A Igreja, a ciência e o direito – resposta ao ateísmo fundamentalista
[Eu já tinha lido, mas saiu hoje em ZENIT este texto do Ives Gandra Martins sobre o fundamentalismo ateu. Vale um passar de olhos para quem ainda não leu. E, para quem já o conhece, vale reler ao menos a grande tirada do jurista brasileiro, quando sofria bullying institucionalizado no STF pelo fato de ser católico e defender a inconstitucionalidade de se destruírem embriões humanos em pesquisas científicas. Reproduzo abaixo; para o texto na íntegra, cliquem no link acima.]
Quando fui sustentar, pela CNBB, perante a Suprema Corte, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa científica – pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção -, antes da sustentação fui hostilizado, a pretexto de que a Igreja Católica seria contrária a Ciência e que iria falar de religião e não de Ciência e de Direito. Fui obrigado a começar a sustentação informando que a Academia de Ciências do Vaticano tinha, na ocasião, 29 Prêmios Nobel, enquanto o Brasil até hoje não tem nenhum, razão pela qual só falaria de Ciência e de Direito.
Fonte: Deus Lo Vult
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Ciência e Vida
Ciência e Vida
Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora (MG)
Temos que agradecer a Deus os imensos progressos da ciência em favor da vida, sobretudo a humana. Não será exagero dizer que, dos primeiros anos do século 20 para os tempos atuais, num arco de um centenário, a humanidade conquistou avanços tão grandes no campo científico, incluindo a área médica, que pode se falar hoje num outro mundo em relação àquele passado não longínquo.
Os esforços dos cientistas são apreciados singularmente pela Igreja, como podemos ler na encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão) de João Paulo II: "Não posso deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas, que nos proporcionam, com suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana".
Na verdade, os avanços científicos são uma realidade, mas não é menos verdade que a humanidade ainda não alcançou o mesmo progresso no campo da ética e, em certos casos, fala-se hoje de um regresso no que diz respeito à dignidade humana. A busca desta evolução é tarefa de todos, desarmados de qualquer preconceito e dotados de sinceridade nas pesquisas.
Na mesma encíclica citada, podemos ler: "O cientista está bem cônscio de que a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério".
Os grandes desafios à vida, experimentados no mundo atual, são resultado de uma mentalidade, de certo modo, generalizada na sociedade, que apresenta sinais sensíveis de empobrecimento moral e ético. Percebe-se que nem tudo que é possível à ciência é necessariamente bom.
A prática da ciência deve, portanto, submeter-se ao juízo ético, buscando sempre aquilo que é bom para o ser humano.
Alguns projetos internacionais de limitação demográfica sem ética continuam ameaçando países em desenvolvimento, provocados por potências do norte. Leis favoráveis ao aborto, à eutanásia e a pesquisas científicas que resultam na morte de embriões humanos são pontos de discórdia entre aqueles que defendem a dignidade natural da vida humana e aqueles que, pouco a pouco, vão perdendo a sensibilidade a respeito da vida do outro.
Assomem-se a isto, os grandes problemas da indústria e engenharia bélica que acabam alimentando a violência até mesmo onde parece existir paz.
A ciência é o campo da inteligência humana criada por Deus, responsável por salvar a vida e nunca para ameaçá-la.
Fonte: CNBB
Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora (MG)
Temos que agradecer a Deus os imensos progressos da ciência em favor da vida, sobretudo a humana. Não será exagero dizer que, dos primeiros anos do século 20 para os tempos atuais, num arco de um centenário, a humanidade conquistou avanços tão grandes no campo científico, incluindo a área médica, que pode se falar hoje num outro mundo em relação àquele passado não longínquo.
Os esforços dos cientistas são apreciados singularmente pela Igreja, como podemos ler na encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão) de João Paulo II: "Não posso deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas, que nos proporcionam, com suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa humana".
Na verdade, os avanços científicos são uma realidade, mas não é menos verdade que a humanidade ainda não alcançou o mesmo progresso no campo da ética e, em certos casos, fala-se hoje de um regresso no que diz respeito à dignidade humana. A busca desta evolução é tarefa de todos, desarmados de qualquer preconceito e dotados de sinceridade nas pesquisas.
Na mesma encíclica citada, podemos ler: "O cientista está bem cônscio de que a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério".
Os grandes desafios à vida, experimentados no mundo atual, são resultado de uma mentalidade, de certo modo, generalizada na sociedade, que apresenta sinais sensíveis de empobrecimento moral e ético. Percebe-se que nem tudo que é possível à ciência é necessariamente bom.
A prática da ciência deve, portanto, submeter-se ao juízo ético, buscando sempre aquilo que é bom para o ser humano.
Alguns projetos internacionais de limitação demográfica sem ética continuam ameaçando países em desenvolvimento, provocados por potências do norte. Leis favoráveis ao aborto, à eutanásia e a pesquisas científicas que resultam na morte de embriões humanos são pontos de discórdia entre aqueles que defendem a dignidade natural da vida humana e aqueles que, pouco a pouco, vão perdendo a sensibilidade a respeito da vida do outro.
Assomem-se a isto, os grandes problemas da indústria e engenharia bélica que acabam alimentando a violência até mesmo onde parece existir paz.
A ciência é o campo da inteligência humana criada por Deus, responsável por salvar a vida e nunca para ameaçá-la.
Fonte: CNBB
domingo, 2 de outubro de 2011
A Idade Média, os Monges e o Progresso
A Idade Média, os Monges e o Progresso
D. Estevão Bettencourt, OSB
A Idade Média, os Monges e o Progresso
Em síntese: O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização. Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligência e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. São Bento, aliás, hauriu das Escrituras Sagradas a sua mentalidade; ora a Bíblia incute ao homem certo otimismo em relação à natureza, obra de Deus Criador, que confiou ao casal humano o mandato de explorar e dominaras criaturas inferiores. A mesma fonte bíblica deu a saber ao homem que o universo foi criado com sabedoria e lógica; a própria razão humana, sendo dom de Deus, merece a confiança do homem; conscientes disto, os medievais cultivaram a inteligência, resultando daí grande número de Universidades e belas obras de arte (catedrais, especialmente), que supõem dinamismo, coragem e saber científico entre os homens da Idade Média. Esta, portanto, não foi o período obscuro do qual se fala sem o devido conhecimento de causa.
Costuma-se comentar a influência que o Calvinismo, fundado no século XVI, exerceu sobre o desenvolvimento comercial e econômico dos países que o adotaram. O senso religioso levou os calvinistas a se dedicarem "religiosamente" às suas atividades profissionais, donde resultou (em parte, ao menos) a rede colonial da Inglaterra e da Holanda.
Todavia é menos conhecida a influência sadia que a fé católica exerceu sobre os monges e as populações medievais em favor do progresso da civilização. Aliás, deve-se dizer que o Cristianismo, bem entendido e vivido, foi e será sempre um estímulo para a construção de um mundo mais humano, fraterno e, por conseguinte, mais feliz.
O Prof. Léo Moulin, agnóstico e ateu, belga de 82 anos de idade, tem-se manifestado sobre o assunto. Já em PR 310/1988, pp. 115-120 foi publicada uma entrevista desse mestre sobre a Idade Média, acentuando os seus valores positivos. Leo Moulin voltou à temática em 1990 por ocasião do nono centenário do nascimento de São Bernardo (1090-1153), desta vez focalizando mais explicitamente o papel dos monges da Idade Média no progresso da civilização. Visto que a questão é de grande importância para dissipar equívocos, passamos a resumir tópicos de um artigo do Prof. Moulin publicado na revista "JESUS", dezembro de 1990, pp. 103-107, com o título "Luminosíssimo Medioevo!"
1. Invenções e Descobertas
A Idade Média ocidental ocupa lugar importante na história do desenvolvimento tecnológico, pois registrou uma série de invenções e descobertas que lhe dão preeminência sobre quanto ocorreu na mesma época fora do âmbito europeu. Sejam recordados: a bússola, as lentes de óculos, a roda com aros, o relógio mecânico com pesos e rodas ("invenção mais revolucionária do que a da pólvora e a da máquina a vapor", conforme Ernst Junger), o canhão (em 1327), a caravela (em 1430), a própria imprensa, a ferradura de cavalo, que permite ao animal correr sobre terrenos inóspitos, os moinhos de água, de maré, de vento...Isto tudo fez que o Ocidente se encontrasse em melhores condições de civilização do que outras partes do mundo no século XVI.
2. A Regra de São Bento
Antes de todas estas, houve outra grandiosa "invenção", que é a Regra de São Bento (+547) (1). Nesta encontramos elementos necessários ao bom andamento de uma empresa moderna.
Com efeito. Além do Ora (Oração), São Bento ensina o valor e a sistematização do Labora (Trabalho). Imagina, sim, o seu discípulo como um operário (RB Prol 14) que trabalha com mãos e ferramentas na oficina do Mosteiro (RB 4, 75-78). O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal. No decorrer da Regra, São Bento ilustra as motivações do Labora:
Citaremos a Regra de São Bento usando a sigla RB; os números seguintes indicarão respectivamente capítulo e versículo(s). A abreviatura Prol significa Prólogo.É de notar que não sem motivo o Papa Paulo VI em 1964 declarou São Bento "Patrono do Ocidente". Este deve muitos dos seus valores aos escritos e à obra de São Bento.
— o trabalho corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a labuta pessoal para poder manter-se; cf. RB 48,8;
— o trabalho é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo; cf. RB 48,1-25; 53, 1-23;
— o trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao homem e cuja aplicação ele vai julgar; cf. RB 4,75-77;
— o trabalho ajuda os pobres e evita a ociosidade, que é inimiga da alma; cf. RB 48,1.São Bento quer que o trabalho seja executado "bem", "com serenidade", "sem tristeza" e "sem murmuração"; cf. RB 34,6; 35,13; 40, 8s; 53,18.Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os monges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refeição comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos: "Que seja suspenso da mesa e do oratório o irmão culpado de faltas mais graves. . . Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado" (RB 25,1.3).
A Regra de São Bento, portanto, formou os monges (e, conseqüentemente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho. De modo especial, ela incutiu (e incute) dois valores muito estimados no mundo industrial moderno:
— a pontualidade. São Bento não transige a respeito. Prevê sérias punições para quem chega atrasado à oração litúrgica ou ao refeitório (RB 43); ao sinal dado de madrugada, levantem-se todos sem demora (RB 22); quem recebe uma ordem, deve executá-la prontamente (RB 5);
— atenção ao que se faz. São Bento formula uma norma decisiva: "Controlar a todo momento os atos de sua própria vida. Actus vitae suae omni hora custodire." (RB 4,48).
