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domingo, 1 de abril de 2012
"Quando Deus é posto de lado, o mundo transforma-se num lugar inóspito", afirma Bento XVI
"Quando Deus é posto de lado, o mundo transforma-se num lugar inóspito", afirma Bento XVI
Santiago de Cuba (Segunda-feira, 26-03-2012, Gaudium Press) "É comovente ver como Deus não só respeita a liberdade humana, mas parece ter necessidade dela". Bento XVI, na festa da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, presidiu ontem, depois de sua chegada, a Missa na Plaza Antonio Maceo, de Santiago de Cuba, repleta de pessoas. A visita "se insere no contexto do Ano Jubilar Mariano proclamado para honrar a Virgem da Caridade do Cobre, Padroeira de Cuba, nos quatrocentos anos da descoberta e presença da sua veneranda imagem nestas terras abençoadas".
O Papa, ao explicar o significado da festa, afirmou que "Deus veio realmente ao mundo, entrou na nossa história, habitou no meio de nós, realizando assim a profunda aspiração do ser humano de que o mundo seja realmente uma casa para o homem. Pelo contrário, quando Deus é posto de lado, o mundo transforma-se num lugar inóspito para o homem, frustrando ao mesmo tempo a verdadeira vocação da criação que é ser o espaço para a aliança, para o «sim» do amor entre Deus e a humanidade que Lhe responde".
Exemplo e modelo do "sim" encontra-se na obediência de Cristo e de Maria à vontade de Deus. "É esta obediência a Deus que abre as portas do mundo à verdade, à salvação". Na Virgem Maria a Igreja também encontra um modelo de como "acolher em si o Mistério de Deus" para realizar a própria missão de "prolongar sobre a terra a presença salvífica de Deus, de abrir o mundo para algo maior do que ele mesmo, ou seja, para o amor e a luz de Deus".
"Encorajo-vos - continuou o Santo Padre - na vossa tarefa de semear no mundo a palavra de Deus e oferecer a todos o verdadeiro alimento que é o corpo de Cristo".
No fim da homilia o Papa reafirmou o valor fundamental da família, que na sociedade cubana enfrenta uma crise.
"O mistério da Encarnação - observou - no qual Deus Se aproxima de nós, mostra-nos também a dignidade incomparável de cada vida humana. Por isso, no seu projeto de amor, desde a criação, Deus confiou à família fundada no matrimonio a sublime missão de ser célula fundamental da sociedade e verdadeira Igreja doméstica".
Bento XVI encorajou os esposos a serem "sinal real e visível do amor de Cristo pela Igreja. Cuba precisa do testemunho da vossa fidelidade, da vossa unidade, da vossa capacidade de acolher a vida humana, especialmente a mais indefesa e necessitada", concluiu o pontífice pedindo aos cubanos um "novo vigor à vossa fé".
"Vivais de Cristo e para Cristo, e luteis com as armas da paz, do perdão e da compreensão para construir uma sociedade aberta e renovada, uma sociedade melhor, mais digna do homem, que manifeste melhor a bondade de Deus", disse o Papa.
Antes de deixar o lugar da celebração o Santo Padre doou à Virgem da Caridade do Cobre uma rosa de ouro. (JSG)
Fonte: Gaudium Press
quinta-feira, 29 de março de 2012
"Abra o coração ao Evangelho", recomenda Papa ao deixar Cuba
"Abra o coração ao Evangelho", recomenda Papa ao deixar Cuba
Bento XVI durante sua visita à Cuba
Havana (Quinta-feira, 29-03-2012, Gaudium Press) "Cuba, reaviva em ti a fé de teus pais! Extrai dela a força para edificar um futuro melhor, confia nas promessas do Senhor, abre o teu coração ao seu Evangelho para renovar autenticamente a vida pessoal e social". Assim, Bento XVI despede-se de Cuba concluindo a sua 23ª viagem apostólica internacional, que o levou à ilha e antes ao México. A viagem que poderá ser chamada de histórica, como a de João Paulo II. As pessoas, tanto no México como em Cuba, receberam o Papa com grande calor.
Bento XVI esteve na ilha como "testemunha de Jesus Cristo" para "lembrar a sua mensagem de salvação, para que fortaleça o entusiasmo e a solicitude dos Bispos cubanos, bem como dos seus sacerdotes, dos religiosos e daqueles que generosamente se preparam para o sacerdócio e a vida consagrada; e sirva de novo impulso também para quantos colaboram, com constância e abnegação, na obra de evangelização".
O Santo Padre esteve três dias em Cuba, onde chegou na segunda-feira passada. Foi à cidade de Santiago de Cuba e à capital Havana. Nas ruas sempre foi recebido por multidões que o acolheram em festa gritando e saudando-o com bandeirinhas.
Antes de partir para Roma, o pontífice ainda reafirmou a mensagem de esperança e amor: "O caminho que Cristo propõe à humanidade - disse - e a cada pessoa e povo, em particular - não a tolhe em nada, antes pelo contrário, é o fator primeiro e principal do seu verdadeiro progresso". O Papa fez votos para os cubanos "fazerem frutificar o melhor da alma cubana, os seus valores mais nobres, sobre os quais é possível fundar uma sociedade de largos horizontes, renovada e reconciliada".
Fez também votos para que "ninguém se veja impedido de tomar parte nesta tarefa apaixonante pela limitação das suas liberdades fundamentais, nem eximido dela por negligência ou carência de recursos materiais".
Na partida do Papa, Havana "chorou": uma forte chuva fez com que a cerimônia de despedida fosse abreviada e realizada no interior do aeroporto.
O Santo Padre partiu com destino a Roma com 30 minutos de atraso. (JSG)
Fonte: Gaudium Press
Bento XVI durante sua visita à Cuba
Havana (Quinta-feira, 29-03-2012, Gaudium Press) "Cuba, reaviva em ti a fé de teus pais! Extrai dela a força para edificar um futuro melhor, confia nas promessas do Senhor, abre o teu coração ao seu Evangelho para renovar autenticamente a vida pessoal e social". Assim, Bento XVI despede-se de Cuba concluindo a sua 23ª viagem apostólica internacional, que o levou à ilha e antes ao México. A viagem que poderá ser chamada de histórica, como a de João Paulo II. As pessoas, tanto no México como em Cuba, receberam o Papa com grande calor.
Bento XVI esteve na ilha como "testemunha de Jesus Cristo" para "lembrar a sua mensagem de salvação, para que fortaleça o entusiasmo e a solicitude dos Bispos cubanos, bem como dos seus sacerdotes, dos religiosos e daqueles que generosamente se preparam para o sacerdócio e a vida consagrada; e sirva de novo impulso também para quantos colaboram, com constância e abnegação, na obra de evangelização".
O Santo Padre esteve três dias em Cuba, onde chegou na segunda-feira passada. Foi à cidade de Santiago de Cuba e à capital Havana. Nas ruas sempre foi recebido por multidões que o acolheram em festa gritando e saudando-o com bandeirinhas.
Antes de partir para Roma, o pontífice ainda reafirmou a mensagem de esperança e amor: "O caminho que Cristo propõe à humanidade - disse - e a cada pessoa e povo, em particular - não a tolhe em nada, antes pelo contrário, é o fator primeiro e principal do seu verdadeiro progresso". O Papa fez votos para os cubanos "fazerem frutificar o melhor da alma cubana, os seus valores mais nobres, sobre os quais é possível fundar uma sociedade de largos horizontes, renovada e reconciliada".
Fez também votos para que "ninguém se veja impedido de tomar parte nesta tarefa apaixonante pela limitação das suas liberdades fundamentais, nem eximido dela por negligência ou carência de recursos materiais".
Na partida do Papa, Havana "chorou": uma forte chuva fez com que a cerimônia de despedida fosse abreviada e realizada no interior do aeroporto.
O Santo Padre partiu com destino a Roma com 30 minutos de atraso. (JSG)
Fonte: Gaudium Press
segunda-feira, 12 de março de 2012
Mensagem do Santo Padre, o Papa Bento XVI, para a Quaresma de 2012
Mensagem do Santo Padre, o Papa Bento XVI, para a Quaresma de 2012
«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras»
(Heb 10, 24)
Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado daCarta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf.Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP XVI
Fonte: Fazei o que Ele Vos Disser
«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras»
(Heb 10, 24)
Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado daCarta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf.Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP XVI
Fonte: Fazei o que Ele Vos Disser
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Papa deixa mensagem aos cristãos para a Quaresma de 2012
Papa deixa mensagem aos cristãos para a Quaresma de 2012
7 02 2012
Mensagem de Sua Santidade o Papa Bento XVI para a Quaresma de 2012
Tema: Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (Hb 10, 24)
Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor.
Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor com um coração sincero, com a plena segurança da fé (v. 22), de conservarmos firmemente a profissão da nossa esperança (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, o amor e as boas obras (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
Prestemos atenção: a responsabilidade pelo irmão. O primeiro elemento é o convite a prestar atenção: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a observar as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a dar-se conta da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a considerar Jesus (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela esfera privada. Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o guarda dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é bom e faz o bem (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de anestesia espiritual, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, passam ao largo do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de prestar atenção, de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de ter misericórdia por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende (Pv 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança dos que choram (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de prestar atenção ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
Uns aos outros: o dom da reciprocidade. O facto de sermos o guarda dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que leva à paz e à edificação mútua (Rm 14, 19), favorecendo o próximo no bem, em ordem à construção da comunidade (Rm 15, 2), sem buscar o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
Para nos estimularmos ao amor e às boas obras: caminhar juntos na santidade. Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia (Pv 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de pôr a render os talentos que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à medida alta da vida cristã (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
Benedictus PP. XVI
Fonte: Dominus Vobiscum
7 02 2012
Mensagem de Sua Santidade o Papa Bento XVI para a Quaresma de 2012
Tema: Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (Hb 10, 24)
Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor.
Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor com um coração sincero, com a plena segurança da fé (v. 22), de conservarmos firmemente a profissão da nossa esperança (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, o amor e as boas obras (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
Prestemos atenção: a responsabilidade pelo irmão. O primeiro elemento é o convite a prestar atenção: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a observar as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a dar-se conta da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a considerar Jesus (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela esfera privada. Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o guarda dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é bom e faz o bem (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de anestesia espiritual, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, passam ao largo do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de prestar atenção, de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de ter misericórdia por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende (Pv 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança dos que choram (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O fato de prestar atenção ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
Uns aos outros: o dom da reciprocidade. O facto de sermos o guarda dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que leva à paz e à edificação mútua (Rm 14, 19), favorecendo o próximo no bem, em ordem à construção da comunidade (Rm 15, 2), sem buscar o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
Para nos estimularmos ao amor e às boas obras: caminhar juntos na santidade. Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia (Pv 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de pôr a render os talentos que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à medida alta da vida cristã (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
Benedictus PP. XVI
Fonte: Dominus Vobiscum
domingo, 5 de fevereiro de 2012
A Igreja
Queridos irmãos e irmãs: ...tentamos compreender o desígnio originário da Igreja querida pelo Senhor para compreender melhor nossa participação, nossa vida cristã, na grande comunhão da Igreja. Até agora, compreendemos que a comunhão eclesial é suscitada e sustentada pelo Espírito Santo, custodiada e promovida pelo ministério apostólico. E esta comunhão, a qual chamamos de Igreja, não se estende só a todos os crentes de um certo momento histórico, mas abraça também os de todos os tempos e de todas as gerações. Portanto, encontramo-nos perante uma dupla universalidade: a universalidade sincrônica - estamos unidos com os crentes em todas as partes do mundo - e a universalidade chamada diacrônica, ou seja, pertencem a nós todos os tempos: os crentes do passado e os crentes do futuro formam conosco uma única e grande comunhão.
O Espírito apresenta-se como a garantia da presença ativa do Mistério no curso da história, assegurando sua realização através dos séculos. Graças ao Paráclito, a experiência do Ressuscitado, feita pela comunidade apostólica nas origens da Igreja, poderá ser vivida sempre pelas gerações sucessivas, na medida em que é transmitida e atualizada na fé, no culto e na comunhão do Povo de Deus, peregrino no tempo. E, deste modo, nós, agora, no tempo pascal, vivemos o encontro com o Ressuscitado não só como algo do passado, mas na comunhão presente da fé, da liturgia, da vida da Igreja. A Tradição apostólica da Igreja consiste nesta transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a atualização permanente da comunhão originária, com a força do Espírito. É chamada deste modo (Tradição apostólica) porque nasceu do testemunho dos apóstolos e da comunidade dos discípulos no tempo das origens, foi entregue sob a guia do Espírito Santo nos escritos do Novo Testamento e na vida sacramental, na vida da fé, e a Igreja faz referência continuamente a ela - a esta Tradição que é a realidade sempre atual do dom de Jesus - como seu fundamento e sua norma através da sucessão sem interrupção do ministério apostólico.
