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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Comentários Eleison: Cardeal Pie - I

Comentários Eleison – por Dom Williamson
CCCLXIII (363) (28 de junho de 2014):

CARDEAL PIE – I


           O Cardeal Pie (1815-1880) foi um grande homem da Igreja da França do século XIX, um dos grandes defensores da Fé contra esse liberalismo que vem devorando o mundo desde a Revolução Francesa (1789). O Papa São Pio X mantinha suas obras ao lado da cama e as lia constantemente. Não há dúvida de que a profunda compreensão do Cardeal sobre as ideias-chave que dirigem o mundo moderno representou a maior parte daquilo que propiciou a São Pio X conseguir que a destruição da Igreja Católica fosse adiada em 50 anos, precisamente de 1907 a 1958.

            Destruída? Mas a Igreja Católica não pode ser destruída! É verdade, pela proteção de Deus ela durará até o fim do mundo (Mt 28, 20), mas ao mesmo tempo nós sabemos pela Palavra de Deus que naquele mesmo tempo a Fé dificilmente será encontrada na terra (Lc 18, 8), e que será dado às forças do mal o poder de vencer os santos (Ap 13, 7). Estas são duas importantes citações para se ter em mente neste ano de 2014, pois tudo o que há em volta de nós atualmente nos indica que os seguidores de Cristo devem estar preparados para uma aparente derrota depois da outra, como, por exemplo, a queda da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Aqui está o que o Cardeal Pie disse sobre o assunto, há 150 anos!

“Lutemos, com esperança contra a própria esperança, é o que eu quero dizer ao cristãos fracos de coração, escravos da popularidade, adoradores do sucesso e abalados pelo menor avanço do mal. Dado como eles se sentem, queira Deus que sejam poupados das agonias do julgamento final do mundo. Esse juízo está próximo ou ainda muito distante? Ninguém sabe, e eu não ouso dar qualquer palpite. Mas uma coisa é certa, a saber, que quanto mais nos aproximamos do fim do mundo, mais e mais os homens maus se destacam. A Fé dificilmente será encontrada sobre a terra, o que significa que ela quase desaparecerá das instituições terrenas. Os próprios crentes dificilmente ousarão professar sua crença em público ou na sociedade.
           
            A divisão, a separação e o divórcio dos Estados com relação a Deus, que foi para São Paulo um sinal que prenunciaria o fim, avançará dia após dia. A Igreja, enquanto permanecer sempre como uma sociedade visível, será reduzida mais e mais a dimensões do indivíduo e do lar. Quando ela estava no início, dizia que estava confinada, e clamava por mais espaço para respirar; mas à medida que ela se aproxima de seu fim na terra, terá assim de lutar uma ação de retaguarda a cada centímetro do caminho, estando cercada por todos os lados. Por tanto ter se desenvolvido nas épocas anteriores, maiores são os esforços para reduzir o seu tamanho. Finalmente, a Igreja sofrerá o que parece ser uma verdadeira derrota, e à Besta será permitido fazer guerra aos santos e vencê-los. A insolência do mal estará no seu auge”.

            Estas são palavras proféticas, que se tornam mais verdadeiras a cada dia, o que não é nada agradável de se admitir, mas que estão ancoradas nas Escrituras. Um sábio bispo anglicano (Butler) disse no século XVIII: “As coisas são o que são. Suas conseqüências serão o que serão. Por que então nós deveríamos buscar enganarmos a nós mesmos?”. Observe especialmente como o cardeal prevê a impossibilidade de defender a Fé em uma escala maior do que a do lar. Nem todo mundo concorda que nós já tenhamos chegado a esse ponto em 2014. Eu gostaria que elas estivessem certas, mas teria antes de ser persuadido de que com gente desintegrada é possível se fazer uma sociedade integrada. Em contraste conosco, cidadãos democráticos dos dias de hoje, está o centurião romano no Evangelho que compreendia a cadeia de comando e reconheceu naturalmente a autoridade de Nosso Senhor (MT 8, 15-18). Como Deus o elogiou!

            Paciência. Veja na próxima semana como o próprio Cardeal reagiu ao que ele previu. Ele não se deu por vencido!


Kyrie eleison.