É preciso, pois, estar presente de corpo e alma àquilo que se faz, sejam grandes, sejam pequenas coisas. A Regra prevê punições para quem erre na oração comum (RB 45,1); exige durante as refeições leitura, à qual todos devem prestar atenção, de modo que ninguém converse e só se ouça a voz do leitor (RB 38,5). Haja absoluta limpeza, especialmente na cozinha (RB 35,6-11). A perda ou a quebra de qualquer objeto durante o trabalho requer satisfação da parte de quem comete a falha (RB 46,1-4).
São Bento também pede que os monges não se entristeçam se a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem em trabalhos extraordinários, "porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos" (RB 48,8).
Estes princípios de ordem ascética, inspirados pelo amor à disciplina do Evangelho, contribuíram para que os mosteiros se tornassem grandes centros agrícolas e artesanais em toda a Idade Média, irradiando em torno de si amor ao trabalho, organização e método modelares para a posteridade. Essa sistemática não tinha em vista simplesmente produção e lucro materiais, mas era inspirada pelo espírito de fé e apoiada em razões monásticas. Assim, por exemplo, um texto do século XI explica por que foi adotado um moinho de água na comunidade: "... a fim de que os monges tenham mais tempo para dedicar-se à oração".
Em seu afã de trabalhar para exercer disciplina e evitar a ociosidade (inimiga da alma), os monges dedicaram-se a quase todas as atividades produtivas: exploraram minas de carvão, salinas, metalurgia, marcenaria, construção. . . Assim, por exemplo, os monges cistercienses fabricaram fornos para produzir tijolos grandes, dotados de furos para facilitar a sua cozedura e manipulação; eram os chamados "tijolos de São Bernardo". Montaram na Borgonha fábricas de telhas, que eles espalharam por diversas regiões.
Aliás, a própria Regra de São Bento pede que o mosteiro tenha em suas dependências tudo de que necessita a comunidade para viver: "Seja o mosteiro construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de que os monges vagueiem fora, pois de nenhum modo isto convém às suas almas" (RB 66,6s). Ora esta norma da Regra não podia deixar de ser forte estímulo para a criatividade dos monges. O capítulo 57 da mesma Regra trata dos artesãos que, com a autorização e a bênção do Abade, trabalham no mosteiro como monges, e pede que os preços dos respectivos artefatos sejam mais baixos do que os preços do comércio de fora: "Quanto aos preços, não se insinue o mal da avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado" (RB 57, 7-9).
Sabemos ainda que em 1215 os maiorais da Inglaterra, tanto leigos quanto clérigos, obtiveram do rei João sem Terra o reconhecimento da Magna Charta (Libertatum), Grande Carta das Liberdades, que promulgava direitos da população e que se tornou o fundamento da Constituição liberal da Inglaterra e o embrião dos posteriores sistemas políticos parlamentares. Ora, um século antes disto, em 1115 a Ordem Cisterciense (1) concebera o sistema de governo mais prático que se conhece: o Capitulum Generale (Capítulo Geral), assembléia internacional da qual fazem parte representantes de todos os mosteiros e dotada de poder legislativo. A instituição do Capitulum Generale foi adotada por Ordens e Congregações Religiosas posteriores e tornou-se modelo para o regime de muitas sociedades de caráter internacional.
É preciso ainda apontar duas características da mentalidade medieval, de grande importância na história subseqüente.(1) Cisterciense é o monge de Cister;segue a Regra de São Bento tal como foi entendida pelos reformadores de Cister, entre os quais está São Bernardo de Claraval ff 1153).
3. Duas notas marcantes
Podemos dizer que os medievais 1) fizeram um voto de confiança na razão humana e 2) se deixaram mover pelo dinamismo da Bíblia.
3.1. Confiança na razão
Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo (em oposição a todo panteísmo). Por conseguinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha. Dizia no século XII o teólogo francês Guilherme de Conches: "Deus respeita as próprias leis". E no século seguinte Santo Alberto Magno (+1280) afirmava: "Natura est ratio. A natureza é a razão ou é racional". Em conseqüência, os estudiosos medievais se aplicaram ao raciocínio e à pesquisa (como a podiam realizar na sua época) com plena confiança no acume da razão, sem, porém, cair no racionalismo, pois acima da razão admitiam as luzes e as verdades da fé.
Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de estudiosos é o inglês Rogério Bacon (1214-1294), chamado "Doutor Admirável". Ingressou na Ordem dos Franciscanos em 1257 e pôs-se a comentar as obras de Aristóteles. Posteriormente dedicou-se à pesquisa científica, recorrendo a um método experimental, que foi precursor do método adotado por Francis Bacon (1561-1626); assim procedendo, fez descobertas no setor da ótica. Planejou diversas invenções mecânicas: máquinas a vapor, barcos, máquinas voadoras. . . Em seus escritos encontrou-se uma fórmula da pólvora, que ele pode ter tomado dos árabes numa época em que os europeus quase não a conheciam. Deixou obras famosas: Opus Maius, Opus Minus e Opus Tertium.
Os resultados dessa confiança dos medievais na razão humana fizeram-se sentir nos séculos subseqüentes: em 1608 contavam-se mais de cem Universidades na Europa e nenhuma no resto do mundo (exceto na America Latina, onde os espanhóis expandiam a sua cultura). Dessas Universidades, mais de oitenta tiveram origem na Idade Média, como genuína expressão da cultura medieval. Diz-se com razão que as Universidades e as catedrais exprimem autenticamente a Idade Média; na verdade, os medievais atingiram o primado mundial de altura de cúpula na catedral de Amiens (1221), com 42,30 metros. A flecha da torre da catedral de Estrasburgo (1250), terminada em 1439, mede 142 metros de altura: só foi ultrapassada pela Torre Eiffel de Paris em 1889, com 320 metros.
3.2. Dinamismo
A Escritura Sagrada transmite aos seus leitores uma atitude dinâmica em relação ao universo que os cerca. Logo em suas primeiras páginas formula o desígnio divino: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança; domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 26). E após a criação do homem se lê a ordem divina: "Enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 28).O salmo 8, por sua vez, canta o poder do homem sobre os seres que o cercam:"Que é o homem para que dele te recordes?. . . e o filho do homem, para que dele tenhas cuidado? Não obstante. Tu o fizeste um pouco inferior aos anjos. . . e lhe deste poder sobre as obras de tuas mãos, tudo colocaste debaixo dos seus pés".
No Novo Testamento lê-se que Cristo, ao encerrar sua missão pública, mandou aos apóstolos que fossem pregar o Evangelho no mundo inteiro; cf. Mt 28,18-20.Por conseguinte, a atitude do esforço, da luta, do empreendimento, da resposta ao desafio. . . é muito familiar ao cristão. Pode-se dizer que foram os cristãos que realizaram os progressos da ciência (tenha-se em vista o mundo ocidental comparado com o oriental ou asiático e africano!), as grandes aventuras da conquista intelectual, econômica, marítima. . . Foram otimistas e dinâmicos, conseguindo belos e valiosos resultados.Estas poucas observações são suficientes para percebermos a notável contribuição do Cristianismo para o avanço da cultura, da ciência e da civilização. . . na história da humanidade. E, dentro do Cristianismo, merece certamente relevo especial o monaquismo ocidental tal como São Bento (+547) o concebeu e a Ordem Cisterciense, com São Bernardo à frente, o desenvolveu.
Fonte: Revista Pergunte e Responderemos 347 – abril 1991.
Fonte: Veritatis Splendor
D. Estevão Bettencourt, OSB
A Idade Média, os Monges e o Progresso
Em síntese: O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização. Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligência e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. São Bento, aliás, hauriu das Escrituras Sagradas a sua mentalidade; ora a Bíblia incute ao homem certo otimismo em relação à natureza, obra de Deus Criador, que confiou ao casal humano o mandato de explorar e dominaras criaturas inferiores. A mesma fonte bíblica deu a saber ao homem que o universo foi criado com sabedoria e lógica; a própria razão humana, sendo dom de Deus, merece a confiança do homem; conscientes disto, os medievais cultivaram a inteligência, resultando daí grande número de Universidades e belas obras de arte (catedrais, especialmente), que supõem dinamismo, coragem e saber científico entre os homens da Idade Média. Esta, portanto, não foi o período obscuro do qual se fala sem o devido conhecimento de causa.
Costuma-se comentar a influência que o Calvinismo, fundado no século XVI, exerceu sobre o desenvolvimento comercial e econômico dos países que o adotaram. O senso religioso levou os calvinistas a se dedicarem "religiosamente" às suas atividades profissionais, donde resultou (em parte, ao menos) a rede colonial da Inglaterra e da Holanda.
Todavia é menos conhecida a influência sadia que a fé católica exerceu sobre os monges e as populações medievais em favor do progresso da civilização. Aliás, deve-se dizer que o Cristianismo, bem entendido e vivido, foi e será sempre um estímulo para a construção de um mundo mais humano, fraterno e, por conseguinte, mais feliz.
O Prof. Léo Moulin, agnóstico e ateu, belga de 82 anos de idade, tem-se manifestado sobre o assunto. Já em PR 310/1988, pp. 115-120 foi publicada uma entrevista desse mestre sobre a Idade Média, acentuando os seus valores positivos. Leo Moulin voltou à temática em 1990 por ocasião do nono centenário do nascimento de São Bernardo (1090-1153), desta vez focalizando mais explicitamente o papel dos monges da Idade Média no progresso da civilização. Visto que a questão é de grande importância para dissipar equívocos, passamos a resumir tópicos de um artigo do Prof. Moulin publicado na revista "JESUS", dezembro de 1990, pp. 103-107, com o título "Luminosíssimo Medioevo!"
1. Invenções e Descobertas
A Idade Média ocidental ocupa lugar importante na história do desenvolvimento tecnológico, pois registrou uma série de invenções e descobertas que lhe dão preeminência sobre quanto ocorreu na mesma época fora do âmbito europeu. Sejam recordados: a bússola, as lentes de óculos, a roda com aros, o relógio mecânico com pesos e rodas ("invenção mais revolucionária do que a da pólvora e a da máquina a vapor", conforme Ernst Junger), o canhão (em 1327), a caravela (em 1430), a própria imprensa, a ferradura de cavalo, que permite ao animal correr sobre terrenos inóspitos, os moinhos de água, de maré, de vento...Isto tudo fez que o Ocidente se encontrasse em melhores condições de civilização do que outras partes do mundo no século XVI.