Em sua vida histórica, Jesus limitava sua missão à casa de Israel, mas já dava a entender que o dom estava destinado não só ao povo de Israel, mas a todo o mundo e a todos os tempos. O Ressuscitado confia depois explicitamente aos apóstolos (cf. Lc 6,13) a tarefa de fazer discípulos todas as nações, garantindo sua presença e sua ajuda até o final dos tempos (cf. Mt 28,19ss). A universidade da salvação exige, entre outras coisas, que o memorial da Páscoa seja celebrado sem interrupção na história até o regresso glorioso de Cristo (cf. 1Cor 11,26). Quem atualizará a presença salvífica do Senhor Jesus, mediante o ministério dos apóstolos - chefes do Israel escatológico (cf. Mt 19,28) - e de toda a vida do povo da nova aliança? A resposta está clara: o Espírito Santo. Os Atos dos Apóstolos - continuando com o desígnio do Evangelho de Lucas - apresentam ao vivo a compenetração entre o Espírito, os enviados de Cristo e a comunidade por eles reunida. Graças à ação do Paráclito, os apóstolos e seus sucessores podem realizar no tempo a missão recebida do Ressuscitado: «Vós sois testemunhas disso. Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu...» (Lc 24,48 ss). «Recebereis a força do Espírito Santo, que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra» (At 1,8). E esta promessa, ao início incrível, já se realizou no tempo dos apóstolos: «Nós somos testemunhas destas coisas, e também o Espírito Santo que deu Deus aos que lhe obedecem» (At 5,32).
Portanto, é o próprio Espírito que, por meio da imposição das mãos e da oração dos apóstolos, consagra e envia os novos missionários do Evangelho (p. ex. At 13,3ss; 1Tm 4,14). É interessante observar que, enquanto em algumas passagens diz-se que Paulo estabelece os presbíteros nas Igrejas (cf. At 14,23), em outras se afirma que é o Espírito Santo quem constitui os pastores do rebanho (cf. At 20,28). A ação do Espírito e a de Paulo estão deste modo profundamente compenetradas. Na hora das decisões solenes para a vida da Igreja, o Espírito está presente para guiá-la. Esta presença-guia do Espírito Santo experimenta-se particularmente no Concílio de Jerusalém, em cujas palavras conclusivas ressoa a afirmação: «decidimos o Espírito Santo e nós...» (At 15,28); a Igreja cresce e caminha «no temor do Senhor e estava cheia da consolação do Espírito Santo» (At 9,31). Esta permanente atualização da presença ativa do Senhor Jesus em seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressada na Igreja por meio do ministério apostólico e da comunhão fraterna, é o que em sentido teológico entende-se com o termo Tradição: não é a mera transmissão material do que foi entregue ao início aos apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade reunida por ele.
A Tradição é a comunhão dos fiéis ao redor dos legítimos pastores no transcurso da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta assegurando o nexo entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade originária dos discípulos e a experiência atual de Cristo em sua Igreja. Em outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, edificado sobre o fundamento do Espírito: «Assim, pois, já não sois estranhos nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo a pedra angular o próprio Cristo, em quem toda a edificação bem travada eleva-se até formar um templo santo no Senhor, em quem também vós estais sendo juntamente edificados, até ser morada de Deus no Espírito» (Ef 2,19-22). Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos apóstolos e seus sucessores, a água da vida surgida do lado de Cristo e seu sangue salvador chega às mulheres e aos homens de todos os tempos. Deste modo, a Tradição é a presença permanente do Salvador que nos sai ao encontro, redime-nos e santifica no Espírito por meio do ministério de sua Igreja para glória do Pai.
Concluindo e resumindo, podemos, portanto, dizer que a Tradição não é a transmissão de coisas ou de palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos une às origens, o rio vivo no qual as origens sempre estão presentes. O grande rio que nos leva à porta da eternidade. Neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor, que escutamos ao início dos lábios do leitor: «Eis aqui que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo» (Mt 28,20).
Bento XVI
Fonte: Dom Dirceu Vegini
Deus se fez Filho do Homem, para que o Homem se tornasse Filho de Deus, Mediante o Batismo
Caro leitor, eis a belíssima reflexão do Santo Padre na Oração Mariana do Angelus, encerrando o Tempo litúrgico do Natal. Trata-se da festa litúrgica do Batismo do Senhor, que celebramos hoje no Brasil.
Hoje celebramos a festa do Batismo do Senhor. Gostaria de propor uma breve reflexão sobre nosso ser filhos de Deus. Antes de tudo, partamos do nosso ser simplesmente filhos: esta é a condição fundamental que nos une. Nem todos são pais, mas todos seguramente são filhos. Vir ao mundo não é nunca uma escolha, não nos vem pedido antes de nascer. Mas durante a vida, podemos amadurecer uma atitude livre em relação a própria vida: podemos acolhê-la como um dom e, em um certo sentido, tornar aquilo que já somos: filhos. Esta passagem sinaliza uma etapa de maturidade do nosso ser e no relacionamento com nossos pais, que se enche de reconhecimento. É uma passagem que nos torna também capazes de ser também genitores, não biologicamente, mas moralmente.
Também em relação a Deus somos todos filhos. Deus é a origem da existência de toda criatura e é Pai em modo singular de cada ser humano: tem como ele ou com ela uma relação única, pessoal. Cada de nós é querido, é amado por Deus. E também nesta relação com Deus, por assim dizer, podemos renascer, isto é, nos tornar aquilo que somos, Isto acontece mediante a fé, mediante um sim profundo e pessoal a Deus como origem e fundamento da nossa existência. Com este “sim” eu acolho a vida como dom do Pai que está nos céus, um Pai que não vejo, mas no qual creio e que sinto no profundo do coração ser o Meu Pai e de todos os meus irmãos em humanidade, um Pai imensamente bom e fiel.
Sobre o que se baseia esta fé em Deus Pai? Se baseia em Jesus Cristo: a sua pessoa e a sua história nos revelam o Pai, o fazem conhecer, o quanto é possível deste modo. Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, nos conduz a renascer do alto, isto é, de Deus, que é amor (Jo 3,3). E precisamos ter claro que ninguém se faz homem: nascemos sem o nosso próprio fazer, o passivo de ter nascido precede o ativo do nosso fazer. O mesmo é também se diz do ser cristão: ninguém pode fazer-se cristão somente pela própria vontade, também ser cristão é um dom que precede o nosso fazer: devemos renascer em um novo nascimento. São João diz: A quantos o acolheram deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12). Este é o sentido do Sacramento do Batismo, o Batismo é um novo nascimento, que precede o nosso fazer. Com a nossa fé podemos ir ao encontro de Cristo, mas somente Ele mesmo pode fazer-nos cristãos e dar a esta nossa vontade, a este nosso desejo a resposta, a dignidade, o poder de nos tornarmos filhos de Deus que de nós mesmos não temos.
Caros amigos, este domingo do Batismo do Senhor conclui o Tempo do Natal. Rendamos graças a Deus por esse grande mistério, que é fonte de regeneraçção para a Igreja e para o mundo inteiro. Deus se fez Filho do Homem, para que o homem se tornasse filho de Deus, mediante o Batismo. À Virgem Maria, Mãe de Cristo e de todos aqueles que creem nEle, pedimos que nos ajude a viver realmente como filhos de Deus, não com as palavras, e não somente com as palavras, mas com os fatos. Escreve ainda São João: “Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho Jesus e nos amemos uns aos outros, este é o preceito que Ele nos deu (I Jo 3,23)
Fonte: Dom Dirceu Vegini
Hoje celebramos a festa do Batismo do Senhor. Gostaria de propor uma breve reflexão sobre nosso ser filhos de Deus. Antes de tudo, partamos do nosso ser simplesmente filhos: esta é a condição fundamental que nos une. Nem todos são pais, mas todos seguramente são filhos. Vir ao mundo não é nunca uma escolha, não nos vem pedido antes de nascer. Mas durante a vida, podemos amadurecer uma atitude livre em relação a própria vida: podemos acolhê-la como um dom e, em um certo sentido, tornar aquilo que já somos: filhos. Esta passagem sinaliza uma etapa de maturidade do nosso ser e no relacionamento com nossos pais, que se enche de reconhecimento. É uma passagem que nos torna também capazes de ser também genitores, não biologicamente, mas moralmente.
Também em relação a Deus somos todos filhos. Deus é a origem da existência de toda criatura e é Pai em modo singular de cada ser humano: tem como ele ou com ela uma relação única, pessoal. Cada de nós é querido, é amado por Deus. E também nesta relação com Deus, por assim dizer, podemos renascer, isto é, nos tornar aquilo que somos, Isto acontece mediante a fé, mediante um sim profundo e pessoal a Deus como origem e fundamento da nossa existência. Com este “sim” eu acolho a vida como dom do Pai que está nos céus, um Pai que não vejo, mas no qual creio e que sinto no profundo do coração ser o Meu Pai e de todos os meus irmãos em humanidade, um Pai imensamente bom e fiel.
Sobre o que se baseia esta fé em Deus Pai? Se baseia em Jesus Cristo: a sua pessoa e a sua história nos revelam o Pai, o fazem conhecer, o quanto é possível deste modo. Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, nos conduz a renascer do alto, isto é, de Deus, que é amor (Jo 3,3). E precisamos ter claro que ninguém se faz homem: nascemos sem o nosso próprio fazer, o passivo de ter nascido precede o ativo do nosso fazer. O mesmo é também se diz do ser cristão: ninguém pode fazer-se cristão somente pela própria vontade, também ser cristão é um dom que precede o nosso fazer: devemos renascer em um novo nascimento. São João diz: A quantos o acolheram deu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12). Este é o sentido do Sacramento do Batismo, o Batismo é um novo nascimento, que precede o nosso fazer. Com a nossa fé podemos ir ao encontro de Cristo, mas somente Ele mesmo pode fazer-nos cristãos e dar a esta nossa vontade, a este nosso desejo a resposta, a dignidade, o poder de nos tornarmos filhos de Deus que de nós mesmos não temos.
Caros amigos, este domingo do Batismo do Senhor conclui o Tempo do Natal. Rendamos graças a Deus por esse grande mistério, que é fonte de regeneraçção para a Igreja e para o mundo inteiro. Deus se fez Filho do Homem, para que o homem se tornasse filho de Deus, mediante o Batismo. À Virgem Maria, Mãe de Cristo e de todos aqueles que creem nEle, pedimos que nos ajude a viver realmente como filhos de Deus, não com as palavras, e não somente com as palavras, mas com os fatos. Escreve ainda São João: “Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho Jesus e nos amemos uns aos outros, este é o preceito que Ele nos deu (I Jo 3,23)
Fonte: Dom Dirceu Vegini
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira
Veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira
Caro amigo, transcrevo uma pequena parte da homilia do Santo Padre na Missa da Epifania do Senhor no Vaticano, dia 06/01. Que ela nos ajude na nossa busca sincera pela verdadeira face do Menino nascido em Belém.
A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece connosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).
Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos. Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da Carta aos Efésios exprime, de modo sóbrio e simples, a mesma ideia: os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6). Eis como o formulara o Salmo 2: «Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra para teu domínio» (v. 8).
Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contacto com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho. Os Santos são estrelas de Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o nosso ser anseia. Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo, quando dissestes o vosso «sim» ao sacerdócio e ao ministério episcopal. E certamente brilharam para vós também estrelas menores, que vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos, invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho. Com a Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a ser estrelas de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à verdadeira Luz: Cristo. Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens a luz de Deus. Amén.
Fonte: Coração Inquieto
Caro amigo, transcrevo uma pequena parte da homilia do Santo Padre na Missa da Epifania do Senhor no Vaticano, dia 06/01. Que ela nos ajude na nossa busca sincera pela verdadeira face do Menino nascido em Belém.
A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece connosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).
Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos. Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da Carta aos Efésios exprime, de modo sóbrio e simples, a mesma ideia: os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6). Eis como o formulara o Salmo 2: «Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra para teu domínio» (v. 8).
Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contacto com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho. Os Santos são estrelas de Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o nosso ser anseia. Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo, quando dissestes o vosso «sim» ao sacerdócio e ao ministério episcopal. E certamente brilharam para vós também estrelas menores, que vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos, invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho. Com a Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a ser estrelas de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à verdadeira Luz: Cristo. Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens a luz de Deus. Amén.
Fonte: Coração Inquieto
Um Amor que dá sentido a todas as coisas
Um Amor que dá sentido a todas as coisas
Eis aqui, meu caro Visitante, mais um trecho do discurso de Bento XVI. Vá observando como o Papa toca aspectos muito importantes da experiência cristã, de modo simples, direto e profundo. Note como aos grandes problemas do cristianismo atual, o Santo Padre responde com o mais simples e importante da nossa fé: a experiência existencial do Cristo, a certeza da presença de Deus em Jesus e as exigências decorrentes de uma verdadeira experiência de Deus como amor que se dá todo a nós... Nada de teorias complicadas, de sofisticados “diálogos” com a pós-modernidade que, no fundo, não passam de capitulações covardes e vergonha de professar a fé. A solução está exatamente no sentido contrário: a coragem simples, humilde, quase ingênua, de professar, viver com toda força e proclamar com toda convicção aquilo que vimos e ouvimos desde o princípio!
A pessoa humana não é somente razão e inteligência, ainda que estas sejam elementos seus elementos constitutivos. Traz dentro de si, inscrita no mais profundo do seu ser, a necessidade de amor, de ser amada e, por sua vez, de amar. Por isso se interroga e muitas vezes se desvia diante das durezas da via, do mal que existe no mundo e que aparece tão forte e, ao mesmo tempo, radicalmente tão sem sentido.
Particularmente na nossa época, apesar de todos os progressos conseguidos, o mal não foi realmente vencido. Pelo contrário, o seu poder parece reforçar-se e as tentativas de escondê-lo são logo desmascaradas, como demonstram seja a experiência cotidiana sejam os grandes acontecimentos históricos.
