, descreve-se o desfalecimento do corpo condenado, a sede insuportável que atormenta o homem moribundo e que encontra eco no pedido de Jesus: "Tenho sede" (cf. Jo 19,28), para chegar ao gesto definitivo dos algozes que, como os soldados sob a cruz, repartem entre si as vestes da vítima, considerada já morta (cf. Mt 27,35; Mc 15,24; Lc 23,34; Jo 19,23-24).

Eis então, urgente, de novo o pedido de socorro: "Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai. […] Salvai-me" (vv. 20.22a). É esse um grito que adentra os céus, porque proclama uma fé, uma certeza que vai para além de toda a dúvida, de toda a escuridão e de toda a desolação. E o lamento transforma-se, cede lugar à oração no acolhimento da salvação: "Então, anunciarei vosso nome a meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembleia" (vv. 22c-23). Assim, o Salmo abre-se à ação de graças, ao grande hino final que envolve todo o povo, os fiéis do Senhor, a assembleia litúrgica, as gerações futuras (cf. vv. 24-32). O Senhor vem em auxílio, salvou o pobre e lhe mostrou o seu rosto de misericórdia. Morte e vida se entrecruzam em um mistério inseparável, e a vida triunfou, o Deus da salvação se mostrou no Senhor de modo incontestável, tanto que todos os confins da terra O celebrarão e diante d'Ele todas as famílias dos povos se prostrarão. É a vitória da fé, que pode transformar a morte em dom da vida, o abismo do dor em fonte de esperança.

Irmãos e irmãs caríssimos, esse Salmo nos levou ao Gólgota, aos pés da cruz de Jesus, para reviver a sua paixão e compartilhar a alegria fecunda da ressurreição. Deixemo-nos, portanto, invadir pela luz do mistério pascal também na aparente ausência de Deus, também no silêncio de Deus, e, como os discípulos de Emaús, aprendamos a discernir a verdadeira realidade para além das aparências, reconhecendo o caminho da exaltação exatamente na humilhação, e o pleno manifestar-se da vida na morte, na cruz. Assim, recolocando toda a nossa confiança e a nossa esperança em Deus Pai, em cada angústia, possamos rezar também nós a Ele com fé, e o nosso grito de súplica se transforme em canto de louvor. Obrigado.

Ao final da Catequese, o Papa dirigiu aos peregrinos de língua portuguesa a seguinte saudação:

Dirijo a minha saudação amiga aos membros da União Missionária Franciscana, vindos de Portugal, aos brasileiros do Grupo Vocacional e a todos os demais peregrinos lusófonos aqui presentes. Neste dia da Exaltação da Santa Cruz, deixemo-nos invadir pela luz do mistério pascal, para reconhecermos o caminho da exaltação precisamente na humilhação, colocando toda a nossa esperança em Deus, e assim o nosso grito de ajuda transformar-se-á em cântico de louvor. E que a bênção de Deus desça sobre vós e vossas famílias!

Fonte: Canção Nova

domingo, 11 de setembro de 2011

Formação católica: pra quê?

Formação católica: pra quê?

Francisco Dockhorn (Maio de 2009)

O Brasil já foi referido muitas vezes como o maior país católico do mundo. Uma conhecida pesquisa mostrou recentemente que cerca de 74% da população brasileira se declara católica.

Mas quantos destes conhecem realmente a doutrina católica?

Quantos destes procuram viver de acordo com os mandamentos de Deus e os preceitos da Santa Igreja?

E talvez não procurem viver assim porque nem conheçam a doutrina católica...

A situação torna-se mais complicada ainda quando presenciamos instituições que se denominam católicas e mesmo parte do clero defendendo idéias contrárias à doutrina católica.

Com efeito, o saudoso Papa João Paulo II, na sua fabulosa Encíclica Veritatis Splendor (1993), mostrou grande preocupação em relação à idéias contrárias à doutrina católica sendo defendidas em instituições que se denominam católicas (n.116).

A importância de se conhecer a fé e a moral católica, em uma formação consistente, é muitas vezes negligenciada pelos próprios católicos, ignorando que:

* A fé NÃO é um sentimento, e sim uma adesão à um conjunto de verdades que são apreendidas intelectualmente (Catecismo da Igreja Católica, 155)



* Muitos deixam de ser católicos por terem conhecido pouco os fundamentos da fé católica, e acabam aderindo ao protestantismo, ao espiritismo, ao ateísmo, ao agnosticismo, ao indiferentismo religioso, ao relativismo, ao socialismo ou outras doutrinas incompatíveis com a fé católica



* A vida moral é condição necessária para a salvação; embora muitos possam se salvar na ignorância invencível, através da busca sincera da verdade e da vivência da lei natural, existe também um tipo de ignorância que é culposa, quando não se procura suficientemente a verdade e o bem (Catecismo da Igreja Católica, 1790-1791)



* A vida moral é condição necessária para a plena realização humana e a justa ordem social (se a Lei Divina fosse observada, não haveria homicídios voluntários, roubos, assaltos, estupros, drogas, corrupção, adultérios, abortos, invasões de terras, governos totalitários, nacionalismos desordenados, etc)



* Pouco se ama o que pouco se conhece, muito se ama o que muito se conhece. Conhecendo a doutrina católica, mais se ama a Deus, as Suas Obras e a Sua Santa Igreja, mais se deseja realizar a Sua Vontade, mais se deseja o Céu.



* É impossível realizar um apostolado eficaz e dialogar com quem pensa diferente, sem conhecer a doutrina católica. Já dizia São Josemaria Escrivá: “Para o apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração”.

Já dizia Nosso Senhor Jesus Cristo: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.” (Jo 8, 32)

Em tudo isso vemos que não basta, então, ter uma vida espiritual; é preciso também o conhecimento de um conjunto de verdades necessárias para dar a direção adequada a esta vida espiritual.