2. A Regra de São Bento
Antes de todas estas, houve outra grandiosa "invenção", que é a Regra de São Bento (+547) (1). Nesta encontramos elementos necessários ao bom andamento de uma empresa moderna.
Com efeito. Além do Ora (Oração), São Bento ensina o valor e a sistematização do Labora (Trabalho). Imagina, sim, o seu discípulo como um operário (RB Prol 14) que trabalha com mãos e ferramentas na oficina do Mosteiro (RB 4, 75-78). O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal. No decorrer da Regra, São Bento ilustra as motivações do Labora:
Citaremos a Regra de São Bento usando a sigla RB; os números seguintes indicarão respectivamente capítulo e versículo(s). A abreviatura Prol significa Prólogo.É de notar que não sem motivo o Papa Paulo VI em 1964 declarou São Bento "Patrono do Ocidente". Este deve muitos dos seus valores aos escritos e à obra de São Bento.
— o trabalho corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a labuta pessoal para poder manter-se; cf. RB 48,8;
— o trabalho é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo; cf. RB 48,1-25; 53, 1-23;
— o trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao homem e cuja aplicação ele vai julgar; cf. RB 4,75-77;
— o trabalho ajuda os pobres e evita a ociosidade, que é inimiga da alma; cf. RB 48,1.São Bento quer que o trabalho seja executado "bem", "com serenidade", "sem tristeza" e "sem murmuração"; cf. RB 34,6; 35,13; 40, 8s; 53,18.Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os monges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refeição comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos: "Que seja suspenso da mesa e do oratório o irmão culpado de faltas mais graves. . . Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado" (RB 25,1.3).
A Regra de São Bento, portanto, formou os monges (e, conseqüentemente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho. De modo especial, ela incutiu (e incute) dois valores muito estimados no mundo industrial moderno:
— a pontualidade. São Bento não transige a respeito. Prevê sérias punições para quem chega atrasado à oração litúrgica ou ao refeitório (RB 43); ao sinal dado de madrugada, levantem-se todos sem demora (RB 22); quem recebe uma ordem, deve executá-la prontamente (RB 5);
— atenção ao que se faz. São Bento formula uma norma decisiva: "Controlar a todo momento os atos de sua própria vida. Actus vitae suae omni hora custodire." (RB 4,48).
É preciso, pois, estar presente de corpo e alma àquilo que se faz, sejam grandes, sejam pequenas coisas. A Regra prevê punições para quem erre na oração comum (RB 45,1); exige durante as refeições leitura, à qual todos devem prestar atenção, de modo que ninguém converse e só se ouça a voz do leitor (RB 38,5). Haja absoluta limpeza, especialmente na cozinha (RB 35,6-11). A perda ou a quebra de qualquer objeto durante o trabalho requer satisfação da parte de quem comete a falha (RB 46,1-4).
São Bento também pede que os monges não se entristeçam se a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem em trabalhos extraordinários, "porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos" (RB 48,8).
Estes princípios de ordem ascética, inspirados pelo amor à disciplina do Evangelho, contribuíram para que os mosteiros se tornassem grandes centros agrícolas e artesanais em toda a Idade Média, irradiando em torno de si amor ao trabalho, organização e método modelares para a posteridade. Essa sistemática não tinha em vista simplesmente produção e lucro materiais, mas era inspirada pelo espírito de fé e apoiada em razões monásticas. Assim, por exemplo, um texto do século XI explica por que foi adotado um moinho de água na comunidade: "... a fim de que os monges tenham mais tempo para dedicar-se à oração".
Em seu afã de trabalhar para exercer disciplina e evitar a ociosidade (inimiga da alma), os monges dedicaram-se a quase todas as atividades produtivas: exploraram minas de carvão, salinas, metalurgia, marcenaria, construção. . . Assim, por exemplo, os monges cistercienses fabricaram fornos para produzir tijolos grandes, dotados de furos para facilitar a sua cozedura e manipulação; eram os chamados "tijolos de São Bernardo". Montaram na Borgonha fábricas de telhas, que eles espalharam por diversas regiões.
Aliás, a própria Regra de São Bento pede que o mosteiro tenha em suas dependências tudo de que necessita a comunidade para viver: "Seja o mosteiro construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de que os monges vagueiem fora, pois de nenhum modo isto convém às suas almas" (RB 66,6s). Ora esta norma da Regra não podia deixar de ser forte estímulo para a criatividade dos monges. O capítulo 57 da mesma Regra trata dos artesãos que, com a autorização e a bênção do Abade, trabalham no mosteiro como monges, e pede que os preços dos respectivos artefatos sejam mais baixos do que os preços do comércio de fora: "Quanto aos preços, não se insinue o mal da avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado" (RB 57, 7-9).
Sabemos ainda que em 1215 os maiorais da Inglaterra, tanto leigos quanto clérigos, obtiveram do rei João sem Terra o reconhecimento da Magna Charta (Libertatum), Grande Carta das Liberdades, que promulgava direitos da população e que se tornou o fundamento da Constituição liberal da Inglaterra e o embrião dos posteriores sistemas políticos parlamentares. Ora, um século antes disto, em 1115 a Ordem Cisterciense (1) concebera o sistema de governo mais prático que se conhece: o Capitulum Generale (Capítulo Geral), assembléia internacional da qual fazem parte representantes de todos os mosteiros e dotada de poder legislativo. A instituição do Capitulum Generale foi adotada por Ordens e Congregações Religiosas posteriores e tornou-se modelo para o regime de muitas sociedades de caráter internacional.
É preciso ainda apontar duas características da mentalidade medieval, de grande importância na história subseqüente.(1) Cisterciense é o monge de Cister;segue a Regra de São Bento tal como foi entendida pelos reformadores de Cister, entre os quais está São Bernardo de Claraval ff 1153).
3. Duas notas marcantes
Podemos dizer que os medievais 1) fizeram um voto de confiança na razão humana e 2) se deixaram mover pelo dinamismo da Bíblia.
3.1. Confiança na razão
Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo (em oposição a todo panteísmo). Por conseguinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha. Dizia no século XII o teólogo francês Guilherme de Conches: "Deus respeita as próprias leis". E no século seguinte Santo Alberto Magno (+1280) afirmava: "Natura est ratio. A natureza é a razão ou é racional". Em conseqüência, os estudiosos medievais se aplicaram ao raciocínio e à pesquisa (como a podiam realizar na sua época) com plena confiança no acume da razão, sem, porém, cair no racionalismo, pois acima da razão admitiam as luzes e as verdades da fé.
Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de estudiosos é o inglês Rogério Bacon (1214-1294), chamado "Doutor Admirável". Ingressou na Ordem dos Franciscanos em 1257 e pôs-se a comentar as obras de Aristóteles. Posteriormente dedicou-se à pesquisa científica, recorrendo a um método experimental, que foi precursor do método adotado por Francis Bacon (1561-1626); assim procedendo, fez descobertas no setor da ótica. Planejou diversas invenções mecânicas: máquinas a vapor, barcos, máquinas voadoras. . . Em seus escritos encontrou-se uma fórmula da pólvora, que ele pode ter tomado dos árabes numa época em que os europeus quase não a conheciam. Deixou obras famosas: Opus Maius, Opus Minus e Opus Tertium.
Os resultados dessa confiança dos medievais na razão humana fizeram-se sentir nos séculos subseqüentes: em 1608 contavam-se mais de cem Universidades na Europa e nenhuma no resto do mundo (exceto na America Latina, onde os espanhóis expandiam a sua cultura). Dessas Universidades, mais de oitenta tiveram origem na Idade Média, como genuína expressão da cultura medieval. Diz-se com razão que as Universidades e as catedrais exprimem autenticamente a Idade Média; na verdade, os medievais atingiram o primado mundial de altura de cúpula na catedral de Amiens (1221), com 42,30 metros. A flecha da torre da catedral de Estrasburgo (1250), terminada em 1439, mede 142 metros de altura: só foi ultrapassada pela Torre Eiffel de Paris em 1889, com 320 metros.
3.2. Dinamismo
A Escritura Sagrada transmite aos seus leitores uma atitude dinâmica em relação ao universo que os cerca. Logo em suas primeiras páginas formula o desígnio divino: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança; domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 26). E após a criação do homem se lê a ordem divina: "Enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (Gn 1, 28).O salmo 8, por sua vez, canta o poder do homem sobre os seres que o cercam:"Que é o homem para que dele te recordes?. . . e o filho do homem, para que dele tenhas cuidado? Não obstante. Tu o fizeste um pouco inferior aos anjos. . . e lhe deste poder sobre as obras de tuas mãos, tudo colocaste debaixo dos seus pés".
No Novo Testamento lê-se que Cristo, ao encerrar sua missão pública, mandou aos apóstolos que fossem pregar o Evangelho no mundo inteiro; cf. Mt 28,18-20.Por conseguinte, a atitude do esforço, da luta, do empreendimento, da resposta ao desafio. . . é muito familiar ao cristão. Pode-se dizer que foram os cristãos que realizaram os progressos da ciência (tenha-se em vista o mundo ocidental comparado com o oriental ou asiático e africano!), as grandes aventuras da conquista intelectual, econômica, marítima. . . Foram otimistas e dinâmicos, conseguindo belos e valiosos resultados.Estas poucas observações são suficientes para percebermos a notável contribuição do Cristianismo para o avanço da cultura, da ciência e da civilização. . . na história da humanidade. E, dentro do Cristianismo, merece certamente relevo especial o monaquismo ocidental tal como São Bento (+547) o concebeu e a Ordem Cisterciense, com São Bernardo à frente, o desenvolveu.
Fonte: Revista Pergunte e Responderemos 347 – abril 1991.
Fonte: Veritatis Splendor
A Teoria da Evolução e os órgãos vestigais
A Teoria da Evolução e os órgãos vestigais
Alessandro Lima
Introdução
A teoria da evolução apresenta como evidência de evolução a existência de órgãos em animais, que aparentemente não têm função, porém, ao analisarmos mais detalhadamente estas supostas evidências veremos que a existência destes órgãos não implica que estes são realmente vestígios de órgãos herdados de antepassados evolutivos, pois já se sabe que eles possuem funções que antes eram desconhecidas.