Retorna, portanto, insistente, a pergunta se na nossa vida possa existir um espaço seguro para o amor autêntico e, em última análise, se o mundo seja realmente obra da sabedoria de Deus. Aqui, muito mais que qualquer raciocínio humano, nos ajuda a novidade impressionante da revelação bíblica: o Criador do céu e da terra, o único Deus que é a fonte de todo ser, este único “Logos” criador, esta Razão criadora, sabe amar pessoalmente o homem, mais ainda: ama-o apaixonadamente e deseja ser amado. Esta Razão criadora, que é ao mesmo tempo amor, origina uma história de amor com Israel, o seu povo, e nesta aventura, diante das traições do povo, o seu amor mostra-se rico de inexaurível fidelidade e misericórdia, é o amor que perdoa para além de todo limite.
Em Jesus Cristo tal atitude atinge a sua forma extrema, inaudita e dramática: com efeito, nele Deus se faz um de nós, nosso irmão em humanidade e chega a sacrificar a sua vida por nós. Na morte na cruz – aparentemente o maior mal da história -, cumpre-se, portanto, aquele voltar-se de Deus contra si mesmo no qual ele se doa para erguer o homem e salvá-lo – amor este, na sua forma mais radical, no qual se manifesta o que significa que “Deus é amor” (1Jo 4,8) esse compreende também como se deva definir o amor autêntico.
Fonte: Coração Inquieto
Eis aqui, meu caro Visitante, mais um trecho do discurso de Bento XVI. Vá observando como o Papa toca aspectos muito importantes da experiência cristã, de modo simples, direto e profundo. Note como aos grandes problemas do cristianismo atual, o Santo Padre responde com o mais simples e importante da nossa fé: a experiência existencial do Cristo, a certeza da presença de Deus em Jesus e as exigências decorrentes de uma verdadeira experiência de Deus como amor que se dá todo a nós... Nada de teorias complicadas, de sofisticados “diálogos” com a pós-modernidade que, no fundo, não passam de capitulações covardes e vergonha de professar a fé. A solução está exatamente no sentido contrário: a coragem simples, humilde, quase ingênua, de professar, viver com toda força e proclamar com toda convicção aquilo que vimos e ouvimos desde o princípio!
A pessoa humana não é somente razão e inteligência, ainda que estas sejam elementos seus elementos constitutivos. Traz dentro de si, inscrita no mais profundo do seu ser, a necessidade de amor, de ser amada e, por sua vez, de amar. Por isso se interroga e muitas vezes se desvia diante das durezas da via, do mal que existe no mundo e que aparece tão forte e, ao mesmo tempo, radicalmente tão sem sentido.
Particularmente na nossa época, apesar de todos os progressos conseguidos, o mal não foi realmente vencido. Pelo contrário, o seu poder parece reforçar-se e as tentativas de escondê-lo são logo desmascaradas, como demonstram seja a experiência cotidiana sejam os grandes acontecimentos históricos.
Retorna, portanto, insistente, a pergunta se na nossa vida possa existir um espaço seguro para o amor autêntico e, em última análise, se o mundo seja realmente obra da sabedoria de Deus. Aqui, muito mais que qualquer raciocínio humano, nos ajuda a novidade impressionante da revelação bíblica: o Criador do céu e da terra, o único Deus que é a fonte de todo ser, este único “Logos” criador, esta Razão criadora, sabe amar pessoalmente o homem, mais ainda: ama-o apaixonadamente e deseja ser amado. Esta Razão criadora, que é ao mesmo tempo amor, origina uma história de amor com Israel, o seu povo, e nesta aventura, diante das traições do povo, o seu amor mostra-se rico de inexaurível fidelidade e misericórdia, é o amor que perdoa para além de todo limite.
Em Jesus Cristo tal atitude atinge a sua forma extrema, inaudita e dramática: com efeito, nele Deus se faz um de nós, nosso irmão em humanidade e chega a sacrificar a sua vida por nós. Na morte na cruz – aparentemente o maior mal da história -, cumpre-se, portanto, aquele voltar-se de Deus contra si mesmo no qual ele se doa para erguer o homem e salvá-lo – amor este, na sua forma mais radical, no qual se manifesta o que significa que “Deus é amor” (1Jo 4,8) esse compreende também como se deva definir o amor autêntico.
Fonte: Coração Inquieto
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2012 destaca manifestações promovidas pelas novas gerações, exigindo mudanças no mundo da política, da cultura e da economia.
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2012 destaca manifestações promovidas pelas novas gerações, exigindo mudanças no mundo da política, da cultura e da economia.
Apresentada nesta sexta feira em conferência de imprensa, a mensagem de Bento XVI para o 45.º Dia Mundial da Paz, dedicada em 2012 ao tema ‘Educar os jovens para a justiça e para a paz’.
Bento XVI destaca o papel das novas gerações na tentativa de superar o “sentido de frustração” que se gerou por causa da “crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia”.
“As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança”, assinala o Papa na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2012,
Falando numa crise “cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas”, o documento admite que “quase parece que um manto de escuridão teria descido” sobre os dias de hoje, “impedindo de ver com clareza a luz do dia”.
Após um ano caraterizado por manifestações de rua um pouco por todo o mundo, mas em particular no Médio Oriente e norte de África – que levou a revista norte-americana ‘Time’ a eleger o ‘manifestante’ como personalidade de 2011 – a mensagem papal destaca o esforço de quem procura ter uma “capacidade efetiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia”.
Bento XVI pede jovens “solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos”.
O Papa chama à construção de “uma sociedade de rosto mais humano e solidário”, sublinhando que “não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou coletivo”.
Numa reflexão dividida em seis pontos, a mensagem de Bento XVI destaca que “a liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal”.
“Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade”, alerta Bento XVI.
Segundo o Papa, “o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal”.
“No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intenções, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça”, prossegue, retomando uma reflexão apresentada no Parlamento alemão.
Bento XVI convida a preparar a celebração anual pela paz prestando atenção “ao mundo juvenil”: “Escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade, mas um dever primário de toda a sociedade”.
O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, falou aos jornalistas, acompanhado pelo secretário deste organismo da Cúria Romana, D. Mario Toso.
Desde a sua eleição, em abril de 2005, Bento XVI escolheu como temas para esta celebração anual, a verdade, a dignidade da pessoa, a unidade da família humana, o combate contra a pobreza, o meio ambiente e a liberdade religiosa.
Fonte Rádio Vaticano
Retirado de Comunidade Shalom
Apresentada nesta sexta feira em conferência de imprensa, a mensagem de Bento XVI para o 45.º Dia Mundial da Paz, dedicada em 2012 ao tema ‘Educar os jovens para a justiça e para a paz’.
Bento XVI destaca o papel das novas gerações na tentativa de superar o “sentido de frustração” que se gerou por causa da “crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia”.
“As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança”, assinala o Papa na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2012,
Falando numa crise “cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas”, o documento admite que “quase parece que um manto de escuridão teria descido” sobre os dias de hoje, “impedindo de ver com clareza a luz do dia”.
Após um ano caraterizado por manifestações de rua um pouco por todo o mundo, mas em particular no Médio Oriente e norte de África – que levou a revista norte-americana ‘Time’ a eleger o ‘manifestante’ como personalidade de 2011 – a mensagem papal destaca o esforço de quem procura ter uma “capacidade efetiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia”.
Bento XVI pede jovens “solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos”.
O Papa chama à construção de “uma sociedade de rosto mais humano e solidário”, sublinhando que “não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou coletivo”.
Numa reflexão dividida em seis pontos, a mensagem de Bento XVI destaca que “a liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal”.
“Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade”, alerta Bento XVI.
Segundo o Papa, “o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal”.
“No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intenções, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça”, prossegue, retomando uma reflexão apresentada no Parlamento alemão.
Bento XVI convida a preparar a celebração anual pela paz prestando atenção “ao mundo juvenil”: “Escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade, mas um dever primário de toda a sociedade”.
O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, falou aos jornalistas, acompanhado pelo secretário deste organismo da Cúria Romana, D. Mario Toso.
Desde a sua eleição, em abril de 2005, Bento XVI escolheu como temas para esta celebração anual, a verdade, a dignidade da pessoa, a unidade da família humana, o combate contra a pobreza, o meio ambiente e a liberdade religiosa.
Fonte Rádio Vaticano
Retirado de Comunidade Shalom
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O Papa: A unidade de cristãos é obtida com oração e conversão interior
O Papa: A unidade de cristãos é obtida com oração e conversão interior
VATICANO, 19 Jan. 12 / 08:11 am (ACI/EWTN Noticias) Em sua catequese da manhã de ontem o Papa Bento XVI explicou que a oração e a conversão são o caminho para obter a unidade dos cristãos, no marco da celebração até o 25 de janeiro da Semana de Oração por esta intenção.
Diante de milhares de fiéis presentes no Sala Paulo VI no Vaticano, o Santo Padre recordou que esta celebração é uma iniciativa que se realiza há mais de um século, e na qual participam cristãos de todo o mundo para invocar "o dom extraordinário pelo qual o próprio Senhor Jesus rezou durante o Última Ceia: 'Para que todos sejam um".
A Semana de Oração foi introduzida em 1908 pelo Padre Paul Wattson, fundador de uma comunidade religiosa anglicana que entrou depois na Igreja Católica. O Papa afirmou que, nesta Semana, "o impulso dado pelo Concílio Vaticano II à busca da plena comunhão entre todos os discípulos de Cristo encontra uma de suas expressões mais eficazes".
"Este encontro espiritual, que une cristãos de todas as tradições, aumenta nossa consciência sobre o fato que a unidade que buscamos não poderá acontecer somente por meio de nossos esforços, mas será sim um dom recebido do Alto, algo a se invocar sempre.".
Este ano, os textos para a Semana de Oração foram propostos por um grupo de representantes da Igreja Católica e do Conselho Ecumênico Polonês. Este último sugeriu o tema: "Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo".
A história da Polônia está marcada por invasões e derrotas, pela luta constante contra a opressão e a favor da liberdade; isso induziu ao grupo ecumênico polonês a refletir sobre o verdadeiro significado das palavras "vitória" e "derrota".
"A respeito da "vitória, que em alguns termos significa triunfar, Cristo nos sugere uma estrada bem diferente, que não passa pelo poder e pela força. Ele, de fato, afirma: "Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e servo de todos" (Mc 9,35). Cristo fala de uma vitória por meio do amor sofredor, por meio do serviço recíproco, da ajuda, da nova esperança e da concreta doação aos últimos, aos esquecidos, aos excluídos", afirmou.
"Para todos os cristãos, a mais alta expressão de tal humilde serviço é Jesus Cristo próprio, a doação total que fez de Si mesmo, a vitória do Seu amor sobre a morte, na cruz, que esplende na luz da manhã de Páscoa", disse também o Papa Bento.
O Santo Padre assinalou que "nós podemos fazer parte desta "vitória" nos transformado e nos deixando transformar por Deus, somente se operamos uma conversão de nossa vida e a transformação de si só se realiza por meio da conversão".
Do mesmo modo, "a unidade pela qual rezamos requer uma conversão interior, comum e pessoal. Não se trata simplesmente de cordialidade ou cooperação, é necessário, sobretudo, reforçar a nossa fé em Deus".
É necessário, explicou o Papa, "entrar na nova vida em Cristo, que é a nossa verdadeira e definitiva vitória; é necessário abrir-se uns aos outros, acolhendo todos os elementos de unidade que Deus conservou por nós e sempre de novo nos doa; é necessário sentir a urgência de testemunhar, ao homem do nosso tempo, o Deus vivente, que se fez conhecer em Cristo".
A tarefa ecumênica, tal como sublinham o Concílio Vaticano II e o beato João Paulo II, "é uma responsabilidade de toda Igreja e de todos os batizados, que devem fazer crescer a comunhão parcial já existente entre os cristãos até a plena comunhão na verdade e na caridade.".
Por essa razão, indicou Bento XVI, rezar pela unidade "deve se tornar parte integrante de nossas orações, da vida de oração de todos os cristãos, em todos os lugares e em todos os tempos, sobretudo, quando pessoas de diversas tradições se encontram e louvam juntas pela vitória, em Cristo, sobre tudo aquilo que é pecado, mal, injustiça e violação à dignidade do homem".
O Papa destacou também que "a falta de unidade entre os cristãos impede o anúncio mais eficaz do Evangelho, porque coloca em perigo a nossa credibilidade".
"Como podemos dar um testemunho convincente se estamos divididos?", questionou.
"Certamente, naquilo que resguarda as verdades fundamentais da fé, nos unimos muito mais que nos dividimos. Mas as divisões restantes, e que resguardam também várias questões particulares e éticas, suscitam confusões e diferenças, enfraquecendo nossa capacidade de transmitira a Palavra salvadora de Cristo.".
"O caminho da Igreja, como aquele dos povos, está nas mãos de Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte e sobre a injustiça que Ele carregou e sofreu em nome de todos. Ele nos faz participantes de sua vitória. Somente Ele é capaz de nos transformar de fracos e indecisos para fortes e corajosos ao operar o bem. Somente Ele pode nos salvar das conseqüências negativas das nossas decisões", concluiu o Papa.
Ao final da catequese Bento XVI saudou um grupo de peregrinos lusófonos presentes no Vaticano: "Amados peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente os brasileiros vindos de São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, exortando-vos a perseverar na oração, nesta Semana pela Unidade, para que possa crescer entre os cristãos o testemunho comum, a solidariedade e a colaboração! E que Deus vos abençoe!"