É como um barco à vela: não basta que ele se mova, mas é preciso se mover para a direção certa.

Para combater, portanto, um relativismo doutrinal “politicamente correto” que muitas vezes é ensinado, em 1992 o saudoso Papa João Paulo II determinou a publicação do “Catecismo da Igreja Católica”, contendo um resumo oficial da doutrina católica. Pela sede que o ser humano naturalmente tem de conhecer à Deus e Sua Verdade, o Catecismo tem se difundido cada vez mais. Mas infelizmente, muitos católicos ainda não tem contato com ele.

Muitos falam da necessidade de conhecer-se a Bíblia, mas ignoram o fato que a Bíblia NÃO contém toda a Verdade Revelada por Deus (há ainda a Tradição Apostólica), e só pode ser autenticamente interpretada pelo Sagrado Magistério da Igreja, que nos transmite a Escritura (a Bíblia) e a Tradição. Diz o Concilio Vaticano II: "O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo." (Dei Verbum, n. 10)

Sem a autoridade do Magistério, portanto, a Bíblia como temos hoje nem existiria, pois foi o próprio Magistério quem definiu os livros que deveriam fazer parte da Sagrada Escritura (os chamados "canônicos") e quais não deveriam (os chamados "apócrifos"), no pontificado do Papa São Dâmaso, próximo ao Concílio de Éfeso (século IV). A Bíblia sem o Magistério da Igreja é perigosa, pois pode levar à interpretações equivocadas e com péssimas conseqüências em todos os sentidos.

Assim, é fundamental que cada católico tenha à mão um Catecismo, tanto para um estudo sistemático, como para ser fonte de consulta quando houver necessidade.

O Catecismo pode ser encontrado, em geral, nas livrarias católicas, tanto em sua versão completa como na sua versão em compêndio (na forma de perguntas e respostas).

A versão eletrônica do Catecismo pode ser encontrada em: http://www.vatican.va/archive/ccc/index_po.htm

Fonte: Reino da Virgem

SÉRIE - CATEQUESE DO PAPA: A Luta de Jacó

SÉRIE - CATEQUESE DO PAPA: A Luta de Jacó



CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 25 de maio de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.


***

"Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, eu gostaria de refletir convosco sobre um texto do Livro do Gênesis que narra um episódio um pouco especial da história do patriarca Jacó. É um fragmento de difícil interpretação, mas importante na nossa vida de fé e de oração: trata-se do relato da luta com Deus no vau de Jaboc, do qual ouvimos um pedaço.

Como recordareis, Jacó tinha tirado do seu irmão Esaú a primogenitura, em troca de um prato de lentilhas, e depois recebeu de maneira enganosa a bênção do seu pai Isaac, que nesse momento era muito idoso, aproveitando-se da sua cegueira. Fugindo da ira de Esaú, refugiou-se na casa de um parente, Labão; tinha se casado, havia enriquecido e voltava à sua terra natal, disposto a enfrentar o seu irmão, depois de ter tomado algumas prudentes medidas. Mas quando tudo está preparado para este encontro, depois de ter feito que os que estavam com ele atravessassem o vau que delimitava o território de Esaú, Jacó fica sozinho e é agredido por um desconhecido, com quem luta a noite inteira. Esta luta corpo a corpo – que encontramos no capítulo 32 do Livro do Gênesis – se converte para ele em uma singular experiência de Deus.
A noite é o momento favorável para agir escondido; é o tempo oportuno, portanto, para Jacó, de entrar no território do irmão sem ser visto e talvez com a ilusão de pegar Esaú de surpresa. No entanto, é ele quem é surpreendido por um ataque imprevisto, para o qual não estava preparado. Havia usado sua astúcia para tentar evitar uma situação perigosa, acreditava ter tudo sob controle e, no entanto, encontra-se agora tendo de enfrentar uma luta misteriosa que o surpreende em solidão e sem dar-lhe a oportunidade de organizar uma defesa adequada. Indefeso, à noite, o patriarca Jacó luta contra alguém. O texto não especifica a identidade do agressor; usa um termo hebraico que indica “um homem” de maneira genérica, “um, alguém”; trata-se de uma definição vaga, indeterminada, que quer manter o assaltante no mistério. Está escuro, Jacó não consegue distinguir seu adversário, e também para nós permanece o mistério; alguém enfrenta o patriarca e este é o único dado seguro que nos dá o narrador. Somente no final, quando a luta já terminou e esse “alguém” desapareceu, só então Jacó o nomeará e poderá dizer que lutou contra Deus.

O episódio se desenvolve na escuridão e é difícil perceber não só a identidade do assaltante de Jacó, senão também como se deu a luta. Lendo o texto, é difícil estabelecer qual dos dois adversários está ganhando; os verbos são usados frequentemente sem um sujeito explícito e as ações acontecem quase de forma contraditória; então, quando parece que um dos dois vai prevalecer, a ação seguinte desmente isso imediatamente e apresenta o outro como vencedor. No começo, de fato, Jacó parece ser o mais forte, e o adversário – diz o texto - “não podia vencê-lo” (v. 26); finalmente, atinge Jacó no fêmur, provocando-lhe um deslocamento. Poderíamos pensar que Jacó sucumbe; no entanto, é o outro que lhe pede que o deixe partir; mas o patriarca se nega, impondo uma condição: “não te largarei, se não me abençoares” (v. 27). Aquele que de maneira enganosa havia roubado do seu irmão a bênção do primogênito agora a quer de um desconhecido, de quem talvez começa a perceber as conotações divinas, sem poder reconhecê-lo verdadeiramente.