Retirado de Borboletas ao Luar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A beleza do Cristianismo

A beleza do Cristianismo
Ele não é apenas belo em si, também é produtor de beleza

O filósofo espanhol Julián Marías, ao comentar sobre as perseguições antigas e presentes ao Cristianismo, afirmou que não se compreende a hostilidade contra algo que é admirável. Assim, o ódio anticristão seria intrinsecamente irracional. Efetivamente, o que há de mais belo neste mundo do que o Cristianismo? Uma Virgem concebe e dá à luz um Menino. Este Menino é o próprio Deus feito homem, andando no mundo e vivendo a vida dos homens, com suas dores e alegrias; o Verbo Criador, sem nada perder de Sua divindade, assume a natureza humana de Sua criatura. «Verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade, aos tristes, a alegria» (Oração Eucarística n. 4).

Filho eterno de Deus Pai, consubstancial com o Pai e o Espírito Santo na mesma e única Essência divina, doou-se totalmente para a salvação da humanidade e reparar o pecado do homem. «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). Este Deus feito homem deixou-se crucificar pelos homens e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, vencendo a morte e nos dando a vida. Após a Ressurreição, apareceu aos discípulos e subiu aos céus, «não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade» (prefácio da Ascensão).

Pois então, existe história mais bonita que esta? Uma história sublime e ao mesmo tempo tão simples, que não encontra emulação em página alguma da literatura humana. Podem convocar todos os críticos literários do mundo, nenhum deles, honestamente, poderá apontar narrativa mais bela que o Evangelho. Nada do que a criatividade humana soube escrever pode ousar comparar-se. Esta é uma das provas da autoria divina dos Evangelhos: aquilo não pode ser obra humana, pois nada do que o homem produziu se lhe compara. Só o mesmo Deus poderia compor história tão bela, capaz de comover os homens de todos os tempos e de todos os lugares. Ademais, as narrativas que o homem criou foram inventadas pela imaginação e produzidas com papel e tinta, enquanto Deus fala nos fatos: antes de ser escrita nos livros, a narrativa evangélica foi representada diante dos homens por personagens de carne e osso, mediante fatos reais.

E se o Evangelho, centro da Sagrada Escritura, resplandece por sua sublime beleza, nem por isso o restante da Sacra Página encontra-se privado de encanto e ornamento. Vejam só a história de Abraão e de Sara, de Isaac e de Rebeca, e de Jacó que «sete anos de pastor serviu Labão, pai de Raquel, serrana bela» (Camões). A história de José, vendido por seus irmãos e depois salvando os mesmos irmãos que o tinham entregue, numa figura do Messias que viria. A singela história de fé de Tobias e a luta heroica dos macabeus. E, no Novo Testamento, a conversão de São Paulo no caminho de Damasco: o perseguidor que se torna o apóstolo dos gentios, pregando o Verbo entre os surdos e os descrentes. Entre tantos outros episódios que poderiam ser citados.

Porém, de fato, o que pode haver de mais belo do que Deus assumindo a nossa própria natureza? «O Verbo se fez carne, e habitou entre nós» (Jo 1,14). Este é o mistério da Encarnação do Verbo Divino; é, em certo sentido, a diferença específica do Cristianismo. Em nenhuma outra religião o Deus único e Criador de todas as coisas assumiu a natureza humana, tornando-se «em tudo à nossa semelhança, exceto no pecado» (cf. Hb 4,15), tomando para si um corpo e uma alma de homem. Ainda não contente, quis esse Deus ser mesmo nosso alimento na Eucaristia, em que Ele está substancialmente presente em Sua divindade e humanidade.

O Cristianismo não é apenas belo em si, como também é produtor de beleza. Por séculos, a verdade cristã inspirou os maiores artistas e promoveu a produção de inúmeras obras artísticas que enriqueceram a civilização não apenas nas letras, como em cada uma das belas artes. Diante dos magníficos tesouros artísticos produzidos e inspirados pelo Cristianismo, o que uma doutrina como o ateísmo teria a oferecer de semelhante? Será que a negação de Deus pode ser suficiente para inspirar um artista a produzir coisas belas?

Rodrigo R. Pedroso
Fonte: Canção Nova