Fonte: Cleofás
VATICANO, 19 Jan. 12 / 08:11 am (ACI/EWTN Noticias) Em sua catequese da manhã de ontem o Papa Bento XVI explicou que a oração e a conversão são o caminho para obter a unidade dos cristãos, no marco da celebração até o 25 de janeiro da Semana de Oração por esta intenção.
Diante de milhares de fiéis presentes no Sala Paulo VI no Vaticano, o Santo Padre recordou que esta celebração é uma iniciativa que se realiza há mais de um século, e na qual participam cristãos de todo o mundo para invocar "o dom extraordinário pelo qual o próprio Senhor Jesus rezou durante o Última Ceia: 'Para que todos sejam um".
A Semana de Oração foi introduzida em 1908 pelo Padre Paul Wattson, fundador de uma comunidade religiosa anglicana que entrou depois na Igreja Católica. O Papa afirmou que, nesta Semana, "o impulso dado pelo Concílio Vaticano II à busca da plena comunhão entre todos os discípulos de Cristo encontra uma de suas expressões mais eficazes".
"Este encontro espiritual, que une cristãos de todas as tradições, aumenta nossa consciência sobre o fato que a unidade que buscamos não poderá acontecer somente por meio de nossos esforços, mas será sim um dom recebido do Alto, algo a se invocar sempre.".
Este ano, os textos para a Semana de Oração foram propostos por um grupo de representantes da Igreja Católica e do Conselho Ecumênico Polonês. Este último sugeriu o tema: "Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo".
A história da Polônia está marcada por invasões e derrotas, pela luta constante contra a opressão e a favor da liberdade; isso induziu ao grupo ecumênico polonês a refletir sobre o verdadeiro significado das palavras "vitória" e "derrota".
"A respeito da "vitória, que em alguns termos significa triunfar, Cristo nos sugere uma estrada bem diferente, que não passa pelo poder e pela força. Ele, de fato, afirma: "Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e servo de todos" (Mc 9,35). Cristo fala de uma vitória por meio do amor sofredor, por meio do serviço recíproco, da ajuda, da nova esperança e da concreta doação aos últimos, aos esquecidos, aos excluídos", afirmou.
"Para todos os cristãos, a mais alta expressão de tal humilde serviço é Jesus Cristo próprio, a doação total que fez de Si mesmo, a vitória do Seu amor sobre a morte, na cruz, que esplende na luz da manhã de Páscoa", disse também o Papa Bento.
O Santo Padre assinalou que "nós podemos fazer parte desta "vitória" nos transformado e nos deixando transformar por Deus, somente se operamos uma conversão de nossa vida e a transformação de si só se realiza por meio da conversão".
Do mesmo modo, "a unidade pela qual rezamos requer uma conversão interior, comum e pessoal. Não se trata simplesmente de cordialidade ou cooperação, é necessário, sobretudo, reforçar a nossa fé em Deus".
É necessário, explicou o Papa, "entrar na nova vida em Cristo, que é a nossa verdadeira e definitiva vitória; é necessário abrir-se uns aos outros, acolhendo todos os elementos de unidade que Deus conservou por nós e sempre de novo nos doa; é necessário sentir a urgência de testemunhar, ao homem do nosso tempo, o Deus vivente, que se fez conhecer em Cristo".
A tarefa ecumênica, tal como sublinham o Concílio Vaticano II e o beato João Paulo II, "é uma responsabilidade de toda Igreja e de todos os batizados, que devem fazer crescer a comunhão parcial já existente entre os cristãos até a plena comunhão na verdade e na caridade.".
Por essa razão, indicou Bento XVI, rezar pela unidade "deve se tornar parte integrante de nossas orações, da vida de oração de todos os cristãos, em todos os lugares e em todos os tempos, sobretudo, quando pessoas de diversas tradições se encontram e louvam juntas pela vitória, em Cristo, sobre tudo aquilo que é pecado, mal, injustiça e violação à dignidade do homem".
O Papa destacou também que "a falta de unidade entre os cristãos impede o anúncio mais eficaz do Evangelho, porque coloca em perigo a nossa credibilidade".
"Como podemos dar um testemunho convincente se estamos divididos?", questionou.
"Certamente, naquilo que resguarda as verdades fundamentais da fé, nos unimos muito mais que nos dividimos. Mas as divisões restantes, e que resguardam também várias questões particulares e éticas, suscitam confusões e diferenças, enfraquecendo nossa capacidade de transmitira a Palavra salvadora de Cristo.".
"O caminho da Igreja, como aquele dos povos, está nas mãos de Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte e sobre a injustiça que Ele carregou e sofreu em nome de todos. Ele nos faz participantes de sua vitória. Somente Ele é capaz de nos transformar de fracos e indecisos para fortes e corajosos ao operar o bem. Somente Ele pode nos salvar das conseqüências negativas das nossas decisões", concluiu o Papa.
Ao final da catequese Bento XVI saudou um grupo de peregrinos lusófonos presentes no Vaticano: "Amados peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente os brasileiros vindos de São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, exortando-vos a perseverar na oração, nesta Semana pela Unidade, para que possa crescer entre os cristãos o testemunho comum, a solidariedade e a colaboração! E que Deus vos abençoe!"
Fonte: Cleofás
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Discurso do Papa aos administradores públicos 12/01/2012
Discurso
Encontro com administradores públicos da Região Lazio, Itália
Palácio Apostólico - Vaticano
Segunda, 12 de janeiro de 2012
Ilustres Senhores e Senhoras!
Mais uma vez tenho a alegria de encontrar-vos no início do ano novo para a tradicional troca de saudações. Agradeço à senhora Renata Polverini, presidente da Junta Regional Lazio, ao senhor Giovanni Alemanno, prefeito de Roma, e ao Senhor Nicola Zingaretti, Presidente da Provincia de Roma, pelas corteses palavras que me foram dirigidas em nome de todos. Desejo exprimir a todos vós férvidos votos pelo novo ano, que estendo à população de Roma e região, particularmente próxima ao meu ministério como bispo de Roma.
Há alguns anos que. também na região Lazio se sentem os efeitos da crise econômica e financeira que atingiu varias áreas do mundo e que, como tive a possibilidade de recordar, tem as suas raízes mais profundas em uma crise ética. A etimologia da palavra “crise” está ligada à dimensão do separar, e em sentido lato, de levar em consideração, julgar. A crise atual, então, pode ser também uma ocasião para a comunidade civil verificar se os valores colocados como fundamento do viver social têm gerado uma sociedade mais justa e solidária ou se ao contrário, caso isso não aconteça, faz-se necessária uma averiguação para recuperar valores que estão na base de uma verdadeira renovação da sociedade e que favorecem uma recuperação não somente econômica, mas também atenta a promover o bem integral da pessoa humana.
Neste contexto, a comunidade cristã está empenhada em uma constante obra educativa, em particular voltada para as novas gerações, a fim que os valores que por séculos fizeram de Roma e do território que a circunda uma luz para o mundo, possam ser assumidos, em modo renovado, em fundamento de um futuro melhor para todos.
É importante que amadureça um renovado humanismo no qual a identidade do ser humano seja compreendida com a categoria de pessoa. A crise atual, de fato, tem nas suas raízes o individualismo, que obscura a dimensão relacional do homem e o conduz a fechar-se no seu pequeno mundo satisfazendo antes de tudo as próprias necessidades e desejos, preocupando-se pouco com os outros. A inserção sempre mais difícil no mundo do trabalho para os jovens, a solidão de tantos idosos, o anonimato que caracteriza frequentemente a vida nos bairros das cidade e o olhar superficial sobre situações de marginalização e de pobreza, não são talvez consequência desta mentalidade? A fé nos diz que o homem é um ser chamado a viver relacionando-se, e que o 'eu' pode encontrar si mesmo a partir do 'tu' que o aceita e o ama. E este 'Tu' é antes de tudo, Deus, o único capaz de dar ao homem uma acolhida incondicional e um amor infinito, e são os outros, a iniciar pelos mais próximos. Redescobrir esta relação como elemento constituinte da própria existência é o primeiro passo para dar vida a uma sociedade mais humana. E é o papel também das Instituições favorecer o crescimento da consciência de fazer parte de uma única realidade, na qual, cada um, em semelhança ao corpo humano, é importante para o todo, como recordou Menenio Agrippa, no célebre apólogo trazido por Tito Livio na sua história de Roma (cfr Ab Urbe Condita, II, 32).
A consciência de ser um corpo, poderá crescer se se consolidar o valor da acolhida, já profundamente enraizado no coração dos habitantes de Roma e do Lazio. Tivemos prova disso nos dias de Beatificação de João Paulo II: milhares de peregrinos reunidos aqui puderam viver dias serenos e de fraternidade, graças à vossa preciosa colaboração. A Caritas diocesana e as as comunidades cristãs não medem esforços nestes momentos de acolhida, em particular em relação àqueles que , provenientes de países onde a pobreza é causa de morte, ou que fugiram destes para tutelar a própria segurança, chegam às nossas cidades e batem as portas das paróquias. É necessário, todavia, incentivar percursos de plena integração, que consentem a inserção no tecido social, a fim que, eles possam oferecer a todos a riqueza da qual são portadores. Em tal modo, cada um aprenderá a tratar o lugar onde reside como a “casa comum” no qual habitar e do qual cuidar, no atento e necessário respeito das leis que regulam o viver coletivo.
Junto à acolhida, deve reforçar-se o valor da solidariedade. É uma exigência de caridade e justiça que nos momentos difíceis, aqueles que tem maior disponibilidade cuidem de quem vive em condições difíceis. Às instituições, cabe a tarefa de mostrar atenção e apoio àquelas realidades das quais depende o bem da sociedade. Em relação a isto, um apoio especial deve ser assegurado às famílias, em particular àquelas numerosas, que geralmente se encontram em dificuldade, sobretudo em relação à falta ou a insuficiência de trabalho. Vos encorajo a defender a família fundada sobre o matrimônio como célula essencial da sociedade e a fazer todo esforço para que em todos os núcleos familiares sejam garantidas as condições necessárias para uma vida digna. Uma sociedade solidária deve sempre ter no coração o futuro das novas gerações, predispondo adequadas políticas que garantam moradia a custo baixo e que façam todo o possível para assegurar uma atividade lavorativa. Todo isto é importante para evitar o risco que os jovens caiam vitimas da organizações ilegais, que oferecem lucro fácil e não respeitam o valor da pessoa humana.
Ao mesmo tempo, é necessário promover uma cultura da legalidade, ajudando os cidadãos a compreender que as leis servem para canalizar os tantos impulsos presentes na sociedade e assim permitir a promoção do bem comum. Também os recentes episódios de violência no território levam a continuar no empenho para educar ao respeito da legalidade e para tutelar a segurança. Às instituições é confiada a tarefa, mais que serem exemplares no respeito das leis, de emanar atitudes justas e éticas, que levem em consideração aquela lei que Deus inscreveu no coração do homem e que pode ser conhecida por todos mediante a razão.
Gentis autoridades, os desafios são múltiplos e complexos. É possível vence-los somente na medida em que se reforçar a consciência que o destino de cada um está ligado ao de todos. E é por isto que quis destacar como a acolhida, a solidariedade e a legalidade sejam valores fundamentais para olhar para o inicio do ano com maior serenidade. Vos asseguro a minha constante oração pelo vosso empenho em favor da coletividade e vos confio à materna intercessão da Virgem Maria. Com estes votos, dirijo a vós a minha Benção Apostólica, que com prazer estendo a todos os habitantes de Roma, da sua Província e de toda a região.
Fonte: Canção Nova
Encontro com administradores públicos da Região Lazio, Itália
Palácio Apostólico - Vaticano
Segunda, 12 de janeiro de 2012
Ilustres Senhores e Senhoras!
Mais uma vez tenho a alegria de encontrar-vos no início do ano novo para a tradicional troca de saudações. Agradeço à senhora Renata Polverini, presidente da Junta Regional Lazio, ao senhor Giovanni Alemanno, prefeito de Roma, e ao Senhor Nicola Zingaretti, Presidente da Provincia de Roma, pelas corteses palavras que me foram dirigidas em nome de todos. Desejo exprimir a todos vós férvidos votos pelo novo ano, que estendo à população de Roma e região, particularmente próxima ao meu ministério como bispo de Roma.
Há alguns anos que. também na região Lazio se sentem os efeitos da crise econômica e financeira que atingiu varias áreas do mundo e que, como tive a possibilidade de recordar, tem as suas raízes mais profundas em uma crise ética. A etimologia da palavra “crise” está ligada à dimensão do separar, e em sentido lato, de levar em consideração, julgar. A crise atual, então, pode ser também uma ocasião para a comunidade civil verificar se os valores colocados como fundamento do viver social têm gerado uma sociedade mais justa e solidária ou se ao contrário, caso isso não aconteça, faz-se necessária uma averiguação para recuperar valores que estão na base de uma verdadeira renovação da sociedade e que favorecem uma recuperação não somente econômica, mas também atenta a promover o bem integral da pessoa humana.
Neste contexto, a comunidade cristã está empenhada em uma constante obra educativa, em particular voltada para as novas gerações, a fim que os valores que por séculos fizeram de Roma e do território que a circunda uma luz para o mundo, possam ser assumidos, em modo renovado, em fundamento de um futuro melhor para todos.