O rival, que parece estar retido e portanto, derrotado por Jacó, ao invés de ceder à petição do patriarca, pergunta seu nome: “Qual é o teu nome?”. O patriarca lhe responde: “Jacó” (v. 28). Aqui a luta dá um giro importante. Conhecer o nome de alguém implica em uma espécie de poder sobre a pessoa, porque o nome, na mentalidade bíblica, contém a realidade mais profunda do indivíduo, desvela o segredo e o destino. Conhecer o nome de alguém quer dizer conhecer a verdade sobre o outro e isso permite poder dominá-lo. Quanto, portanto, por petição do desconhecido, Jacó revela seu nome, está se colocando nas mãos do seu adversário, é uma forma de render-se, de entregar-se totalmente ao outro.

Mas, nesse gesto de rendição, Jacó também acaba sendo vencedor, paradoxalmente, porque recebe um nome novo, junto ao reconhecimento de vitória por parte do seu adversário, que lhe diz: “Doravante não te chamarás Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com homens, e venceste” (v. 29). “Jacó” era um nome que recordava a origem problemática do patriarca; em hebraico, de fato, recorda o termo “calcanhar” e remete o leitor ao momento do nascimento de Jacó, quando, saindo do ventre materno, agarra o calcanhar do seu irmão gêmeo (Gn 25, 26), quase pressagiando o dano que realiza ao seu irmão na idade adulta. Mas o nome de Jacó recorda também o verbo “enganar, suplantar”. E agora, na luta, o patriarca revela ao seu oponente, em um gesto de rendição e doação, sua própria realidade de quem engana, quem suplanta; mas o outro, que é Deus, transforma esta realidade negativa em positiva: Jacó, o defraudador, se converte em Israel; é-lhe dado um nome novo que lhe confere uma nova identidade. Mas também aqui o relato mantém sua duplicidade, porque o significado mais provável de Israel é “Deus forte, Deus vence”.

Portanto, Jacó prevaleceu, venceu – é o próprio adversário quem afirma isso -, mas sua nova identidade, recebida do próprio adversário, afirma e testemunha a vitória de Deus. E quando Jacó pergunta, por sua vez, o nome do seu oponente, este não quer dizer-lhe, mas o revela em um gesto inequívoco, dando-lhe sua bênção. Esta bênção que o patriarca havia lhe pedido no começo da luta lhe é concedida agora. E não é uma bênção obtida mediante engano, mas gratuitamente concedida por Deus, que Jacó pode receber porque está sozinho, sem proteção, sem astúcias nem enganos; entrega-se indefeso, aceita a rendição e confessa a verdade sobre si mesmo. Por isso, no final da luta, recebida a bênção, o patriarca pode finalmente reconhecer o outro, o Deus da bênção: “Vi Deus face a face e minha vida foi poupada” (v. 31); agora pode atravessar o vau, carregando um nome novo, mas “vencido” por Deus e marcado para sempre, mancando devido ao ferimento recebido.

As explicações que a exegese bíblica oferece com relação a este fragmento são muitas; em particular, os estudiosos reconhecem aqui tentativas e componentes literários de vários tipos, como também referências a algum conto popular. Mas quando estes elementos são assumidos pelos autores sagrados e englobados no relato bíblico, mudam de significado e o texto se abre a dimensões mais amplas. O episódio da luta no Jaboc se mostra ao crente como texto paradigmático no qual o povo de Israel fala da sua própria origem e delineia os traços de uma relação especial entre Deus e o homem. Por isso, como se afirma também no Catecismo da Igreja Católica, “a tradição espiritual da Igreja divisou nesta narrativa o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança” (n. 2573). O texto bíblico nos fala da longa noite da busca de Deus, da luta para conhecer o nome e ver seu rosto; é a noite da oração que, com tenacidade e perseverança, pede a Deus a bênção e um nome novo, uma nova realidade, fruto da conversão e do perdão.

A noite de Jacó no vau de Jaboc se converte, assim, para o crente, em um ponto de referência para entender a relação com Deus que, na oração, encontra sua máxima expressão. A oração exige confiança, proximidade, quase um corpo a corpo simbólico, não com um Deus adversário e inimigo, mas com um Senhor que abençoa e que permanece sempre misterioso, que aparece como inalcançável.

Por isso, o autor sacro utiliza o símbolo da luta, que envolve força de ânimo, perseverança, tenacidade em alcançar o que se deseja. E se o objeto do desejo é a relação com Deus, sua bênção e seu amor, então a luta só pode culminar no dom de si mesmo a Deus, no reconhecimento da própria fraqueza, que vence quando consegue abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus.

Queridos irmãos e irmãs, toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, de consumar no desejo e na petição de uma bênção de Deus que não pode ser arrancada ou conseguida somente com as nossas forças, mas que deve ser recebida com humildade d'Ele, como dom gratuito que permite, finalmente, reconhecer o rosto de Deus. E mais ainda: Jacó, que recebe um nome novo e se converte em Israel, também dá ao lugar um nome novo, onde lutou com Deus, rezou-lhe; nomeia-o Fanuel, que significa “rosto de Deus”. Com esse nome, ele reconhece que o lugar está cheio da presença do Senhor; santifica essa terra, dando-lhe o selo daquele misterioso encontro com Deus. Aquele que se deixa abençoar por Deus, abandona-se n'Ele, deixa-se transformar por Ele, torna o mundo abençoado. Que o Senhor nos ajude a combater a boa batalha da fé (cf. 1Tm 6,12; 2Tm 4,7) e a pedir, na nossa oração, a sua bênção, para que nos renove na espera de ver seu rosto.

Obrigado!