Órgãos sem função? Será mesmo?
Todos os órgãos endócrinos e linfáticos já foram considerados vestigiais, no século XIX afirmava-se que no corpo humano havia aproximadamente 180 órgãos vestigiais, e ainda em 1971, a Encyclopaedia Britannica reivindicou mais de 100 órgãos que restavam como vestígio no ser humano, e até mesmo órgãos extremamente importantes como a glândula paratireóide eram considerados como vestígios simplesmente porque suas funções não eram compreendidas. Como a ciência biomédica progrediu, atualmente há reservas para se afirmar que existem órgãos sem função, mas, apesar disto, livros de ensino citam alguns órgãos como sendo vestígios que provam a evolução. Os exemplos de órgãos vestigiais mais freqüentemente usados são o cóccix e apêndice humanos.
Análise do Cóccix
O cóccix é um pequeno osso que termina a coluna vertebral na parte inferior. Os evolucionistas afirmam que este osso é um vestígio da cauda de nossos antepassados. A coluna vertebral é uma seqüência linear de ossos que como quase tudo que se conhece, tem um começo e um final, mas onde quer que termine, os evolucionistas insistem em chamar o final de vestígio de um rabo. Esta idéia é erroneamente aceita principalmente pelo fato de que os livros de biologia ainda dão a impressão errônea que o cóccix humano não tem nenhuma função além de provar a existência da evolução, porém, o cóccix tem funções importantes, serve como um ponto para anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico. O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.
Análise do Apêndice humano
O apêndice humano também é citado pelos evolucionistas como vestígio de nosso passado evolutivo, sendo uma sobra inútil, um órgão atrofiado pela falta de uso, por não mais se comer, por exemplo, carne crua ou vegetais mais resistentes em termos de digestão. Muitos livros que ensinam a teoria da evolução afirmam que o apêndice humano é um vestígio de cécum (a primeira parte do intestino grosso, também chamado ceco) de nossos antepassados evolutivos vegetarianos. O cécum é uma bolsa próxima ao início do intestino grosso, que provê um espaço adicional para a digestão. Em alguns animais vegetarianos, como vacas, por exemplo, o cécum contém bactérias especiais que ajudam na digestão de celulose. O apêndice não é um vestígio de cécum, pois quase todos os mamíferos têm um cécum e muitos deles também têm um apêndice. Da mesma forma que as amígdalas, e os tecidos adenóides, que também já foram considerados órgãos vestigiais, o apêndice é um órgão linfático (parte do sistema imunológico do organismo) que produz anticorpos contra infecções no sistema digestivo, sua remoção aumenta a suscetibilidade de uma pessoa para leucemia, a doença de Hodgkin, câncer do cólon e câncer dos ovários. Acreditando plenamente na crença da teoria da evolução, de que o apêndice era apenas um vestígio de nossos antepassados menos evoluídos, muitos cirurgiões removiam apêndices saudáveis como mera precaução para impedir que um problema futuro ocorresse ou sempre que o apêndice estava na cavidade abdominal. Atualmente, a remoção de um apêndice saudável, na maioria das circunstâncias, seria um considerável erro médico, estando provado que idéias evolutivas não científicas foram prejudiciais para o avanço de verdadeira ciência. Não existem órgãos sem funções (vestigiais), existem órgãos com funções ainda não muito esclarecidas (o próprio apêndice ainda não têm todas suas funções muito bem esclarecidas). Porém, mesmo que órgãos vestigiais existissem de fato, isto não seria evidência de evolução, mas de degeneração ou perda, sendo que a maior proposta da teoria da evolução sugere justamente o contrário: surgimento ou adaptação de órgãos para novos propósitos.
As descobertas da Medicina
Apesar de evolucionistas ainda afirmarem que determinados órgãos são vestigiais, a literatura médica já apresenta a funcionalidade destes órgãos. Uma obra, por exemplo, é o livro "Bogliolo - Tratado de Patologia".
Nos machos de todas as espécies de mamíferos, inclusive no homem, existem glândulas mamárias desativadas, porém, apesar da cultura de massa relacionada à teoria da evolução, nenhuma autoridade científica que crê na teoria evolutiva sugeriu que estes órgãos são vestígios evolutivos. As glândulas mamárias não são inúteis para as espécies, são rudimentares apenas nos machos. Machos e fêmeas se desenvolvem de embriões quase idênticos, os quais, em uma fase inicial do desenvolvimento, ficam masculinos ou fêmeas conforme a influência dos genes nos cromossomos de sexo. As mesmas partes de um embrião pode produzir órgãos de sexo masculino ou feminino e glândulas mamárias que se desenvolverão ou permanecerão rudimentares conforme o sexo. Em humanos, podem estar quase todos os componentes de órgãos femininos em forma rudimentar nos homens, e o contrário também é verdade, mulheres também possuem órgãos masculinos de forma rudimentar. Assim, a presença de órgãos rudimentares nos adultos não nos fala algo sobre evolução, mas nos conta bastante sobre embriologia.
Conclusão
Conforme pudemos observar os argumentos dos ateus em defesa da sua fé (a Teoria da Evolução), não encontrar qualquer corroboração biológica ou médica. Por isso que eu sempre digo que para ser ateu é preciso ter muito mais fé que os teistas.
Fonte: Veritatis Splendor
Alessandro Lima
Introdução
A teoria da evolução apresenta como evidência de evolução a existência de órgãos em animais, que aparentemente não têm função, porém, ao analisarmos mais detalhadamente estas supostas evidências veremos que a existência destes órgãos não implica que estes são realmente vestígios de órgãos herdados de antepassados evolutivos, pois já se sabe que eles possuem funções que antes eram desconhecidas.
Órgãos sem função? Será mesmo?
Todos os órgãos endócrinos e linfáticos já foram considerados vestigiais, no século XIX afirmava-se que no corpo humano havia aproximadamente 180 órgãos vestigiais, e ainda em 1971, a Encyclopaedia Britannica reivindicou mais de 100 órgãos que restavam como vestígio no ser humano, e até mesmo órgãos extremamente importantes como a glândula paratireóide eram considerados como vestígios simplesmente porque suas funções não eram compreendidas. Como a ciência biomédica progrediu, atualmente há reservas para se afirmar que existem órgãos sem função, mas, apesar disto, livros de ensino citam alguns órgãos como sendo vestígios que provam a evolução. Os exemplos de órgãos vestigiais mais freqüentemente usados são o cóccix e apêndice humanos.
Análise do Cóccix
O cóccix é um pequeno osso que termina a coluna vertebral na parte inferior. Os evolucionistas afirmam que este osso é um vestígio da cauda de nossos antepassados. A coluna vertebral é uma seqüência linear de ossos que como quase tudo que se conhece, tem um começo e um final, mas onde quer que termine, os evolucionistas insistem em chamar o final de vestígio de um rabo. Esta idéia é erroneamente aceita principalmente pelo fato de que os livros de biologia ainda dão a impressão errônea que o cóccix humano não tem nenhuma função além de provar a existência da evolução, porém, o cóccix tem funções importantes, serve como um ponto para anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico. O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.
Análise do Apêndice humano
O apêndice humano também é citado pelos evolucionistas como vestígio de nosso passado evolutivo, sendo uma sobra inútil, um órgão atrofiado pela falta de uso, por não mais se comer, por exemplo, carne crua ou vegetais mais resistentes em termos de digestão. Muitos livros que ensinam a teoria da evolução afirmam que o apêndice humano é um vestígio de cécum (a primeira parte do intestino grosso, também chamado ceco) de nossos antepassados evolutivos vegetarianos. O cécum é uma bolsa próxima ao início do intestino grosso, que provê um espaço adicional para a digestão. Em alguns animais vegetarianos, como vacas, por exemplo, o cécum contém bactérias especiais que ajudam na digestão de celulose. O apêndice não é um vestígio de cécum, pois quase todos os mamíferos têm um cécum e muitos deles também têm um apêndice. Da mesma forma que as amígdalas, e os tecidos adenóides, que também já foram considerados órgãos vestigiais, o apêndice é um órgão linfático (parte do sistema imunológico do organismo) que produz anticorpos contra infecções no sistema digestivo, sua remoção aumenta a suscetibilidade de uma pessoa para leucemia, a doença de Hodgkin, câncer do cólon e câncer dos ovários. Acreditando plenamente na crença da teoria da evolução, de que o apêndice era apenas um vestígio de nossos antepassados menos evoluídos, muitos cirurgiões removiam apêndices saudáveis como mera precaução para impedir que um problema futuro ocorresse ou sempre que o apêndice estava na cavidade abdominal. Atualmente, a remoção de um apêndice saudável, na maioria das circunstâncias, seria um considerável erro médico, estando provado que idéias evolutivas não científicas foram prejudiciais para o avanço de verdadeira ciência. Não existem órgãos sem funções (vestigiais), existem órgãos com funções ainda não muito esclarecidas (o próprio apêndice ainda não têm todas suas funções muito bem esclarecidas). Porém, mesmo que órgãos vestigiais existissem de fato, isto não seria evidência de evolução, mas de degeneração ou perda, sendo que a maior proposta da teoria da evolução sugere justamente o contrário: surgimento ou adaptação de órgãos para novos propósitos.
As descobertas da Medicina
Apesar de evolucionistas ainda afirmarem que determinados órgãos são vestigiais, a literatura médica já apresenta a funcionalidade destes órgãos. Uma obra, por exemplo, é o livro "Bogliolo - Tratado de Patologia".
Nos machos de todas as espécies de mamíferos, inclusive no homem, existem glândulas mamárias desativadas, porém, apesar da cultura de massa relacionada à teoria da evolução, nenhuma autoridade científica que crê na teoria evolutiva sugeriu que estes órgãos são vestígios evolutivos. As glândulas mamárias não são inúteis para as espécies, são rudimentares apenas nos machos. Machos e fêmeas se desenvolvem de embriões quase idênticos, os quais, em uma fase inicial do desenvolvimento, ficam masculinos ou fêmeas conforme a influência dos genes nos cromossomos de sexo. As mesmas partes de um embrião pode produzir órgãos de sexo masculino ou feminino e glândulas mamárias que se desenvolverão ou permanecerão rudimentares conforme o sexo. Em humanos, podem estar quase todos os componentes de órgãos femininos em forma rudimentar nos homens, e o contrário também é verdade, mulheres também possuem órgãos masculinos de forma rudimentar. Assim, a presença de órgãos rudimentares nos adultos não nos fala algo sobre evolução, mas nos conta bastante sobre embriologia.