É importante que amadureça um renovado humanismo no qual a identidade do ser humano seja compreendida com a categoria de pessoa. A crise atual, de fato, tem nas suas raízes o individualismo, que obscura a dimensão relacional do homem e o conduz a fechar-se no seu pequeno mundo satisfazendo antes de tudo as próprias necessidades e desejos, preocupando-se pouco com os outros. A inserção sempre mais difícil no mundo do trabalho para os jovens, a solidão de tantos idosos, o anonimato que caracteriza frequentemente a vida nos bairros das cidade e o olhar superficial sobre situações de marginalização e de pobreza, não são talvez consequência desta mentalidade? A fé nos diz que o homem é um ser chamado a viver relacionando-se, e que o 'eu' pode encontrar si mesmo a partir do 'tu' que o aceita e o ama. E este 'Tu' é antes de tudo, Deus, o único capaz de dar ao homem uma acolhida incondicional e um amor infinito, e são os outros, a iniciar pelos mais próximos. Redescobrir esta relação como elemento constituinte da própria existência é o primeiro passo para dar vida a uma sociedade mais humana. E é o papel também das Instituições favorecer o crescimento da consciência de fazer parte de uma única realidade, na qual, cada um, em semelhança ao corpo humano, é importante para o todo, como recordou Menenio Agrippa, no célebre apólogo trazido por Tito Livio na sua história de Roma (cfr Ab Urbe Condita, II, 32).
A consciência de ser um corpo, poderá crescer se se consolidar o valor da acolhida, já profundamente enraizado no coração dos habitantes de Roma e do Lazio. Tivemos prova disso nos dias de Beatificação de João Paulo II: milhares de peregrinos reunidos aqui puderam viver dias serenos e de fraternidade, graças à vossa preciosa colaboração. A Caritas diocesana e as as comunidades cristãs não medem esforços nestes momentos de acolhida, em particular em relação àqueles que , provenientes de países onde a pobreza é causa de morte, ou que fugiram destes para tutelar a própria segurança, chegam às nossas cidades e batem as portas das paróquias. É necessário, todavia, incentivar percursos de plena integração, que consentem a inserção no tecido social, a fim que, eles possam oferecer a todos a riqueza da qual são portadores. Em tal modo, cada um aprenderá a tratar o lugar onde reside como a “casa comum” no qual habitar e do qual cuidar, no atento e necessário respeito das leis que regulam o viver coletivo.
Junto à acolhida, deve reforçar-se o valor da solidariedade. É uma exigência de caridade e justiça que nos momentos difíceis, aqueles que tem maior disponibilidade cuidem de quem vive em condições difíceis. Às instituições, cabe a tarefa de mostrar atenção e apoio àquelas realidades das quais depende o bem da sociedade. Em relação a isto, um apoio especial deve ser assegurado às famílias, em particular àquelas numerosas, que geralmente se encontram em dificuldade, sobretudo em relação à falta ou a insuficiência de trabalho. Vos encorajo a defender a família fundada sobre o matrimônio como célula essencial da sociedade e a fazer todo esforço para que em todos os núcleos familiares sejam garantidas as condições necessárias para uma vida digna. Uma sociedade solidária deve sempre ter no coração o futuro das novas gerações, predispondo adequadas políticas que garantam moradia a custo baixo e que façam todo o possível para assegurar uma atividade lavorativa. Todo isto é importante para evitar o risco que os jovens caiam vitimas da organizações ilegais, que oferecem lucro fácil e não respeitam o valor da pessoa humana.
Ao mesmo tempo, é necessário promover uma cultura da legalidade, ajudando os cidadãos a compreender que as leis servem para canalizar os tantos impulsos presentes na sociedade e assim permitir a promoção do bem comum. Também os recentes episódios de violência no território levam a continuar no empenho para educar ao respeito da legalidade e para tutelar a segurança. Às instituições é confiada a tarefa, mais que serem exemplares no respeito das leis, de emanar atitudes justas e éticas, que levem em consideração aquela lei que Deus inscreveu no coração do homem e que pode ser conhecida por todos mediante a razão.
Gentis autoridades, os desafios são múltiplos e complexos. É possível vence-los somente na medida em que se reforçar a consciência que o destino de cada um está ligado ao de todos. E é por isto que quis destacar como a acolhida, a solidariedade e a legalidade sejam valores fundamentais para olhar para o inicio do ano com maior serenidade. Vos asseguro a minha constante oração pelo vosso empenho em favor da coletividade e vos confio à materna intercessão da Virgem Maria. Com estes votos, dirijo a vós a minha Benção Apostólica, que com prazer estendo a todos os habitantes de Roma, da sua Província e de toda a região.
Fonte: Canção Nova
sábado, 15 de outubro de 2011
Discurso do Papa: "Novos evangelizadores para Nova Evangelização"
Discurso
Aos participantes do Encontro "Novos evangelizadores para a Nova Evangelização – A Palavra de Deus cresce e se difunde"
Sala Paulo VI
Sábado, 15 de outubro de 2011
Senhores Cardeais,
Venerados irmãos no Episcopado,
Queridos amigos!
Acolhi de bom grado o convite do presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização para estar presente com todos vós, esta noite por um breve momento, e sobretudo amanhã, para a Celebração Eucarística. Agradeço a Dom Fisichella pelas palavras de saudação que me dirigiu em vosso nome, e alegro-me por ver-vos assim tão numerosos. Sei que estais aqui representando muitos outros que, como vós, estão envolvidos na difícil tarefa da nova evangelização. Saúdo também a todos aqueles que estão seguindo este evento através dos meios de comunicação que permitem a tantos novos evangelizadores estar conectados simultaneamente, embora espalhados em diferentes partes do mundo.
Tendes escolhido como frase-guia para a vossa reflexão de hoje a expressão: "A Palavra de Deus cresce e se difunde". Várias vezes o evangelista Lucas usa essa fórmula nos Atos dos Apóstolos; em várias circunstâncias, ele afirma, de fato, que "a Palavra de Deus crescia e se difundia" (cf. At 6,7; 12,24). Mas no tema desta jornada vós tendes alterado o tempo dos dois verbos, para destacar um aspecto importante da fé: a certeza consciente de que a Palavra de Deus é sempre viva, em cada momento da história, até os nossos dias, porque a Igreja a atualizada através de sua fiel transmissão, da celebração dos sacramentos e do testemunho dos crentes. Por essa razão, nossa história está em plena continuidade com aquela da primeira Comunidade cristã, vive da mesma seiva de vida.
Mas que terreno encontra a Palavra de Deus? Como no então, também hoje pode encontrar fechamento e rejeição, modos de pensar e de viver que estão longe da busca de Deus e da verdade. O homem moderno está muitas vezes confuso e não consegue encontrar respostas para muitas perguntas que agitam sua mente, em referência ao sentido da vida e às questões que surgem nas profundezas do seu coração. O homem não pode evitar essas questões que tocam o significado de si e da realidade, não pode viver em uma só dimensão! Ao invés disso, muitas vezes, é removida a busca do essencial na vida, enquanto lhe é proposta uma felicidade efêmera, que contenta por um momento, mas deixa, logo depois, tristeza e insatisfação.
No entanto, não obstante esta condição do homem contemporâneo, podemos ainda afirmar com certeza, como no início do Cristianismo, que a Palavra de Deus continua a crescer e a se difundir. Por quê? Gostaria de mencionar pelo menos três razões. A primeira é que o poder da Palavra não depende principalmente de nossa ação, dos nossos meios, do nosso "fazer", mas de Deus, que esconde o seu poder sob os sinais da fraqueza, que se faz presente na brisa suave da manhã (cf. 1 Re 19, 12), que se revela no lenho da Cruz. Devemos sempre acreditar no humilde poder da Palavra de Deus e deixar que Deus aja! O segundo motivo é porque a semente da Palavra, como narra a Parábola evangélica do Semeador, ainda cai em terra boa que a recebe e produz frutos (cf. Mt 13,3-9). E os novos evangelizadores fazem parte desse campo que permite que o Evangelho cresça em abundância e transformar suas vidas e as vidas dos outros. No mundo, mesmo se o mal faça mais barulho, continua a existir a terra boa. A terceira razão é que o anúncio do Evangelho verdadeiramente chegou até os confins do mundo e, mesmo no meio da indiferença, incompreensão e perseguição, muitos continuam, também hoje, com coragem, a abrir o coração e a mente para acolher o convite de Cristo a encontrá-Lo e tornar-se seus discípulos. Não fazem barulho, mas são como a semente de mostarda que se torna uma árvore, o levedo que fermenta a massa, o grão de trigo que se quebra para dar lugar à espiga. Tudo isso, se, por um lado, traz conforto e esperança, porque mostra o incessante fermento missionário que anima a Igreja, por outro, deve preencher a todos de um renovado sentido de responsabilidade com a Palavra de Deus e a difusão do Evangelho.
O Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, que instituí no ano passado, é um instrumento precioso para identificar as grandes questões que se agitam nos diversos setores da sociedade e da cultura contemporânea. Ele é chamado a oferecer um auxílio particular à Igreja na sua missão, sobretudo no interior daqueles países de antiga tradição cristã que parecem tornados indiferentes, se não às vezes hostis à Palavra de Deus. O mundo de hoje precisa de pessoas que anunciem e testemunhem que é Cristo a ensinar-nos a arte de viver, a estrada da verdadeira felicidade, porque é Ele mesmo a estrada da vida; pessoas que tenham antes de tudo elas mesmas o olhar fixo em Jesus, o Filho de Deus: a palavra do anúncio deve ser sempre imersa em um relacionamento intenso com Ele, em uma intensa vida de oração. O mundo de hoje precisa de pessoas que falem com Deus, para poderem falar de Deus. E devemos também recordar sempre que Jesus não redimiu o mundo com belas palavras ou meios vistosos, mas com o seu sofrimento e com a sua morte. A lei do grão de trigo que morre na terra vale também hoje; não podemos dar a vida a outros sem dar a nossa vida: "quem perder a sua vida por mim e pela causa do Evangelho, a salvará", diz-nos o Senhor (Mc 8,35). Vendo a todos vós e conhecendo o grande compromisso que cada um coloca a serviço da missão, estou convencido de que os novos evangelizadores se multiplicarão sempre mais para dar vida a uma verdadeira transformação de que o mundo de hoje tem necessidade. Somente através de homens e mulheres plasmados pela presença de Deus a Palavra de Deus continuará o seu caminho no mundo, produzindo frutos.
Queridos amigos, ser evangelizadores não é um privilégio, mas um compromisso que provém da fé. À pergunta que o Senhor dirige aos cristãos: "Quem enviarei e quem andará por mim?", respondais com a mesma coragem e a mesma confiança do Profeta: "Eis-me aqui, Senhor, envia-me" (Is 6,8). Peço-vos que vos deixeis plasmar pela graça de Deus e correspondais docilmente à ação do Espírito do Ressuscitado. Sejais sinais de esperança, capazes de olhar para o futuro com a certeza que provém do Senhor Jesus, o qual venceu a morte e nos deu a vida eterna. Comuniqueis a todos a alegria da fé com o entusiasmo que provém do serem movidos pelo Espírito Santo, porque Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5), confiando na promessa feita por Jesus à Igreja: "E eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28, 20).
Ao final desta jornada, peçamos também a proteção da Virgem Maria, Estrela da Nova Evangelização, enquanto acompanho de coração a cada um de vós e o vosso empenho com a Bênção Apostólica.
Fonte: Canção Nova
Aos participantes do Encontro "Novos evangelizadores para a Nova Evangelização – A Palavra de Deus cresce e se difunde"
Sala Paulo VI
Sábado, 15 de outubro de 2011
Senhores Cardeais,
Venerados irmãos no Episcopado,
Queridos amigos!
Acolhi de bom grado o convite do presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização para estar presente com todos vós, esta noite por um breve momento, e sobretudo amanhã, para a Celebração Eucarística. Agradeço a Dom Fisichella pelas palavras de saudação que me dirigiu em vosso nome, e alegro-me por ver-vos assim tão numerosos. Sei que estais aqui representando muitos outros que, como vós, estão envolvidos na difícil tarefa da nova evangelização. Saúdo também a todos aqueles que estão seguindo este evento através dos meios de comunicação que permitem a tantos novos evangelizadores estar conectados simultaneamente, embora espalhados em diferentes partes do mundo.
Tendes escolhido como frase-guia para a vossa reflexão de hoje a expressão: "A Palavra de Deus cresce e se difunde". Várias vezes o evangelista Lucas usa essa fórmula nos Atos dos Apóstolos; em várias circunstâncias, ele afirma, de fato, que "a Palavra de Deus crescia e se difundia" (cf. At 6,7; 12,24). Mas no tema desta jornada vós tendes alterado o tempo dos dois verbos, para destacar um aspecto importante da fé: a certeza consciente de que a Palavra de Deus é sempre viva, em cada momento da história, até os nossos dias, porque a Igreja a atualizada através de sua fiel transmissão, da celebração dos sacramentos e do testemunho dos crentes. Por essa razão, nossa história está em plena continuidade com aquela da primeira Comunidade cristã, vive da mesma seiva de vida.
Mas que terreno encontra a Palavra de Deus? Como no então, também hoje pode encontrar fechamento e rejeição, modos de pensar e de viver que estão longe da busca de Deus e da verdade. O homem moderno está muitas vezes confuso e não consegue encontrar respostas para muitas perguntas que agitam sua mente, em referência ao sentido da vida e às questões que surgem nas profundezas do seu coração. O homem não pode evitar essas questões que tocam o significado de si e da realidade, não pode viver em uma só dimensão! Ao invés disso, muitas vezes, é removida a busca do essencial na vida, enquanto lhe é proposta uma felicidade efêmera, que contenta por um momento, mas deixa, logo depois, tristeza e insatisfação.