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:



Hoje gostaria de refletir sobre um texto do Livro de Gênesis: a luta noturna do Patriarca Jacó com Deus. Jacó havia usurpado a primogenitura do seu irmão Esaú e obtivera, por meio de engano, a bênção de seu pai Isaac indo depois refugiar-se junto do seu tio Labão. Ao voltar para a sua pátria improvisadamente é atacado, de noite, por um estranho. Ao cabo de uma fatigosa luta “corpo-a-corpo” com este personagem misterioso, que aos poucos vai revelando a sua natureza divina, Jacó, cujo nome derivava do verbo hebraico que significa “enganar, suplantar”, recebe um novo nome que lhe vem de Deus: passa a se chamar Israel, que significa “Deus é forte, Deus vence”. A Tradição espiritual da Igreja interpretou esse episódio como um símbolo da oração como combate da fé e da vitória da perseverança. Realmente, a oração exige confiança e intimidade, quase um corpo-a-corpo simbólico, não com um Deus adversário, mas com o Senhor que abençoa e que permanece misterioso. De fato, toda nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração: para receber com humildade a bênção que nos transforma e que nos permite reconhecer a face de Deus.

Queridos peregrinos vindos de Portugal e do Brasil, nomeadamente da paróquia de Itú, agradeço a vossa presença e quanto a mesma significa de confissão de fé e amor a Deus. Procurai sempre na oração o auxílio do Senhor para combater a boa batalha da fé. De coração, a todos abençôo. Ide com Deus!


[Tradução: Aline Banchieri.

© Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: Redemptionis Sacramentum

SÉRIE - CATEQUESE DO PAPA - Perdão que Renova e Transforma

SÉRIE - CATEQUESE DO PAPA - Perdão que Renova e Transforma


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.
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Queridos irmãos e irmãs:

Lendo o Antigo Testamento, uma figura se destaca entre as demais: a de Moisés, como homem de oração. Moisés, o grande profeta e guia na época do êxodo, exerceu sua função de mediador entre Deus e Israel, tornando-se portador, com relação ao povo, das palavras e mandatos divinos, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, ensinando os israelitas a viverem na obediência e na confiança a Deus, durante a longa estadia no deserto, mas também, sobretudo, rezando.

Ele reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, tentava converter o coração dos egípcios (cf. Ex 8-10); pede ao Senhor a cura da irmã Maria, enferma de lepra (cf. Nm 12,9-13); intercede pelo povo que havia se rebelado, aterrorizado pelo informe dos exploradores (cf. Nm 14,1-19); reza quando o fogo estava devorando o acampamento (cf. Nm 11,1-2) e quando serpentes venenosas estavam fazendo um massacre (cf. Nm 21,4-9); dirige-se ao Senhor e reage protestando quando o peso da sua missão se tornou muito grande (cf. Nm 11,10-15); vê Deus e fala com ele "face a face", como se fala com um amigo (cf. Ex 24,9-17; 33,7-23; 34,1-10.28-35).

Também quando o povo, no Sinai, pede a Aarão que faça um bezerro de ouro, Moisés reza, explicando de forma emblemática sua própria função de intercessor. O episódio é narrado no capítulo 32 do Livro do Êxodo e tem um relato paralelo no Deuteronômio, no capítulo 9. É neste episódio que eu gostaria de me deter na catequese de hoje, em particular na oração de Moisés que encontramos na narração do Êxodo. O povo se encontrava aos pés do Monte Sinai, enquanto Moisés, em cima do monte, esperava o dom das Tábuas da Lei, jejuando durante quarenta dias e quarenta noites (cf. Ex 24,18; Dt 9,9). O número 40 tem um valor simbólico e significa a totalidade da experiência, enquanto com o jejum se indica que a vida vem de Deus, é Ele quem a sustenta.

O fato de comer implica na assunção do alimento que nos sustenta; por isso, jejuar, renunciando à comida, adquire, neste caso, um significado religioso: é uma maneira de indicar que não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor (cf. Dt 8,3). Jejuando, Moisés indica que espera o dom da Lei divina como fonte de vida; esta desvela a vontade de Deus e nutre o coração do homem, fazendo-o entrar em uma aliança com o Altíssimo, que é fonte de vida, é a Vida em si.

Mas, enquanto o Senhor dá a Moisés a Lei sobre o monte, aos pés dele o povo a desobedece. Incapazes de resistir na espera e na ausência do mediador, os israelitas pedem a Aarão: "Vem, faze-nos deuses que caminhem à nossa frente. Pois quanto a esse Moisés, o homem que nos fez sair da terra do Egito, não sabemos o que aconteceu" (Ex 32,1). Cansado de um caminho com um Deus invisível, agora que Moisés, o mediador, desapareceu, o povo pede uma presença tangível, palpável do Senhor, e encontra no bezerro de metal fundido feito por Aarão um deus que se torna acessível, manipulável, à mão do homem. Esta é uma tentação constante no caminho da fé: eludir o mistério divino construindo um deus compreensível, que corresponda aos próprios esquemas, aos próprios projetos. Tudo o que acontece no Sinai mostra a necedade e vaidade ilusória desta pretensão porque, como afirma ironicamente o Salmo 106, "assim trocaram a sua Glória pela imagem de um bezerro que come pasto" (Sl 106, 20).

Por isso, o Senhor reage o ordena a Moisés que desça do monte, revelando-lhe o que o povo está fazendo e terminando com estas palavras: "Deixa que a minha ira se inflame contra eles e eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação" (Ex 32,10). Assim como com Abraão com relação a Sodoma e Gomorra, também agora Deus desvela a Moisés o que pretende fazer, como se não quisesse agir sem seu consentimento (cf. Am 3,7). Diz: "Minha ira arderá contra eles".

Na verdade, "minha ira arderá contra eles" é dito a Moisés para que intervenha e lhe peça que não o faça, revelando assim que o desejo de Deus é sempre de salvação. Como para as duas cidades na época de Abraão, o castigo e a destruição, com que se expressa a ira de Deus como rejeição do mal, indicam a gravidade do pecado cometido; ao mesmo tempo, a petição do intercessor pretende manifestar a vontade de perdão do Senhor.