Conclusão
Conforme pudemos observar os argumentos dos ateus em defesa da sua fé (a Teoria da Evolução), não encontrar qualquer corroboração biológica ou médica. Por isso que eu sempre digo que para ser ateu é preciso ter muito mais fé que os teistas.
Fonte: Veritatis Splendor
Virtude e Boa Ciência
Virtude e Boa Ciência
"Non vogliate negar l’esperienza di retro al sol, del mondo sanza gente. Considerate la vostra semenza fatti non foste a viver come bruti ma per seguir virtute e canoscenza" [1]
Uma das características do "novo ateísmo" é a falta de rigor científico de seus promotores. Dawkins, Hitchens e não nos esqueçamos do cômico Odifreddi, atacam a crença em Deus com armas e argumentos que não serviram a Anatole France há cerca de um século. E acrescento que tanto Anatole France quanto Bertrand Russell ficariam vermelhos de vergonha por ver a pobreza intelectual que a causa atéia representa atualmente. Sim, atualmente, quase um século depois da publicação de "La Revolte des Anges" (A Revolta dos Anjos) e "Why I Am not a Christian" (Porque não sou Cristão), os últimos autores ateus vêm disparando um ataque desordenado que evidencia uma notável falta de rigor filosófico que só pode ser explicada como uma cegueira abismal ou uma absoluta má vontade.
Uma das colunas deste ácido movimento, o italianíssimo professor de matemática Piergiorgio Odifreddi, foi recentemente entrevistado pelo "El País", um jornal de Madri. Cito a parte da entrevista que nos interessa, para observar a involução dos argumentos do Ateísmo dos últimos cem anos. Referindo-se à crença em Deus, o jornalista lhe pergunta:
- Porém, como um matemático formula algo que carece de toda lógica?
[Responde o professor Odifreddi]:
- Este livro possui duas inspirações claras: a obra "Porque não sou Cristão", de Bertrand Russell, e aquela de Benedetto Croce, "Porque não Podemos nos Considerar Cristãos". A idéia nasceu porque todo ano editamos um livro de Russell e deveríamos então fazer isso. Relí o livro e pareceu-me que, devido o passar do tempo, estava ultrapassado. Disse isso ao editor e ele me propôs que eu fizesse uma interpretação minha..."[2].
O que salta à vista neste sincero comentário do professor Odifreddi é justamente a sua franca confissão de que a obra de seu colega matemático estava ultrapassada. E concordo com ele: muitas das ideias de Russell eram ultrapassadas e algumas chegaram a ser ultrpassadas mais rápido do que outras. Algumas dessas ideias ainda correm o mundo, como a mula-sem-cabeça, dando voltas na escuridão após terem sido devidamente refutadas há muitos e muitos anos. Esses conceitos errados vivem sua vida antinatural às custas da ignorância de pessoas que ainda hoje os aceitam. Entretanto, retornemos a Bertrand Russell...
A minha afeição à matemática pode levar-me a escrever demais e avançar sobre temas que, em geral, são chatos. Porém, peço paciência e asseguro desde já que o leitor não cairá frustrado.
Odifreddi admite que a obra anticristã de Bertrand Russel está ultrassada e as razões disso analisaremos mais a frente. O que desejo acrescentar por ora é que houve outras ideias de Bertrand Russell - conclusões matemáticas - que duraram menos que um suspiro.
BERTRAND RUSSELL
Bertrand Russell iniciou sua carreira como matemático mas logo foi distraído pela filosofia ou, melhor dizendo, pela má filosofia. Foi uma espécie de João Crisóstomo ao contrário e sua retórica dourada foi colocada a serviço das piores espécies de Humanismo - aquelas que logo degeneraram nas ideias de Hitler e seus amigos. Russell dedicou-se ao estudo dos paradoxos de Georg Cantor, que então havia produzido uma série de obras acerca do estudo da infinitude. Não contente em estudar no silêncio os paradoxos da obra de Cantor, Russell passou a atacar a própria Lógica. E por breve tempo obteve certa fama, já que as suas conclusões pareciam ser bastante razoáveis.
No entanto, como às vezes ocorre, os que conheciam seriamente a Matemática passaram a sentir um mau cheiro no ar, algo estava obviamente errado nas assertivas de Russell. Uma dessas afirmações era relacionada à Teoria dos Conjuntos. Explicada em termos bastante simples, o Paradoxo de Russell propõe uma contradição (não vou explicar isto aqui, pois encontra-se em qualquer livro de Matemática) que já tinha sido apresentada por Epimênides há cerca de 25 séculos antes: trata-se do paradoxo do mentiroso que afirma: "O que eu digo é falso"; mas como é claro, se o que o mentiroso disse é verdade, então é falso! Não importa como se considere isto, a situação parece desarmar as próprias bases que sustentam toda a ordem lógica. Desde logo tudo é suspeito!
Muitos ficaram quebrando a cabeça. Muitos, com exceção de um jovem matemático da cidade de Brno, situada no que era então o Império Austro-Húngaro. Este rapaz, que rapidamente tornou-se um dos poucos amigos íntimos de Albert Einstein, chamava-se Kurt Gödel. Seus restos mortais descansam nos fundos de uma casa que ele morou em Princeton, Nova Jersei, não muito longe de onde escrevo estas linhas. Refletindo sobre este paradoxo de 25 séculos, Gödel produziu o seu Teorema do Incompleto[3] que assombrou a todos, especialmente aquelas pessoas que podiam compreendê-lo.
Naqueles dias, Bertrand Russell afirmava que o trabalho de respeitáveis matemáticos como David Hilbert logo acabaria com as poucas áreas da Matemática que ainda restavam a ser exploradas. Em suma, Hilbert acreditava que era possível construir um sistema axiomático que regeria toda a Matemática; este sistema iria permitir afirmar com certeza se uma assertiva matemática era correta ou não. Russell era um daqueles que esperavam ansiosamente que Hilbert concluísse seu trabalho para, assim, poder declarar que já se conhecia toda a Matemática que havia para se conhecer.
KURT GÖDEL
O trabalho de Gödel lançou por terra as especulações de Russell, provando que Hilbert estava errado de uma extremidade à outra.
O que Gödel fez para prová-lo? Gödel desenvolveu uma alternativa para a paradoxa afirmação de Epimênides. Começou com a famosa assertiva "esta afirmação é falsa" e a transformou em "esta afirmação não pode ser provada". Para fazê-lo, Gödel precisou desenvolver uma nova disciplina matemática que algumas décadas depois seria aplicada no desenvolvimento de linguagens cibernéticas de inteligência artificial. Mas a nós o que importa é que Bertrand Russell estava equivocado. Sei que soa um pouco contencioso, mas seria necessário escrever um livro de Matemática para explicar a revolução causada por Gödel e não podemos nos dar esse luxo aqui neste artigo. Creio que seja o suficiente resumí-lo assim: Gödel provou que existe a verdade na Matemática (uma certeza objetiva que sustenta tudo e que existe independente do pensamento humano). As conclusões positivistas e pós-modernistas restaram destruídas apesar disso não deter o seu avanço.
A ciência passou os próximos 20 anos olhando com preocupação a genial prova de Gödel. Bertrand Russell continuou sendo ateu e seguiu debatendo com G. K. Chesterton, mas se absteve de fazer previsões pelo resto da sua vida. No entanto, o episódio evidenciou a sua falta de rigor científico e a sua parcialidade, pois o homem de ciência, ateu ou crente, deveria antes de mais nada ser honesto e seguir a evidência, nada importando aonde irá parar. Russell - como os ateus de hoje - apostava apaixonadamente em um resultado guiado pelo seu desejo interior de declarar a rainha das ciências como um terreno totalmente conquistado pelo homem. Deus parece ter-lhe pregado uma peça: até hoje a Matemática continua crescendo em extensão, indo bem além da teoria dos conjuntos.
Mais ou menos na época em que Gödel exercitava o cérebro tentando colocar em ordem o seu Teorema, um veterano da I Guerra Mundial era professor de Literatura Inglesa em Oxford; seus amigos o conheciam como Jack Lewis. A morte de sua mãe, quando tinha apenas 9 anos de idade e alguns estudos de esoterismo em sua juventude inicial, impulsionaram o jovem C. S. Lewis ao Ateísmo. Por anos sua pluma destilava um elegante desprezo por todas as "religiões, ainda que devessem ser chamadas por seu [verdadeiro] nome - mitos -, das quais o Cristianismo não é nada mais que a mais recente..." etc. etc. Mas Deus tinha reservado a este Saulo de Tarso moderno o papel de apóstolo cristão do século XX aos povos de língua inglesa. Porém isto não se deu senão alguns anos depois que Lewis, de uma maneira quase milagrosa, se entregou a Deus e, mesmo assim, não sem alguma resistência.
Lewis tinha a vantagem de ter aprendido todos os dialetos do grego antigo desde a tenra idade. Pertencia à última geração formada na rígida disciplina clássica. Conhecia bem os mitos da humanidade, especialmente os mitos teutônicos, dos quais desfrutava desde a sua infância. Ao relatar a história de sua conversão, Lewis recorda que primeiro reconheceu a existência de Deus, mas não chegou a aceitar a Encarnação de Deus em Jesus Cristo, embora a ideia não lhe desagradasse. Também se sentia atraído pelas religiões do Indostão. Lewis não achava que o Cristianismo fosse suficientemente original.
A MORTE DE SIGFRIDO
Em Cristo estavam presentes todos os elementos do mito solar que antes tinha encontrado em Balder, Sigfrido, Osíris, Marduk e tantos outros. Lewis entendia que essa falta de "originalidade" do Cristianismo era um defeito e que todos estes mitos análogos podiam ser explicados como parte da psicologia humana. O que Lewis não sabia nessa época é que já Santo Agostinho de Hipona tinha observado que a alma do homem fora feita para Cristo e que não encontra paz até repousar n'Ele. A razão da similaridade de tantos mitos antigos com a história de Jesus é justamente esta: fomos feitos para Cristo e, se não o conhecemos, temos que inventar algo que o substitua. Essa é a origem de todos os mitos; de fato, a origem de todas as inquietudes humanas transcedentais. Lewis estava observando o problema a partir do extremo oposto. Cristo não é a sublimação de uma necessidade psicológica humana que faz uso do mito, mas justamente o contrário: o mito é a versão limitada que a humanidade perdida precisa construir para preencher o vazio que a ausência de Cristo deixa.