No entanto, não obstante esta condição do homem contemporâneo, podemos ainda afirmar com certeza, como no início do Cristianismo, que a Palavra de Deus continua a crescer e a se difundir. Por quê? Gostaria de mencionar pelo menos três razões. A primeira é que o poder da Palavra não depende principalmente de nossa ação, dos nossos meios, do nosso "fazer", mas de Deus, que esconde o seu poder sob os sinais da fraqueza, que se faz presente na brisa suave da manhã (cf. 1 Re 19, 12), que se revela no lenho da Cruz. Devemos sempre acreditar no humilde poder da Palavra de Deus e deixar que Deus aja! O segundo motivo é porque a semente da Palavra, como narra a Parábola evangélica do Semeador, ainda cai em terra boa que a recebe e produz frutos (cf. Mt 13,3-9). E os novos evangelizadores fazem parte desse campo que permite que o Evangelho cresça em abundância e transformar suas vidas e as vidas dos outros. No mundo, mesmo se o mal faça mais barulho, continua a existir a terra boa. A terceira razão é que o anúncio do Evangelho verdadeiramente chegou até os confins do mundo e, mesmo no meio da indiferença, incompreensão e perseguição, muitos continuam, também hoje, com coragem, a abrir o coração e a mente para acolher o convite de Cristo a encontrá-Lo e tornar-se seus discípulos. Não fazem barulho, mas são como a semente de mostarda que se torna uma árvore, o levedo que fermenta a massa, o grão de trigo que se quebra para dar lugar à espiga. Tudo isso, se, por um lado, traz conforto e esperança, porque mostra o incessante fermento missionário que anima a Igreja, por outro, deve preencher a todos de um renovado sentido de responsabilidade com a Palavra de Deus e a difusão do Evangelho.
O Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, que instituí no ano passado, é um instrumento precioso para identificar as grandes questões que se agitam nos diversos setores da sociedade e da cultura contemporânea. Ele é chamado a oferecer um auxílio particular à Igreja na sua missão, sobretudo no interior daqueles países de antiga tradição cristã que parecem tornados indiferentes, se não às vezes hostis à Palavra de Deus. O mundo de hoje precisa de pessoas que anunciem e testemunhem que é Cristo a ensinar-nos a arte de viver, a estrada da verdadeira felicidade, porque é Ele mesmo a estrada da vida; pessoas que tenham antes de tudo elas mesmas o olhar fixo em Jesus, o Filho de Deus: a palavra do anúncio deve ser sempre imersa em um relacionamento intenso com Ele, em uma intensa vida de oração. O mundo de hoje precisa de pessoas que falem com Deus, para poderem falar de Deus. E devemos também recordar sempre que Jesus não redimiu o mundo com belas palavras ou meios vistosos, mas com o seu sofrimento e com a sua morte. A lei do grão de trigo que morre na terra vale também hoje; não podemos dar a vida a outros sem dar a nossa vida: "quem perder a sua vida por mim e pela causa do Evangelho, a salvará", diz-nos o Senhor (Mc 8,35). Vendo a todos vós e conhecendo o grande compromisso que cada um coloca a serviço da missão, estou convencido de que os novos evangelizadores se multiplicarão sempre mais para dar vida a uma verdadeira transformação de que o mundo de hoje tem necessidade. Somente através de homens e mulheres plasmados pela presença de Deus a Palavra de Deus continuará o seu caminho no mundo, produzindo frutos.
Queridos amigos, ser evangelizadores não é um privilégio, mas um compromisso que provém da fé. À pergunta que o Senhor dirige aos cristãos: "Quem enviarei e quem andará por mim?", respondais com a mesma coragem e a mesma confiança do Profeta: "Eis-me aqui, Senhor, envia-me" (Is 6,8). Peço-vos que vos deixeis plasmar pela graça de Deus e correspondais docilmente à ação do Espírito do Ressuscitado. Sejais sinais de esperança, capazes de olhar para o futuro com a certeza que provém do Senhor Jesus, o qual venceu a morte e nos deu a vida eterna. Comuniqueis a todos a alegria da fé com o entusiasmo que provém do serem movidos pelo Espírito Santo, porque Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5), confiando na promessa feita por Jesus à Igreja: "E eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28, 20).
Ao final desta jornada, peçamos também a proteção da Virgem Maria, Estrela da Nova Evangelização, enquanto acompanho de coração a cada um de vós e o vosso empenho com a Bênção Apostólica.
Fonte: Canção Nova
Discurso a membros da Fundação Centesimus Annus - Pro Pontifice
Discurso
Aos participantes do Encontro Internacional promovido pela Fundação Centesimus Annus - Pro Pontifice
Sala Clementina
Sábado, 15 de outubro de 2011
Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
estou muito contente em acolher-vos por ocasião do Encontro anual da Fundação Centesimus Annus - Pro Pontifice, no qual vos reunis durante dois dias de estudo sobre o tema da relação entre família e negócios. Agradeço ao presidente, Dr. Domingo Sugranyes Bickel, pelas amáveis palavras que me dirigiu, e saúdo cordialmente a todos vós. Recorre neste ano – como foi observado – o 20º aniversário da Encíclica Centesimus Annus, do Beato João Paulo II, publicada 100 anos após a Rerum Novarum, bem como o 30º da Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Tal dúplice celebração torna ainda mais atual e oportuno o vosso tema. Nestes 120 anos de desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja aconteceram no mundo grandes mudanças, que não eram sequer imagináveis no momento da histórica encíclica do Papa Leão XIII. No entanto, ao mudarem as condições externas, não se alterou o patrimônio interno do Magistério social, que sempre promove a pessoa humana e a família, no seu contexto de vida, também de negócios.
O Concílio Vaticano II falou da família em termos de Igreja doméstica, de "santuário intocável", onde a pessoa amadurece nos afetos, na solidariedade, na espiritualidade. Também a economia, com as suas leis, deve sempre considerar o interesse e a proteção de tal célula primária da sociedade; a própria palavra "economia" em sua origem etimológica contém uma referência à importância da família: oikia e nomos, a lei da casa.
Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Beato João Paulo II indicou para a instituição familiar quatro tarefas que gostaria de recordar brevemente: a formação de uma comunidade de pessoas; o serviço à vida; a participação social e a participação eclesial.São todas funções em cuja base está o amor, e é a isso que educa e forma a família. "O amor – afirma o venerado Pontífice – entre o homem e a mulher no matrimônio e, de forma derivada e ampliada, o amor entre membros da mesma família – entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, parentes e familiares – é animado e impelido por um interior e incessante dinamismo, que conduz a família a uma comunhão sempre mais profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e familiar" (n. 18). Da mesma forma, o amor está na base do serviço à vida, fundado na cooperação que a família dá à continuidade da criação, à procriação do homem feito à imagem e semelhança de Deus.
E é principalmente na família que se aprende como a atitude certa a se viver em sociedade, também no mundo do trabalho, economia, negócios, deve ser guiada pela caritas, na lógica da gratuidade, da solidariedade e da responsabilidade de uns pelos outros. "As relações entre os membros da comunidade familiar – escreve ainda o Beato João Paulo II – são inspiradas e guiadas pela lei da gratuidade que, respeitando e favorecendo em todos e em cada um a dignidade pessoal como único título de valor, torna-se acolhida cordial, encontro e diálogo, disponibilidade desinteressada, serviço generoso, solidariedade profunda" (n. 43). Nessa perspectiva, a família, de mero objeto, torna-se sujeito ativo e capaz de recordar o "rosto humano" que deve ter o mundo da economia. Se isso vale para a sociedade em geral, assume ainda maior proeminência na comunidade eclesial. Também na evangelização, na verdade, a família tem um lugar de destaque, como recordei recentemente, em Ancona: não é simplesmente destinatária da ação pastoral, mas é sua protagonista, chamada a tomar parte na evangelização de modo próprio e original, colocando a serviço da Igreja e da sociedade o próprio ser e o próprio agir, como íntima comunidade de vida e amor (cf. Exort. ap. Familiaris Consortio, n. 50). Família e trabalho são lugares privilegiados para a realização da vocação do homem, que colabora na obra criadora de Deus no presente.
Como tendes observado nos vossos trabalhos, na difícil situação que estamos experimentando, assistimos, infelizmente, a uma crise do trabalho e da economia, que se acompanha por uma crise familiar: conflitos de cônjuges, de gerações, aqueles entre o tempo para a família e para o trabalho, a crise de emprego, criam uma situação complexa de mal-estar que afeta o próprio viver social. É preciso, por isso, uma nova síntese harmoniosa entre família e trabalho, ao qual a Doutrina Social da Igreja pode oferecer sua valiosa contribuição. Na Encíclica Caritas in veritate, quis enfatizar como o modelo familiar da lógica do amor, da gratuidade e do dom deve ser alargado a uma dimensão universal. A justiça comutativa – "dar para receber" – e aquela distributiva – "dar por dever" – não são suficientes no viver social. Porque, para haver verdadeira justiça, é necessário adicionar gratuidade e solidariedade. "A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos e, por conseguinte, não pode ser delegada só ao Estado. Se, no passado, era possível pensar que havia necessidade primeiro de procurar a justiça e que a gratuidade intervinha depois como um complemento, hoje é preciso afirmar que, sem a gratuidade, não se consegue sequer realizar a justiça... Neste caso, caridade na verdade significa que é preciso dar forma e organização àquelas iniciativas econômicas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais além da lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo" (n. 38). "O mercado da gratuidade não existe, tal como não se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a política precisam de pessoas abertas ao dom recíproco" (n. 39). Não é missão da Igreja definir os caminhos para enfrentar a crise. No entanto, os cristãos têm o dever de denunciar os males, testemunhar e manter vivos os valores que sustentam a dignidade humana, e promover as formas de solidariedade que favorecem o bem comum, a fim de que a humanidade se torne sempre mais família de Deus.
Queridos amigos, espero que as reflexões que surgiram em vosso encontro vos ajudem a assumir um papel cada vez mais ativo na difusão e aplicação da Doutrina Social da Igreja, sem esquecer que "o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade – caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado" (n. 79). Com esse desejo, enquanto vos confio à intercessão da Virgem Maria, concedo de coração a todos vós e aos vossos queridos uma especial Bênção Apostólica.
Fonte: Canção Nova
Aos participantes do Encontro Internacional promovido pela Fundação Centesimus Annus - Pro Pontifice
Sala Clementina
Sábado, 15 de outubro de 2011
Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
estou muito contente em acolher-vos por ocasião do Encontro anual da Fundação Centesimus Annus - Pro Pontifice, no qual vos reunis durante dois dias de estudo sobre o tema da relação entre família e negócios. Agradeço ao presidente, Dr. Domingo Sugranyes Bickel, pelas amáveis palavras que me dirigiu, e saúdo cordialmente a todos vós. Recorre neste ano – como foi observado – o 20º aniversário da Encíclica Centesimus Annus, do Beato João Paulo II, publicada 100 anos após a Rerum Novarum, bem como o 30º da Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Tal dúplice celebração torna ainda mais atual e oportuno o vosso tema. Nestes 120 anos de desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja aconteceram no mundo grandes mudanças, que não eram sequer imagináveis no momento da histórica encíclica do Papa Leão XIII. No entanto, ao mudarem as condições externas, não se alterou o patrimônio interno do Magistério social, que sempre promove a pessoa humana e a família, no seu contexto de vida, também de negócios.
O Concílio Vaticano II falou da família em termos de Igreja doméstica, de "santuário intocável", onde a pessoa amadurece nos afetos, na solidariedade, na espiritualidade. Também a economia, com as suas leis, deve sempre considerar o interesse e a proteção de tal célula primária da sociedade; a própria palavra "economia" em sua origem etimológica contém uma referência à importância da família: oikia e nomos, a lei da casa.
Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Beato João Paulo II indicou para a instituição familiar quatro tarefas que gostaria de recordar brevemente: a formação de uma comunidade de pessoas; o serviço à vida; a participação social e a participação eclesial.São todas funções em cuja base está o amor, e é a isso que educa e forma a família. "O amor – afirma o venerado Pontífice – entre o homem e a mulher no matrimônio e, de forma derivada e ampliada, o amor entre membros da mesma família – entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, parentes e familiares – é animado e impelido por um interior e incessante dinamismo, que conduz a família a uma comunhão sempre mais profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e familiar" (n. 18). Da mesma forma, o amor está na base do serviço à vida, fundado na cooperação que a família dá à continuidade da criação, à procriação do homem feito à imagem e semelhança de Deus.