Esta é a salvação de Deus, que envolve misericórdia, mas que sempre denuncia a verdade do pecado, do mal que existe, para que, assim, o pecador, reconhecendo e rejeitando o próprio mal, possa se deixar perdoar e transformar por Deus. Dentro da realidade corrupta do homem pecador, a oração de intercessão torna operativa, dessa maneira, a misericórdia divina, que encontra sua voz na súplica de quem reza e se torna presente através dele onde há necessidade de salvação.

A súplica de Moisés se centra na fidelidade e na graça do Senhor. Ele se refere primeiro à historia de redenção que Deus começou com a saída de Israel, para depois recordar a antiga promessa feita aos pais. O Senhor conseguiu a salvação libertando seu povo da escravidão egípcia; "Por que - pergunta Moisés - os egípcios diriam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou do Egito, para matá-los nas montanhas e exterminá-los da face da terra’?" (Ex 32,12). A obra de salvação que se começou deve ser completada; se Deus fizesse seu povo perecer, isso poderia ser interpretado como o sinal de uma incapacidade divina de levar a cumprimento o projeto de salvação.

Deus não pode se permitir isso; Ele é o Senhor bom que salva, a garantia da vida, é o Deus da misericórdia e do perdão, da libertação do pecado de mata. Assim, Moisés apela a Deus, à vida interior de Deus contra a sentença exterior. Mas então, argumenta Moisés com o Senhor, se os seus escolhidos perecem, ainda que sejam culpados, Ele poderia parecer incapaz de vencer o pecado.

E isso não pode ser aceito. Moisés teve uma experiência concreta do Deus de salvação, foi enviado como mediador da libertação divina e reza com a sua oração, torna-se intérprete de uma dupla inquietude, preocupado pelo destino do seu povo, mas também pela honra que se deve ao Senhor, pela verdade do seu nome.

O intercessor quer, de fato, que o povo de Israel se salve, porque é o rebanho que lhe foi confiado, mas também para que nessa salvação se manifeste a verdadeira realidade de Deus. Amor pelos irmãos, mas também por Deus se complementam na oração de intercessão, são inseparáveis. Moisés, o intercessor, é o homem dividido entre dois amores, que na oração se unem em um único desejo de bem.

Depois, Moisés apela à fidelidade de Deus, fazendo-lhe recordar suas promessas: "Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste por juramento, dizendo: ‘Tornarei os vossos descendentes tão numerosos quanto as estrelas do céu, e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como posse para sempre'" (Ex 32,13).

Moisés recorda a história fundadora das origens, dos Pais do povo e da sua eleição, totalmente gratuita, na qual somente Deus havia tido a iniciativa. Eles receberam a promessa não pelos seus méritos, mas pela livre escolha de Deus e do seu amor (cf. Dt 10, 15). E agora, Moisés pede que o Senhor continue fiel à sua história de eleição e de salvação, perdoando seu povo. O intercessor não desculpa o pecado do seu povo, não enumera supostos méritos nem do povo nem seus, mas apela à gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de buscar quem se afasta, que permanece sempre fiel a si mesmo e que oferece ao pecador a possibilidade de voltar a Ele e converter-se, com o perdão, em justo e capaz de ser fiel.

Moisés pede a Deus que se mostre mais forte que o pecado e que a morte e, com sua oração, provoca esta revelação divina. Mediador de vida, o intercessor se solidariza com o povo; desejoso somente da salvação que o próprio Deus deseja, ele renuncia à perspectiva de converter-se em um novo povo agradecido ao Senhor. A frase que Deus lhe havia dirigido - "Mas de ti farei uma grande nação" - não é nem sequer levada em consideração pelo "amigo" de Deus, que, no entanto, está preparado para assumir, não somente a culpa do seu povo, mas também todas as suas consequências. Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, volta ao monte novamente, para pedir-lhe a salvação de Israel, dirá ao Senhor: "Mas agora perdoa-lhes o pecado; senão, risca-me do livro que escreveste" (v. 32).

Com a oração, desejando o desejo de Deus, o intercessor entra sempre mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia e se torna capaz de um amor que chega até o dom total de si mesmo. Em Moisés, que está no cume do monte, face a face com Deus, e que se torna intercessor pelo seu povo, que oferece a si mesmo - "risca-me" -, os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo, que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não só como amigo, mas como Filho. E não somente se oferece - "risca-me" -, senão que, com seu coração atravessado, faz-se "riscar"; converte-se - como diz o próprio São Paulo - em pecado, carrega consigo nossos pecados para salvar-nos: sua intercessão não é só solidariedade, mas se identifica conosco; Ele nos carrega em seu corpo. E assim, toda a existência do homem e do Filho é o grito ao coração de Deus, é perdão, mas um perdão que transforma e renova.

Acho que devemos meditar nesta realidade. Cristo está diante do rosto de Deus e reza por mim. Sua oração na cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo, tomando nosso corpo e a alma humana. E nos convida a entrar em sua identidade, fazendo-nos um corpo, um espírito com Ele, porque do alto cume da cruz, Ele não trouxe novas leis, tábuas de pedra, mas trouxe a si mesmo, seu corpo e seu sangue, como nova aliança. Assim, torna-nos consanguíneos a Ele, um corpo com Ele, identificados com Ele.

Convida-nos a entrar nessa identificação, a estar unidos a Ele em nosso desejo de ser um corpo, um espírito com Ele. Oremos ao Senhor para que esta identificação nos transforme, nos renove, porque o perdão é renovação e transformação.

Eu gostaria de terminar esta catequese com as palavras do apóstolo Paulo aos cristãos de Roma: "Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda, que ressuscitou e está à direita de Deus, intercedendo por nós? Quem nos separará do amor de Cristo? (…) Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados (…) nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 8,33-35.38.39).

Obrigado!