Foi realmente lendo os Evangelhos com um amigo ateu - cujo nome nunca revelou - que Lewis enfrentou finalmente o poder do "mito cristão". Enquanto ambos faziam uma comparação informal da história cristã com a de mitos pagãos análogos, o seu amigo ateu exclamou: "Puxa! Parece que isto realmente ocorreu pelo menos uma vez!"[4]. Lewis era crítico literário dos melhores, talvez o melhor da sua geração. Comentando sobre a sua experiência ao ler os Evangelhos, disse:
"Conheço um mito quando o vejo; conheço uma lenda quando a vejo; e conheço um testemunho vivo quando o vejo. Reconheço uma metáfora quando a encontro. Tudo isto encontra-se na Bíblia; tudo é inspirado. Porém, acima de tudo, isso é História".
Lewis não queria ser cristão, mas tampouco era capaz de viver uma mentira. Em seu interior havia ocorrido uma descoberta fundamental: havia percebido que ele próprio não era Deus. Algo forçava o seu intelecto a partir de fora; algo o procurava e ele se sentia como a raposa perseguida por dezenas de cachorros, que sabe perfeitamente que o fim é apenas uma questão de tempo. Aterrorizado diante da ideia de ter sido encontrado por Deus, Lewis aguardava o xeque-mate final. Nesse estado mental, leu a obra de Chesterton, "The Everlasting Man" (O Homem Eterno):
"Um grande homem sabe que ele mesmo não é Deus e quanto maior ele é, melhor o sabe. Os Evangelhos declaram que este misterioso Criador do mundo nos visitou pessoalmente. O máximo que qualquer dos profetas havia feito até então era se declarar como fiel servidor desse Ser. Contudo, se o Criador esteve presente na vida diária do Império Romano, isso é algo ímpar e sem paralelo na natureza. É a mais assombrosa declaração que um homem havia feito desde que articulou sua primeira palavra. Reduz ao pó e à falta de sentido qualquer comparação entre as religiões"[5].
Aí estava tudo: nos Evangelhos. Era possível enxergar os elementos míticos, a ascensão de Cristo desde a sua obscura aldeia na Galiléia até a cena do Calvário. A penetrante sabedoria dos seus ditos concentrava e refinava os pensamentos de todos os filósofos e os elevava a alturas majestosas sem perder por isso a linguagem simples e camponesa. As metáforas estavam ali, mas não eram simples invenções literárias como as de Kenningar der Skalden, que Lewis estudava com os seus alunos. Aquelas eram metáforas feitas com vidas de homens e mulheres entrelaçadas com seus nomes próprios e os nomes de cidades e regiões que tinham existido por séculos antes que o evento dos Evangelhos ocorresse. Uma mão sobrenatural parecia dispor tudo sem que nada sobrasse ou faltasse. Era Deus! Era esse Deus feito homem que havia preparado Lewis por anos, moldando suas emoções, sua mente e seus estudos, para que lhe servissem um dia para buscá-Lo.
C. S. LEWIS
Finalmente, em uma caminhada depois da ceia com Hugo Dyson e J. R. R. Tolkien, seus amigos lhe apontaram que a única diferença entre os vários mitos e o Cristianismo era a de que nunca tivéramos notícia de que Osíris tinha caminhado na terra, mas Jesus, ao contrário, tinha deixado pegadas; houve gente que falou com Ele, que o viu e comentou o que Jesus havia feito. Lewis acaba descrevendo a cena em poucas mas arrepiantes linhas:
"Enquanto continuávamos caminhando, fomos interrompidos por uma rajada de vento que ocorreu tão subitamente nessa quente e calma tarde, lançando em cascata tantas folhas, que imaginamos que estava chovendo. Todos nós contivemos o fôlego, apreciando a êxtase desse momento".
Parece que Deus se fez presente na vida de Lewis desde então. Chegou a ser um dos grandes defensores da fé cristã e suas obras continuam gerando conversões até hoje. O autor destas linhas pode atestar isso com sua experiência pessoal.
O mundo no qual Lewis brilhou acabava de perder G. K. Chesterton. Eram os anos da II Guerra Mundial, quando ainda os Estados Unidos e a Inglaterra podiam ser considerados nações cristãs enfrentando a realidade de dois regimes ateus e anticristãos: a Alemanha nazista e a União Soviética.
A vitória dos Aliados não trouxe como consequência um ressurgimento das ideias cristãs; muito pelo contrário. Lewis enfrenta a realidade por vir em uma das suas obras-primas, "The Abolition of Man" (A Abolição do Homem).
Tendo conhecido a vida de ambos os lados da controvérsia, ateus x crentes, Lewis sabia que no centro da negação atéia estavam duas coisas fundamentais: a primeira é o desejo de ver-se livre dos laços da moral; a segunda, instigada pela primeira, é uma forma de reducionismo deliberado que tenta demolir a razão, já que todo homem sabe em seu íntimo que a razão é a ordem natural dos pensamentos e que, por detrás de toda ordem natural, encontra-se Deus.
A minha frase favorita nessa obra, "The Abolition of Man", é esta:
"Talvez eu esteja pedindo algo impossível. Talvez na natureza das coisas, a compreensão analítica deve ser um basilisco que mata tudo o que vê e que só pode ver através do matar. Porém, se os próprios cientistas não podem deter esse processo antes que alcance e mate também a Razão, então alguém precisa detê-la".
Este livro é talvez uma das mais claras defesas da Lei Natural que se pode ler. Logo Lewis transportaria as ideias deste livro para o terceiro livro de sua trilogia de ficção científica, "That Hideous Strength" (Aquela Força Medonha). O que me interessa extrair da obra de Lewis em geral e deste livro em particular é a sua visão quase profética do futuro da educação e das ciências. Este livro analisa valentemente o que já havia ocorrido em 1944 na sociedade e, de fato, o que iria ocorrer com a nossa forma de entender o universo. Lewis despreza as vozes de pessoas como Bertrand Russell, que consideram ter atingido o fim da História ou o início de um novo mundo onde o homem transforma a si mesmo em um deus e começa a mudar a própria trama da Lei Natural. Lewis deduz que a última conquista do homem resulta na abolição do homem: ao concentrar toda a sua atenção em si mesmo e subjetivizar todas as suas experiências, o homem deve obrigatoriamente destruir a razão que é a última parcela de divindade que todavia vive nele. As experiências genéticas dos nazistas já tinham oferecido um adiantamento das tétricas maravilhas que estavam por vir. Hoje o confirmamos: o aborto legalizado nos Estados Unidos já matou muito mais americanos que todas as guerras juntas desde a II Guerra Mundial. O que o odioso fragor da guerra não conseguiu obter foi tarefa fácil para as ideologias da morte que provêm justamente da negação de Deus e da noite da razão que permanece, uma vez que afastamos Deus do nosso meio.
A obra de Lewis começa como uma crítica a um livro usado nas escolas do seu tempo, "Reflections on education with special reference to the teaching of English in the upper forms of schools". Este livro é, talvez, um dos primeiros ataques contra a verdade objetiva nas escolas inglesas do século XX.
Se Gödel tinha provado a existência de uma verdade objetiva no mundo abstrato da Matemática, Lewis provava em "The Abolition of Man" que a Lei Natural é a sua equivalente moral, existente fora do homem e não como uma "construção" que os homens podem modificar ao seu bel-prazer.
As conclusões de Gödel e Lewis em suas respectivas áreas de conhecimento foram mal-entendidas e principalmente ignoradas. O pós-modernismo continuou avançando tal como um câncer maligno que se espalha pouco a pouco por todo o corpo.
Hoje vivemos no mundo criado em sua maior parte por esses educadores que começaram subjetivizando toda verdade. Vivemos na cultura que aceita que a mulher mate o seu próprio filho apresentando como única justificativa: "é o meu corpo", muito embora, ao mesmo tempo, considera que aqueles que crêem na transubstanciação baseada nas palavras de Cristo, "Isto é o meu Corpo", estão expostos a uma perigosa superstição.
As coisas chegaram a tal ponto que o próprio Papa precisa investir tempo e consideráveis argumentos filosóficos para desbancar o relativismo, uma das ideias mais próximas ao sem-sentido absoluto que se tem produzido neste mundo desordenado... Um mundo que chegou a aceitar que "tudo é relativo" - exceto este axioma que, longe de ser relativo, é aplicado com força absoluta buscando a destruição da razão. O Paradoxo de Russell volta a se apresentar disfarçadamente, aumentando o perigo mortal que representa viver a vida e organizar a sociedade humana com base em uma falsidade manifesta que foi escolhida para substituir a verdade.
No início deste artigo eu disse que os ateus profissionais que encontramos ultimamente apresentam argumentos, provas e raciocínios totalmente carentes de rigor filosófico e científico, quando não privados de qualquer sentido comum. Pois então, senhores, isto não é algo que surgiu da noite para o dia. Como Lewis bem apontou em 1944, podemos dizer que investimos tempo e esforço educando várias gerações nas particularidades da sem-razão subjetiva. Portanto, não devemos agora nos surpreender que pessoas como Bertrand Russel, Dawkins, Hitchen e Odifreddi surjam com um mundo de ideias afastadas das razões que enriqueceram a nossa civilização desde os tempos de Epimênides.
Analisaremos isso em nosso próximo artigo.
-----
NOTAS
[1] "Não vos empenheis em negar a experiência
De costas para o sol, o mundo inabitado
Considerai essa semente vossa,
Que não fostes criados para viver como feras
Mas para seguir a virtude e a ciência"
(Dante Alighieri, Divina Commedia, Inferno, canto XXVI,116-120).
Tradução do Autor. Aceitam-se correções de quem conheça melhor o italiano clássico.
[2] "Se leram bem a Bíblia, deveriam crer". Entrevista de Jesús Ruiz Mantilla a Piergiorgio Odifreddi, publicado pelo jornal El País Semanal. Madri, 6 de junho de 2008.
[3] "Godel's Proof" (A Prova de Gödel). Ernest Nagel, James Newman, Douglas R. Hofstadter. Publicado por New York University Press, Nova Iorque, 1958.