E é principalmente na família que se aprende como a atitude certa a se viver em sociedade, também no mundo do trabalho, economia, negócios, deve ser guiada pela caritas, na lógica da gratuidade, da solidariedade e da responsabilidade de uns pelos outros. "As relações entre os membros da comunidade familiar – escreve ainda o Beato João Paulo II – são inspiradas e guiadas pela lei da gratuidade que, respeitando e favorecendo em todos e em cada um a dignidade pessoal como único título de valor, torna-se acolhida cordial, encontro e diálogo, disponibilidade desinteressada, serviço generoso, solidariedade profunda" (n. 43). Nessa perspectiva, a família, de mero objeto, torna-se sujeito ativo e capaz de recordar o "rosto humano" que deve ter o mundo da economia. Se isso vale para a sociedade em geral, assume ainda maior proeminência na comunidade eclesial. Também na evangelização, na verdade, a família tem um lugar de destaque, como recordei recentemente, em Ancona: não é simplesmente destinatária da ação pastoral, mas é sua protagonista, chamada a tomar parte na evangelização de modo próprio e original, colocando a serviço da Igreja e da sociedade o próprio ser e o próprio agir, como íntima comunidade de vida e amor (cf. Exort. ap. Familiaris Consortio, n. 50). Família e trabalho são lugares privilegiados para a realização da vocação do homem, que colabora na obra criadora de Deus no presente.
Como tendes observado nos vossos trabalhos, na difícil situação que estamos experimentando, assistimos, infelizmente, a uma crise do trabalho e da economia, que se acompanha por uma crise familiar: conflitos de cônjuges, de gerações, aqueles entre o tempo para a família e para o trabalho, a crise de emprego, criam uma situação complexa de mal-estar que afeta o próprio viver social. É preciso, por isso, uma nova síntese harmoniosa entre família e trabalho, ao qual a Doutrina Social da Igreja pode oferecer sua valiosa contribuição. Na Encíclica Caritas in veritate, quis enfatizar como o modelo familiar da lógica do amor, da gratuidade e do dom deve ser alargado a uma dimensão universal. A justiça comutativa – "dar para receber" – e aquela distributiva – "dar por dever" – não são suficientes no viver social. Porque, para haver verdadeira justiça, é necessário adicionar gratuidade e solidariedade. "A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos e, por conseguinte, não pode ser delegada só ao Estado. Se, no passado, era possível pensar que havia necessidade primeiro de procurar a justiça e que a gratuidade intervinha depois como um complemento, hoje é preciso afirmar que, sem a gratuidade, não se consegue sequer realizar a justiça... Neste caso, caridade na verdade significa que é preciso dar forma e organização àquelas iniciativas econômicas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais além da lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo" (n. 38). "O mercado da gratuidade não existe, tal como não se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a política precisam de pessoas abertas ao dom recíproco" (n. 39). Não é missão da Igreja definir os caminhos para enfrentar a crise. No entanto, os cristãos têm o dever de denunciar os males, testemunhar e manter vivos os valores que sustentam a dignidade humana, e promover as formas de solidariedade que favorecem o bem comum, a fim de que a humanidade se torne sempre mais família de Deus.
Queridos amigos, espero que as reflexões que surgiram em vosso encontro vos ajudem a assumir um papel cada vez mais ativo na difusão e aplicação da Doutrina Social da Igreja, sem esquecer que "o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade – caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado" (n. 79). Com esse desejo, enquanto vos confio à intercessão da Virgem Maria, concedo de coração a todos vós e aos vossos queridos uma especial Bênção Apostólica.
Fonte: Canção Nova
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Discurso de Bento XVI aos prefeitos da Itália - 14/10/2011
Discurso
Aos prefeitos da Itália
Sala Clementina
Sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Ilustres prefeitos,
estou contente por encontrar-me convosco, particularmente neste ano em que – como foi recordado – recorrem os 150 anos da unidade da Itália, e a todos dirijo a minha saudação deferente e cordial, bem consciente da importância da função das prefeituras na articulação do Estado Italiano. Dirijo uma cordial saudação ao Senhor Ministro do Interior, Roberto Maroni, agradecendo-o pelas corteses expressões que quis dirigir-me, interpretando os sentimentos comuns. Vós sois provenientes das Províncias de toda a Península, onde são inumeráveis os testemunhos da presença do Cristianismo, que, ao longo dos séculos, fecundou a cultura italiana, suscitando uma civilização rica de valores universais. Por todas as partes, de fato, podem-se observar as marcas que a fé cristã imprimiu no costume do povo italiano, dando vida a nobres e enraizadas tradições religiosas e culturais e a um patrimônio artístico único ao mundo.
Portadora de uma mensagem de salvação válida para o homem de todos os tempos, a Igreja católica é bem enraizada e operante, de modo capilar, no território italiano. É uma realidade viva e vivificante, como o fermento de que fala o Evangelho (cf. Mt 13,33); uma presença significativa, caracterizada pela proximidade às pessoas, por acolher as necessidades profundas na lógica da disponibilidade ao serviço. Muitas são as exigências e as expectativas às quais devem corresponder o anúncio do Evangelho e as iniciativas da solidariedade fraterna. Quanto mais urgem as necessidades, tanto mais a presença da Igreja se esforça por ser solícita e rica de frutos. Respeitosa das legítimas autonomias e competências, a Comunidade eclesial considera seu preciso mandato destinar-se ao homem em cada contexto: na vida cultural, do trabalho, dos serviços, do tempo livre. Consciente de que "todos dependem de todos", como escrevia o Beato João Paulo II (Sollicitudo rei socialis, 38), a Igreja deseja construir, juntamente com os outros sujeitos institucionais e as várias realidades territoriais, uma sadia plataforma de virtudes morais sobre as quais edificar uma convivência à medida do homem. Nessa sua missão, a Igreja sabe que pode contar com a colaboração efetiva e cordial dos Prefeitos, que desempenham funções de impulso e coesão social e de garantia dos direitos civis, constituindo um importante ponto de referência para os vários componentes territoriais. A esse respeito, ao salientar com vivo apreço as relações de estreita proximidade e de profícua cooperação que as Prefeituras possuem com as Dioceses e as paróquias, desejo encorajar cada um a prosseguir no caminho desta mútua compreensão no interesse dos cidadãos e do bem comum.
Ilustres Prefeitos, sei que vos esforçais por cumprir o vosso alto e qualificado serviço à Nação com sincera dedicação às Instituições, ao mesmo tempo, com atenção às exigências dos entes locais e às diversas problemáticas comerciais, familiares e pessoais. De fato, a figura do Prefeito é sempre mais percebida na opinião pública como ponto de referência territorial para a solução dos problemas sociais e como instância de mediação e de garantia dos serviços públicos essenciais. Na vossa responsabilidade, a nível provincial, com respeito à ordem e segurança pública, vós sois referências unitárias e principais promotores e garantias do critério de leal colaboração em um sistema pluralista. A esse respeito, não esqueçais que "a administração pública, em qualquer nível, como instrumento do Estado, tem por finalidade servir os cidadãos…. O papel de quem trabalha na administração pública não se deve conceber como algo de impessoal e de burocrático, mas como uma ajuda pressurosa para os cidadãos, desempenhado com espírito de serviço” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 412).
O vosso delicado papel institucional constitui, além disso, quase como uma proteção para as categorias mais débeis, e é ainda mais complexo e agravante nas presentes circunstâncias de incerteza social e econômica. Não desencorajai-vos frente as dificuldades e as incompreensões, mas estejais sempre prontos a tratar as questões a vós confiadas com grande senso de dever e com prudência, não abrindo mão do obséquio pela verdade e da coragem na defesa dos bens supremos. A tal propósito, é-me espontâneo ir com o pensamento à luminosa figura de Santo Ambrósio, vosso celeste patrono, que improvisamente – como sabeis – foi chamado ao Episcopado, devendo abandonar uma brilhante carreira de alto funcionário público; e não era ainda batizado! Esse santo Bispo admirava e amava o Império romano, ao qual tinha servido leal e generosamente até os 35 anos de idade, antes de ser escolhido como Pastor da Igreja Ambrosiana. Tal consideração pela legítima autoridade, cultivada desde a juventude, foi revigorada pela graça do Batismo, ao ponto de amar apaixonadamente a Igreja não somente pela riqueza espiritual de verdade e de vida, mas também na concretude dos seus Organismos e dos homens que a compõe, sobretudo os pobres e os últimos. Ele soube, em certo sentido, transferir para o exercício do ministério pastoral os traços substanciais daquele habitus, que o distinguiu e o levou a ser admirado por muitos enquanto honesto funcionário civil. Por outro lado, tornado Bispo, soube indicar aos responsáveis das Instituições civis aqueles valores cristãos que dão novo vigor e um novo esplendor ao trabalho das pessoas envolvidas nos assuntos públicos.
Santo Ambrósio, no seu comentário ao Evangelho de São Lucas, afirma: "a instituição do poder civil deriva tanto do bem de Deus que aquele que o exerce é ele mesmo ministro de Deus" (In Lc. 4,29). Daqui o porquê de a função civil ser tão eminente e insigne a ponto de se revestir de um caráter quase "sacro"; portanto, requer ser exercida com grande dignidade e com um vivo sentido de responsabilidade. Esse santo Bispo e Doutor da Igreja, animado pelo grande amor e respeito tanto pelas Instituições estatais quanto pelas eclesiais, constitui um extraordinário exemplo de retidão, especialmente a sua lealdade à lei e a firmeza contra as injustiças e as opressões, bem como pela sua parresía, com a qual exortava também os poderosos, e a todos ensinava os princípios da autêntica liberdade e do serviço. Escrevia: "o Apóstolo [Paulo] ensinou-me aquilo que vai além da própria liberdade, que, isto é, é liberdade também o servir. 'Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos' [1Cor 9,19]… Para o sábio, portanto, também o servir é liberdade" (Ep. 7,23-24).
Também vós, enquanto representantes do Estado, no exercício das vossas responsabilidades, sois chamados a unir autoridade e profissionalismo, sobretudo nos momentos de tensão e de contrastes. O testemunho de Santo Ambrósio vos seja de estímulo e encorajamento, a fim de que o vosso trabalho possa estar, a cada dia, a serviço da justiça, da paz, da liberdade e do bem comum.
Deus não deixará de apoiar os vossos esforços, enriquecendo-os de frutos abundantes, para uma sempre mais ampla e capilar difusão da civilização do amor. Com esses desejos, e confirmando-os, invoco sobre todos as bênçãos do Onipotente. Obrigado.
Fonte: Canção Nova
Aos prefeitos da Itália
Sala Clementina
Sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Ilustres prefeitos,
estou contente por encontrar-me convosco, particularmente neste ano em que – como foi recordado – recorrem os 150 anos da unidade da Itália, e a todos dirijo a minha saudação deferente e cordial, bem consciente da importância da função das prefeituras na articulação do Estado Italiano. Dirijo uma cordial saudação ao Senhor Ministro do Interior, Roberto Maroni, agradecendo-o pelas corteses expressões que quis dirigir-me, interpretando os sentimentos comuns. Vós sois provenientes das Províncias de toda a Península, onde são inumeráveis os testemunhos da presença do Cristianismo, que, ao longo dos séculos, fecundou a cultura italiana, suscitando uma civilização rica de valores universais. Por todas as partes, de fato, podem-se observar as marcas que a fé cristã imprimiu no costume do povo italiano, dando vida a nobres e enraizadas tradições religiosas e culturais e a um patrimônio artístico único ao mundo.
Portadora de uma mensagem de salvação válida para o homem de todos os tempos, a Igreja católica é bem enraizada e operante, de modo capilar, no território italiano. É uma realidade viva e vivificante, como o fermento de que fala o Evangelho (cf. Mt 13,33); uma presença significativa, caracterizada pela proximidade às pessoas, por acolher as necessidades profundas na lógica da disponibilidade ao serviço. Muitas são as exigências e as expectativas às quais devem corresponder o anúncio do Evangelho e as iniciativas da solidariedade fraterna. Quanto mais urgem as necessidades, tanto mais a presença da Igreja se esforça por ser solícita e rica de frutos. Respeitosa das legítimas autonomias e competências, a Comunidade eclesial considera seu preciso mandato destinar-se ao homem em cada contexto: na vida cultural, do trabalho, dos serviços, do tempo livre. Consciente de que "todos dependem de todos", como escrevia o Beato João Paulo II (Sollicitudo rei socialis, 38), a Igreja deseja construir, juntamente com os outros sujeitos institucionais e as várias realidades territoriais, uma sadia plataforma de virtudes morais sobre as quais edificar uma convivência à medida do homem. Nessa sua missão, a Igreja sabe que pode contar com a colaboração efetiva e cordial dos Prefeitos, que desempenham funções de impulso e coesão social e de garantia dos direitos civis, constituindo um importante ponto de referência para os vários componentes territoriais. A esse respeito, ao salientar com vivo apreço as relações de estreita proximidade e de profícua cooperação que as Prefeituras possuem com as Dioceses e as paróquias, desejo encorajar cada um a prosseguir no caminho desta mútua compreensão no interesse dos cidadãos e do bem comum.
Ilustres Prefeitos, sei que vos esforçais por cumprir o vosso alto e qualificado serviço à Nação com sincera dedicação às Instituições, ao mesmo tempo, com atenção às exigências dos entes locais e às diversas problemáticas comerciais, familiares e pessoais. De fato, a figura do Prefeito é sempre mais percebida na opinião pública como ponto de referência territorial para a solução dos problemas sociais e como instância de mediação e de garantia dos serviços públicos essenciais. Na vossa responsabilidade, a nível provincial, com respeito à ordem e segurança pública, vós sois referências unitárias e principais promotores e garantias do critério de leal colaboração em um sistema pluralista. A esse respeito, não esqueçais que "a administração pública, em qualquer nível, como instrumento do Estado, tem por finalidade servir os cidadãos…. O papel de quem trabalha na administração pública não se deve conceber como algo de impessoal e de burocrático, mas como uma ajuda pressurosa para os cidadãos, desempenhado com espírito de serviço” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 412).