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Enquanto o Senhor, no cimo do monte Sinai, dava a Moisés os Dez Mandamentos, ao pé do Monte o povo de Israel já estava a transgredi-los, fabricando um vitelo de ouro e prostrando-se diante dele. Por isso Deus reage e manda Moisés descer do monte, dizendo: “Deixa que a minha ira se inflame contra eles e os destrua! De ti farei uma grande nação”. Dizia-lhe isto, na esperança que Moisés intercedesse. É que a punição e a destruição, em que se exprime a cólera de Deus como rejeição do mal, indicam a gravidade do pecado cometido, enquanto a prece do intercessor pretende manifestar a vontade de perdão de Deus.

A súplica de Moisés está inteiramente centrada na fidelidade e misericórdia do Senhor. Mediador de vida, Moisés solidariza-se com o povo; desejoso apenas da salvação que também Deus deseja, renuncia completamente à perspectiva que lhe era oferecida de se tornar, ele mesmo, pai de um povo agradável ao Senhor.

Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha saudação amiga para todos, com menção especial das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição em festa pela recente beatificação da sua Madre Fundadora. Esta queria ver-vos todas unidas num mesmo e único pensamento: Deus. No pensamento e serviço de cada uma, o hóspede seja Deus; e, com Ele, a vossa vida não poderá deixar de ser feliz. Sobre vós, vossas comunidades e famílias desça a minha Bênção.

[Tradução: Aline Banchieri.

© Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: Redemptionis Sacramentum

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Catequese de Bento XVI - 07/09/2011

CATEQUESE
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 07 de setembro de 2011



Caros irmãos e irmãs.

Retomamos hoje as audiências gerais na Praça de São Pedro, e , na escola da oração que estamos vivemos juntos nestas catequeses de quarta-feira, gostaria de iniciar a meditação de alguns salmos, que como eu dizia em junho deste ano, formam um livro de orações por excelência. O primeiro Salmo sobre o qual me concentro hoje é um Salmo de lamento e de súplica, mas permeado de profunda confiança, na qual a certeza da presença de Deus fundamenta a oração que brota de uma condição de extrema dificuldade onde se encontra o orante. Se trata do Salmo 3, que pela tradição hebraica, é atribuído a Davi, no momento que foge da presença de Absalão: é um dos episódios mais dramáticos e sofridos na vida do rei, quando seu filho rouba o seu trono real e o obriga a deixar Jerusalém para salvar a vida. A situação de perigo e de angústia experimentada por Davi é retratada nesta oração, o que nos ajuda a compreende-la, apresentando-se como uma situação típica na qual um tal salmo pode ser recitado. No grito do Salmista, cada homem pode reconhecer aqueles sentimentos de dor, de amargura e juntamente com isto, a confiança em Deus que, segundo a narração bíblica, haviam acompanhado a fuga de Davi desde de sua saída da cidade.

O salmo inicia com uma invocação ao Senhor:

"Senhor, como são numerosos os meus perseguidores!
é uma turba que se dirige contra mim.
Uma multidão inteira grita ao meu respeito:
"Não, não há mais salvação para ele em seu Deus!"

A descrição que o orante faz da situação é também marcada por tons fortemente dramáticos. Por três vezes se reafirma a idéia de multidão - "numeros, muitos, tantos" - que no texto original é dita com a mesma raíz hebraica, para destacar ainda mais a grandiosidade do perigo, em modo repetitivo, quase martelante. Esta insistência no número e na quantidade dos inimigos, serve para exprimir a percepção, da parte do Salmista, da absoluta desproporção existente entre ele e seus perseguidores, uma desproporção que justifica e fundamenta a urgência do seu pedido de ajuda: Os opressores são muitos, estão em vantagem, enquanto que o orante está sozinho e indefeso, sob o poder dos seus agressores. E mais, a primeira palavra pronunciada pelo salmista é "Senhor", o seu grito inicia com a invocação a Deus.

Uma multidão se lança contra ele, gerando um medo que aumenta e ameaça, fazendo-a parecer ainda mais grande e aterrorizante, mas o orante não se deixa vencer por esta visão de morte, mantém forte o relacionamento com o Deus da vida e a Ele por primeiro se volta, procura de ajuda. Mas, o inimigos tentam também quebrar esta ligação com Deus e enfraquecer a fé da vítima deles. Esses insinuam que o Senhor não pode intervir, afirmam que nem mesmo Deus pode savá-lo. A agressão, portanto, não é somente física, mas toca a dimensão espiritual: "o Senhor não pode salvá-lo" - dizem -, o nucleo central da alma do Salmista é agredido. È a extrema tentação a qual o fiel é submetido, é a tentação de perder a fé, a confiança na proximidade de Deus.

O justo supera a última prova, permanece firme na fé, na certeza da verdade e na plena confiança em Deus, e exatamente nisso entra a vida e a verdade. Me parece que aqui, o Salmo nos toca muito pessoalmente: em tantos problemas somos tentados a pensar que talvez também Deus não nos salva, não nos conhece, e que talvez não exista uma possibilidade de saída; a tentação contra a fé é a última agressão do inimigo, e a este devemos resistir, assim, encontraremos Deus e encontraremos a vida.

O orante do nosso Salmo é, portanto, chamado a responder com a fé, aos ataques dos ímpios: os inimigos - como eu disse - negam que Deus possa ajudá-lo, Davi, mesmo assim, O invoca, O chama por nome, "Senhor", e depois se volta a Ele com um "tu" enfático, que exprime um relacionamento firme, sólido, e traz consigo a certeza da resposta divina:

"Mas sois vós Senhor o meu escudo, vós sois a minha glória, vós levantais a minha cabeça. Apenas elevei a voz ao Senhor, ele me responde da sua montanha santa"

A visão dos inimigos agora desaparece, não venceram porque quem crê em Deus é seguro que Deus é amigo dele: "fica somente o "Tu" de Deus. Diante de muitos está um somente, mas muito maior e potente que muitos adversários. O Senhor é auxílio, defesa, salvação, como escudo protege quem confia nEle, e Ele por sua vez, eleva a cabeça do oprimido, em um gesto de triunfo e de vitória. O Homem não está mais sozinho, os inimigos não são imbatíveis como pareciam, porque o Senhor escuta o grito do oprimido e responde do lugar da sua presença, da seu monte santo. O homem grita, na angústia, no perigo, na dor, o homem pede ajuda, e Deus responde.

