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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Onde estão os nossos pastores?



*Pe. David Francisquini
Por instituição divina, a Igreja visa à salvação das almas, pois o preceito de Jesus Cristo é claro: “Ide por toda parte e pregai o Evangelho, aquele que crer e for batizado será salvo e o que não crer será condenado”. A Igreja é católica, isto é, universal, abarca todos os povos e nações, e haverá um só rebanho e um só pastor.
Nosso Salvador se comparou ao bom pastor que não apenas vigia, mas que é capaz de lutar e dar a vida por suas ovelhas. Quis Ele mesmo ser modelo vivo dos pastores que viria instituir para dar continuidade à Sua obra, os quais devem ser vigilantes e militantes na defesa do rebanho a eles confiado.
Exemplo de militância que a Igreja deve sempre mostrar é o de Nosso Senhor enfrentando por três vezes a Satanás, ensinando-nos com isso que a vida neste mundo é de luta. Outros exemplos deixou-nos o Divino Mestre quando discutia com os escribas, os fariseus e os doutores da Lei.
Portanto, o sacerdócio católico deve ser militante – tônica essencial da Santa Igreja até a consumação dos séculos. Depois do pecado de nossos primeiros pais, a luta contra as más paixões passou a ser regra neste exílio, neste vale de lágrimas, como se reza na Salve Rainha.
Luta posta pelo próprio Deus ao decretar: “Porei inimizades entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a descendência d’Ela, e Ela te esmagará a cabeça e tu armarás ciladas ao Seu calcanhar” (Gn. 3,15). Luta que não existe apenas agora, mas que há de recrudescer até o fim dos tempos.
Vigilância e luta poderia bem ser o lema dos sacerdotes, pois os filhos das trevas costumam ser mais sagazes do que os filhos da luz. Os seguidores de Satanás não se cansam de investir contra as muralhas indefectíveis da Santa Igreja, o que perpetuará esta luta até a fim do mundo.
Como é incessante hoje em todos os lugares e em todas as circunstâncias a propagação do erro – quer nas tendências, nas ideias e nos fatos – isso nos impõe, ou pelo menos deveria nos impor, não somente uma vigilância contínua, mas uma luta sem tréguas, sob pena de trairmos a missão sacerdotal.
Iniciativas como o aborto, a contracepção, a identidade de gênero, o pseudo-casamento homossexual e a prostituição; a eliminação da família, da propriedade e do pátrio poder; o interconfessionalismo religioso e o laxismo moral – todas elas visam à completa relativização do ensinamento de Jesus Cristo.
Meios não faltam aos propagadores do mal, cujos erros fazem grassar através da mídia, da educação, dos divertimentos, dos shows, das músicas que apodrecem a moralidade e, portanto, as famílias e a vida pública. Com toda razão, os fieis poderiam perguntar: – Onde estão os pastores?


Ao decretar que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja, Nosso Senhor sem dúvida nos confirmava na fé e na esperança. Caso contrário, poderíamos vacilar nessas virtudes, à vista da imobilidade de muitos pastores diante dos lobos que investem contra os seus rebanhos. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Importância dos contos e das lendas na vida medieval

Importância dos contos e das lendas na vida medieval


Um elemento essencial da vida medieval foi a pregação.

Nessa época, pregar não era monologar em termos escolhidos perante um auditório silencioso e convencido.

Pregava-se um pouco por todo lado, não apenas nas igrejas, mas também nos mercados, nos campos de feira, no cruzamento das estradas; e de modo muito vivo, cheio de calor e de ímpeto.

O pregador dirigia-se ao auditório, respondia às suas perguntas, admitia mesmo as suas contradições, os seus rumores, as suas invectivas.



Um sermão agia sobre a multidão, podia desencadear imediatamente uma cruzada, propagar uma heresia, preparar revoltas.

O papel didático dos clérigos era então imenso.

Eram eles que ensinavam aos fiéis a sua história e as suas lendas, a sua ciência e a sua fé; que comunicavam os grandes acontecimentos, transmitia de uma ponta à outra da Europa a notícia da tomada de Jerusalém, ou a da perda de Saint-Jean d’Acre; que aconselhavam uns e guiavam outros, mesmo nos seus negócios profanos.

Nos nossos dias são prejudicados nos seus estudos e na vida aqueles que não têm memória visual, a qual no entanto é mais rara, de exercício mais automático e menos racional que a memória auditiva.

Na Idade Média a pessoa instruía-se escutando, e a palavra era de ouro.

Se a expressão “cultura latente” teve sentido alguma vez, foi na Idade Média.

Toda a gente tem então um conhecimento pelo menos corrente do latim falado e articula o cantochão, que supõe senão a ciência, pelo menos o uso da acentuação.

Toda a gente possui uma cultura mitológica e lendária.

Acontece que as fábulas e os contos dizem mais sobre a história da humanidade e sobre a sua natureza do que uma boa parte das ciências inscritas nos nossos dias nos programas oficiais.

Nos romances de mester publicados por Thomas Deloney, vemos os tecelões citar nas suas canções Ulisses e Penélope, Ariana e Teseu.

Os vitrais têm sido chamados “a Bíblia dos iletrados”, porque neles os mais ignorantes decifravam sem esforço histórias que lhes eram familiares.

Realizavam assim, com toda a simplicidade, esse trabalho de interpretação que tanta canseira dá aos arqueólogos na época atual.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Retirado de Contos e Lendas da Era Medieval