[4] "Rum thing. Seems to have really happened once".
[5] "The Everlasting Man". G. K. Chesterton.
Traduzido para o Veritatis Splendor por Carlos Martins Nabeto do site Primera Luz (http://www.primeraluz.org).
Fonte: Veritatis Splendor
"Non vogliate negar l’esperienza di retro al sol, del mondo sanza gente. Considerate la vostra semenza fatti non foste a viver come bruti ma per seguir virtute e canoscenza" [1]
Uma das características do "novo ateísmo" é a falta de rigor científico de seus promotores. Dawkins, Hitchens e não nos esqueçamos do cômico Odifreddi, atacam a crença em Deus com armas e argumentos que não serviram a Anatole France há cerca de um século. E acrescento que tanto Anatole France quanto Bertrand Russell ficariam vermelhos de vergonha por ver a pobreza intelectual que a causa atéia representa atualmente. Sim, atualmente, quase um século depois da publicação de "La Revolte des Anges" (A Revolta dos Anjos) e "Why I Am not a Christian" (Porque não sou Cristão), os últimos autores ateus vêm disparando um ataque desordenado que evidencia uma notável falta de rigor filosófico que só pode ser explicada como uma cegueira abismal ou uma absoluta má vontade.
Uma das colunas deste ácido movimento, o italianíssimo professor de matemática Piergiorgio Odifreddi, foi recentemente entrevistado pelo "El País", um jornal de Madri. Cito a parte da entrevista que nos interessa, para observar a involução dos argumentos do Ateísmo dos últimos cem anos. Referindo-se à crença em Deus, o jornalista lhe pergunta:
- Porém, como um matemático formula algo que carece de toda lógica?
[Responde o professor Odifreddi]:
- Este livro possui duas inspirações claras: a obra "Porque não sou Cristão", de Bertrand Russell, e aquela de Benedetto Croce, "Porque não Podemos nos Considerar Cristãos". A idéia nasceu porque todo ano editamos um livro de Russell e deveríamos então fazer isso. Relí o livro e pareceu-me que, devido o passar do tempo, estava ultrapassado. Disse isso ao editor e ele me propôs que eu fizesse uma interpretação minha..."[2].
O que salta à vista neste sincero comentário do professor Odifreddi é justamente a sua franca confissão de que a obra de seu colega matemático estava ultrapassada. E concordo com ele: muitas das ideias de Russell eram ultrapassadas e algumas chegaram a ser ultrpassadas mais rápido do que outras. Algumas dessas ideias ainda correm o mundo, como a mula-sem-cabeça, dando voltas na escuridão após terem sido devidamente refutadas há muitos e muitos anos. Esses conceitos errados vivem sua vida antinatural às custas da ignorância de pessoas que ainda hoje os aceitam. Entretanto, retornemos a Bertrand Russell...
A minha afeição à matemática pode levar-me a escrever demais e avançar sobre temas que, em geral, são chatos. Porém, peço paciência e asseguro desde já que o leitor não cairá frustrado.
Odifreddi admite que a obra anticristã de Bertrand Russel está ultrassada e as razões disso analisaremos mais a frente. O que desejo acrescentar por ora é que houve outras ideias de Bertrand Russell - conclusões matemáticas - que duraram menos que um suspiro.
BERTRAND RUSSELL
Bertrand Russell iniciou sua carreira como matemático mas logo foi distraído pela filosofia ou, melhor dizendo, pela má filosofia. Foi uma espécie de João Crisóstomo ao contrário e sua retórica dourada foi colocada a serviço das piores espécies de Humanismo - aquelas que logo degeneraram nas ideias de Hitler e seus amigos. Russell dedicou-se ao estudo dos paradoxos de Georg Cantor, que então havia produzido uma série de obras acerca do estudo da infinitude. Não contente em estudar no silêncio os paradoxos da obra de Cantor, Russell passou a atacar a própria Lógica. E por breve tempo obteve certa fama, já que as suas conclusões pareciam ser bastante razoáveis.
No entanto, como às vezes ocorre, os que conheciam seriamente a Matemática passaram a sentir um mau cheiro no ar, algo estava obviamente errado nas assertivas de Russell. Uma dessas afirmações era relacionada à Teoria dos Conjuntos. Explicada em termos bastante simples, o Paradoxo de Russell propõe uma contradição (não vou explicar isto aqui, pois encontra-se em qualquer livro de Matemática) que já tinha sido apresentada por Epimênides há cerca de 25 séculos antes: trata-se do paradoxo do mentiroso que afirma: "O que eu digo é falso"; mas como é claro, se o que o mentiroso disse é verdade, então é falso! Não importa como se considere isto, a situação parece desarmar as próprias bases que sustentam toda a ordem lógica. Desde logo tudo é suspeito!
Muitos ficaram quebrando a cabeça. Muitos, com exceção de um jovem matemático da cidade de Brno, situada no que era então o Império Austro-Húngaro. Este rapaz, que rapidamente tornou-se um dos poucos amigos íntimos de Albert Einstein, chamava-se Kurt Gödel. Seus restos mortais descansam nos fundos de uma casa que ele morou em Princeton, Nova Jersei, não muito longe de onde escrevo estas linhas. Refletindo sobre este paradoxo de 25 séculos, Gödel produziu o seu Teorema do Incompleto[3] que assombrou a todos, especialmente aquelas pessoas que podiam compreendê-lo.
Naqueles dias, Bertrand Russell afirmava que o trabalho de respeitáveis matemáticos como David Hilbert logo acabaria com as poucas áreas da Matemática que ainda restavam a ser exploradas. Em suma, Hilbert acreditava que era possível construir um sistema axiomático que regeria toda a Matemática; este sistema iria permitir afirmar com certeza se uma assertiva matemática era correta ou não. Russell era um daqueles que esperavam ansiosamente que Hilbert concluísse seu trabalho para, assim, poder declarar que já se conhecia toda a Matemática que havia para se conhecer.
KURT GÖDEL
O trabalho de Gödel lançou por terra as especulações de Russell, provando que Hilbert estava errado de uma extremidade à outra.
O que Gödel fez para prová-lo? Gödel desenvolveu uma alternativa para a paradoxa afirmação de Epimênides. Começou com a famosa assertiva "esta afirmação é falsa" e a transformou em "esta afirmação não pode ser provada". Para fazê-lo, Gödel precisou desenvolver uma nova disciplina matemática que algumas décadas depois seria aplicada no desenvolvimento de linguagens cibernéticas de inteligência artificial. Mas a nós o que importa é que Bertrand Russell estava equivocado. Sei que soa um pouco contencioso, mas seria necessário escrever um livro de Matemática para explicar a revolução causada por Gödel e não podemos nos dar esse luxo aqui neste artigo. Creio que seja o suficiente resumí-lo assim: Gödel provou que existe a verdade na Matemática (uma certeza objetiva que sustenta tudo e que existe independente do pensamento humano). As conclusões positivistas e pós-modernistas restaram destruídas apesar disso não deter o seu avanço.
A ciência passou os próximos 20 anos olhando com preocupação a genial prova de Gödel. Bertrand Russell continuou sendo ateu e seguiu debatendo com G. K. Chesterton, mas se absteve de fazer previsões pelo resto da sua vida. No entanto, o episódio evidenciou a sua falta de rigor científico e a sua parcialidade, pois o homem de ciência, ateu ou crente, deveria antes de mais nada ser honesto e seguir a evidência, nada importando aonde irá parar. Russell - como os ateus de hoje - apostava apaixonadamente em um resultado guiado pelo seu desejo interior de declarar a rainha das ciências como um terreno totalmente conquistado pelo homem. Deus parece ter-lhe pregado uma peça: até hoje a Matemática continua crescendo em extensão, indo bem além da teoria dos conjuntos.
Mais ou menos na época em que Gödel exercitava o cérebro tentando colocar em ordem o seu Teorema, um veterano da I Guerra Mundial era professor de Literatura Inglesa em Oxford; seus amigos o conheciam como Jack Lewis. A morte de sua mãe, quando tinha apenas 9 anos de idade e alguns estudos de esoterismo em sua juventude inicial, impulsionaram o jovem C. S. Lewis ao Ateísmo. Por anos sua pluma destilava um elegante desprezo por todas as "religiões, ainda que devessem ser chamadas por seu [verdadeiro] nome - mitos -, das quais o Cristianismo não é nada mais que a mais recente..." etc. etc. Mas Deus tinha reservado a este Saulo de Tarso moderno o papel de apóstolo cristão do século XX aos povos de língua inglesa. Porém isto não se deu senão alguns anos depois que Lewis, de uma maneira quase milagrosa, se entregou a Deus e, mesmo assim, não sem alguma resistência.
Lewis tinha a vantagem de ter aprendido todos os dialetos do grego antigo desde a tenra idade. Pertencia à última geração formada na rígida disciplina clássica. Conhecia bem os mitos da humanidade, especialmente os mitos teutônicos, dos quais desfrutava desde a sua infância. Ao relatar a história de sua conversão, Lewis recorda que primeiro reconheceu a existência de Deus, mas não chegou a aceitar a Encarnação de Deus em Jesus Cristo, embora a ideia não lhe desagradasse. Também se sentia atraído pelas religiões do Indostão. Lewis não achava que o Cristianismo fosse suficientemente original.
A MORTE DE SIGFRIDO
Em Cristo estavam presentes todos os elementos do mito solar que antes tinha encontrado em Balder, Sigfrido, Osíris, Marduk e tantos outros. Lewis entendia que essa falta de "originalidade" do Cristianismo era um defeito e que todos estes mitos análogos podiam ser explicados como parte da psicologia humana. O que Lewis não sabia nessa época é que já Santo Agostinho de Hipona tinha observado que a alma do homem fora feita para Cristo e que não encontra paz até repousar n'Ele. A razão da similaridade de tantos mitos antigos com a história de Jesus é justamente esta: fomos feitos para Cristo e, se não o conhecemos, temos que inventar algo que o substitua. Essa é a origem de todos os mitos; de fato, a origem de todas as inquietudes humanas transcedentais. Lewis estava observando o problema a partir do extremo oposto. Cristo não é a sublimação de uma necessidade psicológica humana que faz uso do mito, mas justamente o contrário: o mito é a versão limitada que a humanidade perdida precisa construir para preencher o vazio que a ausência de Cristo deixa.