Este entrelaçar-se de grito humano e resposta divina é a dialética da oração e a chave de leitura de toda a história da salvação. O grito exprime a necessidade de ajuda e se apela à fidelidade do outro; gritar quer dizer colocar um gesto de fé na proximidade e na disponibilidade de Deus. A oração exprime a certeza de uma presença divina já experimentada e acreditada, que na resposta salvífica de Deus, se manifesta em plenitude. Isto é relevante: que na nossa oração seja importante, presente, a certeza da presença de Deus. Assim, o Salmista, que se sente assediado pela morte, confessa a sua fé no Deus da vida, que, como escudo, o cerca com uma proteção invulnerável; quem pensava que estava de uma vez por todas perdido, pode elevar a cabeça, porque o Senhor o salva. O orante, ameaçado e escarniado, está na glória, porque Deus é a sua glória.

A resposta divina que acolhe a oração, dá ao salmista uma segurança total; desaparece o medo, o grito se aquieta na paz, em uma profunda tranquilidade interior.

"Eu, que tinha deitado e adormecido, levanto-me porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão numerosa, que de todos os lados se dirige contra mim".

O orante mesmo em meio ao perigo e a batalha, pode adormecer tranquilo, em uma inevocável atitude de abandono confiante. Ao redor dele, os adversarios acampam, o circundam, são muitos, se erguem contra ele, o escarnecem e tentam fazê-lo cair, mas diante disso, ele se deita e dorme tranquilo e sereno, seguro da presença de Deus. E quando se levanta, encontra Deus ainda ao seu lado, como guardião que não dorme, que lhe sustenta, o segura pela mão, não o abandona nunca. O medo da morte é vencido pela presença daquele que não morre. E exatamente a noite, cheia dos temores de sempre, a noite dolorosa da solidão e da espera angustiada, agora se transforma: o que invoca a morte se torna presença do Eterno.

À visibilidade do assalto inimigo, maciço, imponente, se contrapõe a invisível presença de Deus, com toda a sua invencível potência. E é à Ele que de novo o Salmista, depois das suas expressões de confiança, faz a oração: "Levante-se Senhor! Salva-me, Deus meu". Os agressores se levantavam contra a vítima deles, que ao contrário deles, se levantará ao Senhor, e o fará, para vencê-los. Deus o salvará, respondendo ao seu grito. Por isto, o salmo se conclui com a visão da libertação do perigo que mata e da tentação que pode fazer perecer. Depois, o pedido voltado ao Senhor de levantar-se para salvá-lo, o orante descreve a vitoria divina: os inimigos que, com suas injustas e cruéis opressões, são símbolo de tudo aquilo que se opõe à Deus e ao seu plano de salvação, são derrotados. Atingidos na boca, não poderão mais agredir com a destrutiva violência deles e não poderão mais insinuar o mal da dúvida na presença e na ação de Deus: o falar insensato e blasfemo deles é definitivamente desmascarado e reduzido ao silêncio da intervenção salvífica do Senhor. Assim, o Salmista pode concluir a sua oração com uma frase das conotações litúrgicas que celebra, na gratidão e no louvor, o Deus da vida: "A salvação vem do Senhor, sobre o seu povo a sua benção".

Caros irmãos e irmãs, o Salmo 3 nos apresentou uma súplica plena de confiança e de consolação. Rezando este salmo, podemos fazer nossos, os sentimentos do Salmista, figura do justo perseguido que encontra em Jesus a sua plenitude. Na dor, no perigo, na amargura e na incompreenssão e nas ofensas, as palavras do Salmo abrem o nosso coração à certeza confortante da fé. Deus é sempre próximo - também nas dificuldades, nos problemas, nas obscuridades da vida - escuta, responde e salva ao seu modo. Mas necessita saber reconhecer a sua presença e aceitar as suas vias, como Davi na sua fuga humilhante do filho de Absalão, como o justo perseguido do livro da Sabedoria e, por ultimo e completamente, como o Senhor Jesus no lugar chamado Gólgota. Que o Senhor nos dê a fé, nos ajude na nossa fraqueza e nos torne capazes de crer e de rezar em meio a todas as angústias, nas noites dolorosas da dúvida e nos longos dias de dor, abandonando-nos com confiança nEle que é nosso escudo e nossa Glória. Obrigado.

Fonte: Canção Nova

sábado, 3 de setembro de 2011

Mensagem de Dom Moacyr

CATEQUISTAS, ANIMADORES DE COMUNIDADES!
Data: 29/08/2011 - 09:39H



Neste domingo, dia dos Catequistas, dirigimos uma prece especial por aquelas pessoas que vivem, em nossa arquidiocese, a missão de anunciar Jesus Cristo nas Comunidades, através da Catequese, como “testemunhas de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper, e dedicada ao próximo com um zelo sem limites” (EN 41).

Ao dirigir sua mensagem aos catequistas, a Igreja no Brasil reconhece com muito carinho essa vocação tão fundamental e apoia o “sim” dado diuturnamente a essa vocação por cada catequista. Por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética afirma que os catequistas são indispensáveis na educação da fé apostando no sentido pleno da vida.

As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil afirmam no número 37: “A fé é dom de Deus! ‘Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva’ (Deus Caritas est 1). Por sua vez, este encontro é mediado pela ação da Igreja, ação que se concretiza em cada tempo e lugar, de acordo com o jeito de ser de cada povo, de cada cultura. A descoberta do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, dom salvífico para toda a humanidade, não acontece sem a mediação dos outros (Rm 10,14)”.

Dentre as urgências na Ação Evangelizadora, que dizem respeito diretamente ao nosso agir bíblico-catequético destacamos o grande desafio de tornar sempre mais a nossa Igreja “casa da iniciação à vida cristã” e um “lugar de animação bíblica da vida e da pastoral”. Portanto, trabalho existe e a graça de Deus não falha!

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está preparando o 1º Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral, que deve acontecer de 8 a 11 de outubro, em Goiânia. O evento, que é organizado pela Comissão Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-Catequética tem por objetivo dinamizar o processo de reflexão e ação da Igreja, fazendo com que cada fiel, cada pastoral e as demais iniciativas eclesiais sejam perpassadas pela Palavra de Deus. As conferências do Congresso serão feitas por teólogos e biblistas, que já estão nos enviando excelentes contribuições, como a reflexão de Francisco Orofino: “Como chegar a uma Animação Bíblica de toda a Pastoral”.

São inegáveis os avanços conseguidos pela Igreja católica, a partir do desafio colocado pelo Vaticano II, em colocar a Bíblia nas mãos dos fiéis. Ao longo dos últimos 50 anos nossa Igreja fez uma caminhada em que buscou recuperar o tempo perdido, lançando-se num processo que deve ser analisado a partir das renovações propostas pelo Concílio. Os resultados que temos hoje foram alcançados através de passos importantes. Um primeiro passo foi, literalmente, colocar uma Bíblia nas mãos dos fiéis. Não era costume dos fiéis católicos terem uma Bíblia para seu uso pessoal. Isto exigia rapidez em novas edições trazendo traduções novas, numa linguagem atualizada. Exigia também grandes tiragens que alcançassem um preço acessível aos fiéis. Esta meta foi atingida a partir dos anos 70, com a confecção de Bíblias populares, tais como a Bíblia da Ave Maria, Vozes, Pastoral, etc. As grandes tiragens de Bíblias continuam sendo feitas, mantendo os preços das Bíblias dentro das possibilidades das pessoas mais pobres. Anualmente no Brasil vendem-se cerca de 7 milhões de Bíblias.

O surgimento das pastorais bíblicas diocesanas incentivou a distribuição de Bíblias aos fiéis. Este passo ainda é necessário. Prova disso é a Campanha nacional de doação de um milhão de Bíblias, promovido pela CNBB. Hoje a grande maioria dos fiéis tem uma Bíblia para seu uso pessoal.

Um segundo e importante passo foi o desenvolvimento de um método de leitura e interpretação dos textos bíblicos que ajudasse os fiéis a se apropriar do conteúdo bíblico. Este objetivo foi alcançado através da popularização do método pastoral ver-julgar-agir aplicado na leitura popular da Bíblia. Surgiram assim os círculos bíblicos (Grupos de Reflexão). O material proposto em um círculo parte sempre de um fato da vida (ver) seguido de um estudo ou aprofundamento de um texto bíblico relacionado ao fato (julgar). O estudo, sempre comunitário, conclui apontando pistas pastorais dentro de uma celebração (agir). Várias propostas de cursos e de publicações que de fato ajudaram o povo católico a se apropriar do conteúdo dos textos bíblicos, tais esforços, como a iniciativa do Mês da Bíblia, são de reconhecida importância para a vida eclesial.

Alguns pontos devem ser ressaltados se queremos avançar na formação bíblica de agentes de pastoral, capazes de animar biblicamente toda a Pastoral: Devemos constatar que está em andamento uma descoberta progressiva de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Descobre-se que Deus fala hoje, através dos fatos. Isto gera um entusiasmo muito grande. Não é tanto por causa das coisas novas que eles descobrem na Bíblia, mas muito mais por causa da confirmação que recebem de que a caminhada pastoral que estão fazendo é uma caminhada bíblica e, assim, neles se renova a esperança. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na Bíblia, já existia na vida. “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!

A Bíblia entra por uma outra porta na vida do povo. Ela não pela porta da imposição autoritária, mas sim pela porta da experiência pessoal e comunitária. Ela se faz presente não como um livro que impõe uma doutrina de cima para baixo, mas como uma Boa Nova que revela a presença libertadora de Deus na vida e na luta do povo. Os que participam dos grupos bíblicos, eles mesmos se encarregam de divulgar esta Boa Notícia e atraem outras pessoas para participar (Pastoral Missionária). “Venham ver um homem que me contou toda a minha vida!” (Jo 4,29).

Lendo assim a Bíblia, produz-se uma iluminação mútua entre Bíblia e vida. O sentido e o alcance da Bíblia aparecem e se enriquecem à luz do que se vive e sofre na vida, e vice-versa. Para que se produza esta ligação profunda entre Bíblia e vida, é importante: ter nos olhos as perguntas reais que vêm da vida e da realidade sofrida de hoje. Aqui aparece a importância de o estudioso da Bíblia ter convivência e experiência pastoral inserida no meio do povo. Descobrir que se pisa o mesmo chão, ontem e hoje. Aqui aparece a importância do uso da ciência e do bom senso tanto na análise crítica da realidade de hoje como no estudo do texto e seu contexto social. Ter uma visão global da Bíblia que envolva os próprios leitores e que esteja ligada com a situação concreta das suas vidas.

Para uma boa interpretação da Bíblia, é muito importante o ambiente de fé e de fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a descobrir o sentido que o texto tem para nós hoje.Pois o sentido da Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se objetiva através de raciocínios; é também um sentir, um conforto que é sentido com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4).

Fonte: Arquidiocese de Porto Velho