Foi realmente lendo os Evangelhos com um amigo ateu - cujo nome nunca revelou - que Lewis enfrentou finalmente o poder do "mito cristão". Enquanto ambos faziam uma comparação informal da história cristã com a de mitos pagãos análogos, o seu amigo ateu exclamou: "Puxa! Parece que isto realmente ocorreu pelo menos uma vez!"[4]. Lewis era crítico literário dos melhores, talvez o melhor da sua geração. Comentando sobre a sua experiência ao ler os Evangelhos, disse:
"Conheço um mito quando o vejo; conheço uma lenda quando a vejo; e conheço um testemunho vivo quando o vejo. Reconheço uma metáfora quando a encontro. Tudo isto encontra-se na Bíblia; tudo é inspirado. Porém, acima de tudo, isso é História".
Lewis não queria ser cristão, mas tampouco era capaz de viver uma mentira. Em seu interior havia ocorrido uma descoberta fundamental: havia percebido que ele próprio não era Deus. Algo forçava o seu intelecto a partir de fora; algo o procurava e ele se sentia como a raposa perseguida por dezenas de cachorros, que sabe perfeitamente que o fim é apenas uma questão de tempo. Aterrorizado diante da ideia de ter sido encontrado por Deus, Lewis aguardava o xeque-mate final. Nesse estado mental, leu a obra de Chesterton, "The Everlasting Man" (O Homem Eterno):
"Um grande homem sabe que ele mesmo não é Deus e quanto maior ele é, melhor o sabe. Os Evangelhos declaram que este misterioso Criador do mundo nos visitou pessoalmente. O máximo que qualquer dos profetas havia feito até então era se declarar como fiel servidor desse Ser. Contudo, se o Criador esteve presente na vida diária do Império Romano, isso é algo ímpar e sem paralelo na natureza. É a mais assombrosa declaração que um homem havia feito desde que articulou sua primeira palavra. Reduz ao pó e à falta de sentido qualquer comparação entre as religiões"[5].
Aí estava tudo: nos Evangelhos. Era possível enxergar os elementos míticos, a ascensão de Cristo desde a sua obscura aldeia na Galiléia até a cena do Calvário. A penetrante sabedoria dos seus ditos concentrava e refinava os pensamentos de todos os filósofos e os elevava a alturas majestosas sem perder por isso a linguagem simples e camponesa. As metáforas estavam ali, mas não eram simples invenções literárias como as de Kenningar der Skalden, que Lewis estudava com os seus alunos. Aquelas eram metáforas feitas com vidas de homens e mulheres entrelaçadas com seus nomes próprios e os nomes de cidades e regiões que tinham existido por séculos antes que o evento dos Evangelhos ocorresse. Uma mão sobrenatural parecia dispor tudo sem que nada sobrasse ou faltasse. Era Deus! Era esse Deus feito homem que havia preparado Lewis por anos, moldando suas emoções, sua mente e seus estudos, para que lhe servissem um dia para buscá-Lo.
C. S. LEWIS
Finalmente, em uma caminhada depois da ceia com Hugo Dyson e J. R. R. Tolkien, seus amigos lhe apontaram que a única diferença entre os vários mitos e o Cristianismo era a de que nunca tivéramos notícia de que Osíris tinha caminhado na terra, mas Jesus, ao contrário, tinha deixado pegadas; houve gente que falou com Ele, que o viu e comentou o que Jesus havia feito. Lewis acaba descrevendo a cena em poucas mas arrepiantes linhas:
"Enquanto continuávamos caminhando, fomos interrompidos por uma rajada de vento que ocorreu tão subitamente nessa quente e calma tarde, lançando em cascata tantas folhas, que imaginamos que estava chovendo. Todos nós contivemos o fôlego, apreciando a êxtase desse momento".
Parece que Deus se fez presente na vida de Lewis desde então. Chegou a ser um dos grandes defensores da fé cristã e suas obras continuam gerando conversões até hoje. O autor destas linhas pode atestar isso com sua experiência pessoal.
O mundo no qual Lewis brilhou acabava de perder G. K. Chesterton. Eram os anos da II Guerra Mundial, quando ainda os Estados Unidos e a Inglaterra podiam ser considerados nações cristãs enfrentando a realidade de dois regimes ateus e anticristãos: a Alemanha nazista e a União Soviética.
A vitória dos Aliados não trouxe como consequência um ressurgimento das ideias cristãs; muito pelo contrário. Lewis enfrenta a realidade por vir em uma das suas obras-primas, "The Abolition of Man" (A Abolição do Homem).
Tendo conhecido a vida de ambos os lados da controvérsia, ateus x crentes, Lewis sabia que no centro da negação atéia estavam duas coisas fundamentais: a primeira é o desejo de ver-se livre dos laços da moral; a segunda, instigada pela primeira, é uma forma de reducionismo deliberado que tenta demolir a razão, já que todo homem sabe em seu íntimo que a razão é a ordem natural dos pensamentos e que, por detrás de toda ordem natural, encontra-se Deus.
A minha frase favorita nessa obra, "The Abolition of Man", é esta:
"Talvez eu esteja pedindo algo impossível. Talvez na natureza das coisas, a compreensão analítica deve ser um basilisco que mata tudo o que vê e que só pode ver através do matar. Porém, se os próprios cientistas não podem deter esse processo antes que alcance e mate também a Razão, então alguém precisa detê-la".
Este livro é talvez uma das mais claras defesas da Lei Natural que se pode ler. Logo Lewis transportaria as ideias deste livro para o terceiro livro de sua trilogia de ficção científica, "That Hideous Strength" (Aquela Força Medonha). O que me interessa extrair da obra de Lewis em geral e deste livro em particular é a sua visão quase profética do futuro da educação e das ciências. Este livro analisa valentemente o que já havia ocorrido em 1944 na sociedade e, de fato, o que iria ocorrer com a nossa forma de entender o universo. Lewis despreza as vozes de pessoas como Bertrand Russell, que consideram ter atingido o fim da História ou o início de um novo mundo onde o homem transforma a si mesmo em um deus e começa a mudar a própria trama da Lei Natural. Lewis deduz que a última conquista do homem resulta na abolição do homem: ao concentrar toda a sua atenção em si mesmo e subjetivizar todas as suas experiências, o homem deve obrigatoriamente destruir a razão que é a última parcela de divindade que todavia vive nele. As experiências genéticas dos nazistas já tinham oferecido um adiantamento das tétricas maravilhas que estavam por vir. Hoje o confirmamos: o aborto legalizado nos Estados Unidos já matou muito mais americanos que todas as guerras juntas desde a II Guerra Mundial. O que o odioso fragor da guerra não conseguiu obter foi tarefa fácil para as ideologias da morte que provêm justamente da negação de Deus e da noite da razão que permanece, uma vez que afastamos Deus do nosso meio.
A obra de Lewis começa como uma crítica a um livro usado nas escolas do seu tempo, "Reflections on education with special reference to the teaching of English in the upper forms of schools". Este livro é, talvez, um dos primeiros ataques contra a verdade objetiva nas escolas inglesas do século XX.
Se Gödel tinha provado a existência de uma verdade objetiva no mundo abstrato da Matemática, Lewis provava em "The Abolition of Man" que a Lei Natural é a sua equivalente moral, existente fora do homem e não como uma "construção" que os homens podem modificar ao seu bel-prazer.
As conclusões de Gödel e Lewis em suas respectivas áreas de conhecimento foram mal-entendidas e principalmente ignoradas. O pós-modernismo continuou avançando tal como um câncer maligno que se espalha pouco a pouco por todo o corpo.
Hoje vivemos no mundo criado em sua maior parte por esses educadores que começaram subjetivizando toda verdade. Vivemos na cultura que aceita que a mulher mate o seu próprio filho apresentando como única justificativa: "é o meu corpo", muito embora, ao mesmo tempo, considera que aqueles que crêem na transubstanciação baseada nas palavras de Cristo, "Isto é o meu Corpo", estão expostos a uma perigosa superstição.
As coisas chegaram a tal ponto que o próprio Papa precisa investir tempo e consideráveis argumentos filosóficos para desbancar o relativismo, uma das ideias mais próximas ao sem-sentido absoluto que se tem produzido neste mundo desordenado... Um mundo que chegou a aceitar que "tudo é relativo" - exceto este axioma que, longe de ser relativo, é aplicado com força absoluta buscando a destruição da razão. O Paradoxo de Russell volta a se apresentar disfarçadamente, aumentando o perigo mortal que representa viver a vida e organizar a sociedade humana com base em uma falsidade manifesta que foi escolhida para substituir a verdade.
No início deste artigo eu disse que os ateus profissionais que encontramos ultimamente apresentam argumentos, provas e raciocínios totalmente carentes de rigor filosófico e científico, quando não privados de qualquer sentido comum. Pois então, senhores, isto não é algo que surgiu da noite para o dia. Como Lewis bem apontou em 1944, podemos dizer que investimos tempo e esforço educando várias gerações nas particularidades da sem-razão subjetiva. Portanto, não devemos agora nos surpreender que pessoas como Bertrand Russel, Dawkins, Hitchen e Odifreddi surjam com um mundo de ideias afastadas das razões que enriqueceram a nossa civilização desde os tempos de Epimênides.
Analisaremos isso em nosso próximo artigo.
-----
NOTAS
[1] "Não vos empenheis em negar a experiência
De costas para o sol, o mundo inabitado
Considerai essa semente vossa,
Que não fostes criados para viver como feras
Mas para seguir a virtude e a ciência"
(Dante Alighieri, Divina Commedia, Inferno, canto XXVI,116-120).
Tradução do Autor. Aceitam-se correções de quem conheça melhor o italiano clássico.
[2] "Se leram bem a Bíblia, deveriam crer". Entrevista de Jesús Ruiz Mantilla a Piergiorgio Odifreddi, publicado pelo jornal El País Semanal. Madri, 6 de junho de 2008.
[3] "Godel's Proof" (A Prova de Gödel). Ernest Nagel, James Newman, Douglas R. Hofstadter. Publicado por New York University Press, Nova Iorque, 1958.
[4] "Rum thing. Seems to have really happened once".
[5] "The Everlasting Man". G. K. Chesterton.
Traduzido para o Veritatis Splendor por Carlos Martins Nabeto do site Primera Luz (http://www.primeraluz.org).
Fonte: Veritatis Splendor
Assinar:
Postagens (Atom)