O vosso delicado papel institucional constitui, além disso, quase como uma proteção para as categorias mais débeis, e é ainda mais complexo e agravante nas presentes circunstâncias de incerteza social e econômica. Não desencorajai-vos frente as dificuldades e as incompreensões, mas estejais sempre prontos a tratar as questões a vós confiadas com grande senso de dever e com prudência, não abrindo mão do obséquio pela verdade e da coragem na defesa dos bens supremos. A tal propósito, é-me espontâneo ir com o pensamento à luminosa figura de Santo Ambrósio, vosso celeste patrono, que improvisamente – como sabeis – foi chamado ao Episcopado, devendo abandonar uma brilhante carreira de alto funcionário público; e não era ainda batizado! Esse santo Bispo admirava e amava o Império romano, ao qual tinha servido leal e generosamente até os 35 anos de idade, antes de ser escolhido como Pastor da Igreja Ambrosiana. Tal consideração pela legítima autoridade, cultivada desde a juventude, foi revigorada pela graça do Batismo, ao ponto de amar apaixonadamente a Igreja não somente pela riqueza espiritual de verdade e de vida, mas também na concretude dos seus Organismos e dos homens que a compõe, sobretudo os pobres e os últimos. Ele soube, em certo sentido, transferir para o exercício do ministério pastoral os traços substanciais daquele habitus, que o distinguiu e o levou a ser admirado por muitos enquanto honesto funcionário civil. Por outro lado, tornado Bispo, soube indicar aos responsáveis das Instituições civis aqueles valores cristãos que dão novo vigor e um novo esplendor ao trabalho das pessoas envolvidas nos assuntos públicos.
Santo Ambrósio, no seu comentário ao Evangelho de São Lucas, afirma: "a instituição do poder civil deriva tanto do bem de Deus que aquele que o exerce é ele mesmo ministro de Deus" (In Lc. 4,29). Daqui o porquê de a função civil ser tão eminente e insigne a ponto de se revestir de um caráter quase "sacro"; portanto, requer ser exercida com grande dignidade e com um vivo sentido de responsabilidade. Esse santo Bispo e Doutor da Igreja, animado pelo grande amor e respeito tanto pelas Instituições estatais quanto pelas eclesiais, constitui um extraordinário exemplo de retidão, especialmente a sua lealdade à lei e a firmeza contra as injustiças e as opressões, bem como pela sua parresía, com a qual exortava também os poderosos, e a todos ensinava os princípios da autêntica liberdade e do serviço. Escrevia: "o Apóstolo [Paulo] ensinou-me aquilo que vai além da própria liberdade, que, isto é, é liberdade também o servir. 'Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos' [1Cor 9,19]… Para o sábio, portanto, também o servir é liberdade" (Ep. 7,23-24).
Também vós, enquanto representantes do Estado, no exercício das vossas responsabilidades, sois chamados a unir autoridade e profissionalismo, sobretudo nos momentos de tensão e de contrastes. O testemunho de Santo Ambrósio vos seja de estímulo e encorajamento, a fim de que o vosso trabalho possa estar, a cada dia, a serviço da justiça, da paz, da liberdade e do bem comum.
Deus não deixará de apoiar os vossos esforços, enriquecendo-os de frutos abundantes, para uma sempre mais ampla e capilar difusão da civilização do amor. Com esses desejos, e confirmando-os, invoco sobre todos as bênçãos do Onipotente. Obrigado.
Fonte: Canção Nova
domingo, 25 de setembro de 2011
Discurso do Papa na Vigília de Oração com os jovens na Alemanha
Discurso de Bento XVI na Vigília de Oração com os jovens em Friburgo
Viagem Apostólica à Alemanha (22-25 de setembro de 2011)
24 de setembro de 2011
Queridos jovens amigos!
Durante todo o dia, pensei com alegria a esta noite, quando poderia estar aqui junto convosco e estar unido a vós na oração. Talvez alguns de vós tenham estado presentes na Jornada Mundial da Juventude, onde pudemos experimentar a singular atmosfera de serenidade, profunda comunhão e íntima alegria que caracteriza uma vigília noturna de oração. Espero que possamos nós também fazer a mesma experiência neste momento: Que o Senhor nos toque e faça de nós testemunhas jubilosas, que rezam juntas e servem de suporte umas às outras não só nesta noite, mas durante toda a nossa vida.
Em todas as igrejas, nas catedrais e nos conventos, em toda a parte onde se reúnem os fiéis para a celebração da Vigília Pascal, a mais santa de todas as noites começa com o acendimento do círio pascal, cuja luz é transmitida a todos os presentes. Uma minúscula chama irradia-se para muitas luzes e ilumina a casa de Deus que estava às escuras. Neste maravilhoso rito litúrgico que imitámos nesta vigília de oração, desvenda-se-nos, através de sinais mais eloquentes do que as palavras, o mistério da nossa fé cristã. Jesus, que diz de Si próprio: «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8, 12), faz brilhar a nossa vida, para ser verdadeiro o que acabámos de ouvir no Evangelho: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 14). Não são os nossos esforços humanos nem o progresso técnico do nosso tempo que trazem a luz a este mundo. Experimentamos sempre de novo que o nosso esforço por uma ordem melhor e mais justa tem os seus limites. O sofrimento dos inocentes e, enfim, a morte de cada homem constituem uma escuridão impenetrável que pode talvez ser momentaneamente iluminada por novas experiências, como a noite o é por um relâmpago; mas, no fim, permanece uma escuridão acabrunhadora.
Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é que vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e vêem já o fulgor dum novo dia .
A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Precisamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis na grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas ações, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.
Queridos amigos, diz o Senhor: «Eu sou a luz do mundo; vós sois a luz do mundo». É uma coisa misteriosa e magnífica que Jesus tenha dito de Si próprio e de cada um de nós a mesma coisa, ou seja, que «somos luz». Se acreditarmos que Ele é o Filho de Deus que curou os doentes e ressuscitou os mortos, antes, que Ele mesmo ressuscitou do sepulcro e está verdadeiramente vivo, então compreenderemos que Ele é a luz, a fonte de todas as luzes deste mundo. Nós, ao contrário, não cessamos de experimentar a falência dos nossos esforços e o erro pessoal, apesar das melhores intenções. Ao que parece, não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise, não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram «portadores de luz», mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, para dizer a verdade, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.
Neste ponto, não devemos calar o fato de que o mal existe. Vemo-lo em tantos lugares deste mundo; mas vemo-lo também – e isto assusta-nos – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com uma certa autodisciplina, talvez isto se possa, em certa medida, controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. Então como pode Cristo dizer que os cristãos – sem ter excluído os cristãos fracos e frequentemente tão tíbios –são a luz do mundo? Compreenderíamos talvez que Ele tivesse gritado: Convertei-vos! Sede a luz do mundo! Mudai a vossa vida, tornai-a clara e resplandecente! Não será caso de ficar maravilhados ao vermos que o Senhor não nos dirige um apelo, mas diz que somos a luz do mundo, que somos luminosos, que resplandecemos na escuridão?
Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada batizado – ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares ações – é santificado por Deus. No batismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efetivamente santo.
Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objeto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingênuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza ações ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à exceção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos ergueste. Não exige ações extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos, porque a sua graça atua em vós.
Queridos amigos, nesta noite em que nos reunimos em oração ao redor do único Senhor, vislumbramos a verdade da palavra de Cristo segundo a qual não pode ficar escondida uma cidade situada no cimo de um monte. Esta assembleia brilha nos vários significados da palavra: quer no clarão de inúmeras luzes, quer no resplendor de tantos jovens que acreditam em Cristo. Uma vela só pode dar luz, se se deixar consumir pela chama; permaneceria inútil, se a sua cera não alimentasse o fogo. Permiti que Cristo arda em vós, ainda que isto possa às vezes implicar sacrifício e renúncia. Não tenhais medo de poder perder alguma coisa, ficando, no fim, por assim dizer de mãos vazias. Tende a coragem de empenhar os vossos talentos e os vossos dotes pelo Reino de Deus e de vos dar a vós mesmos – como a cera da vela –, para que o Senhor ilumine, por vosso meio, a escuridão. Sabei ousar ser santos ardorosos, em cujos olhos e coração brilha o amor de Cristo e que, deste modo, trazem luz ao mundo. Eu confio que vós e muitos outros jovens aqui na Alemanha sejam chamas de esperança, que não ficam escondidas. "Vós sois a luz do mundo". Amém.
Fonte: Canção Nova
Viagem Apostólica à Alemanha (22-25 de setembro de 2011)
24 de setembro de 2011
Queridos jovens amigos!
Durante todo o dia, pensei com alegria a esta noite, quando poderia estar aqui junto convosco e estar unido a vós na oração. Talvez alguns de vós tenham estado presentes na Jornada Mundial da Juventude, onde pudemos experimentar a singular atmosfera de serenidade, profunda comunhão e íntima alegria que caracteriza uma vigília noturna de oração. Espero que possamos nós também fazer a mesma experiência neste momento: Que o Senhor nos toque e faça de nós testemunhas jubilosas, que rezam juntas e servem de suporte umas às outras não só nesta noite, mas durante toda a nossa vida.
Em todas as igrejas, nas catedrais e nos conventos, em toda a parte onde se reúnem os fiéis para a celebração da Vigília Pascal, a mais santa de todas as noites começa com o acendimento do círio pascal, cuja luz é transmitida a todos os presentes. Uma minúscula chama irradia-se para muitas luzes e ilumina a casa de Deus que estava às escuras. Neste maravilhoso rito litúrgico que imitámos nesta vigília de oração, desvenda-se-nos, através de sinais mais eloquentes do que as palavras, o mistério da nossa fé cristã. Jesus, que diz de Si próprio: «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8, 12), faz brilhar a nossa vida, para ser verdadeiro o que acabámos de ouvir no Evangelho: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 14). Não são os nossos esforços humanos nem o progresso técnico do nosso tempo que trazem a luz a este mundo. Experimentamos sempre de novo que o nosso esforço por uma ordem melhor e mais justa tem os seus limites. O sofrimento dos inocentes e, enfim, a morte de cada homem constituem uma escuridão impenetrável que pode talvez ser momentaneamente iluminada por novas experiências, como a noite o é por um relâmpago; mas, no fim, permanece uma escuridão acabrunhadora.
Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é que vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e vêem já o fulgor dum novo dia .
A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Precisamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis na grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas ações, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.
Queridos amigos, diz o Senhor: «Eu sou a luz do mundo; vós sois a luz do mundo». É uma coisa misteriosa e magnífica que Jesus tenha dito de Si próprio e de cada um de nós a mesma coisa, ou seja, que «somos luz». Se acreditarmos que Ele é o Filho de Deus que curou os doentes e ressuscitou os mortos, antes, que Ele mesmo ressuscitou do sepulcro e está verdadeiramente vivo, então compreenderemos que Ele é a luz, a fonte de todas as luzes deste mundo. Nós, ao contrário, não cessamos de experimentar a falência dos nossos esforços e o erro pessoal, apesar das melhores intenções. Ao que parece, não obstante o seu progresso técnico, o mundo onde vivemos, em última análise, não se tem tornado melhor. Existem ainda guerras, terror, fome e doença, pobreza extrema e desalmada repressão. E mesmo aqueles que, na história, se consideraram «portadores de luz», mas sem ter sido iluminados por Cristo que é a única verdadeira luz, para dizer a verdade, não criaram paraíso terrestre algum, antes instauraram ditaduras e sistemas totalitários onde até a mais pequena centelha de humanismo foi sufocada.
Neste ponto, não devemos calar o fato de que o mal existe. Vemo-lo em tantos lugares deste mundo; mas vemo-lo também – e isto assusta-nos – na nossa própria vida. Sim, no nosso próprio coração, existe a inclinação para o mal, o egoísmo, a inveja, a agressividade. Com uma certa autodisciplina, talvez isto se possa, em certa medida, controlar. Caso diverso e mais difícil se passa com formas de mal mais escondido, que podem envolver-nos como um nevoeiro indefinido, tais como a preguiça, a lentidão no querer e no praticar o bem. Repetidamente, ao longo da história, pessoas atentas fizeram notar que o dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios. Então como pode Cristo dizer que os cristãos – sem ter excluído os cristãos fracos e frequentemente tão tíbios –são a luz do mundo? Compreenderíamos talvez que Ele tivesse gritado: Convertei-vos! Sede a luz do mundo! Mudai a vossa vida, tornai-a clara e resplandecente! Não será caso de ficar maravilhados ao vermos que o Senhor não nos dirige um apelo, mas diz que somos a luz do mundo, que somos luminosos, que resplandecemos na escuridão?
Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada batizado – ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares ações – é santificado por Deus. No batismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efetivamente santo.
Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objeto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingênuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza ações ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à exceção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos ergueste. Não exige ações extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos, porque a sua graça atua em vós.
Queridos amigos, nesta noite em que nos reunimos em oração ao redor do único Senhor, vislumbramos a verdade da palavra de Cristo segundo a qual não pode ficar escondida uma cidade situada no cimo de um monte. Esta assembleia brilha nos vários significados da palavra: quer no clarão de inúmeras luzes, quer no resplendor de tantos jovens que acreditam em Cristo. Uma vela só pode dar luz, se se deixar consumir pela chama; permaneceria inútil, se a sua cera não alimentasse o fogo. Permiti que Cristo arda em vós, ainda que isto possa às vezes implicar sacrifício e renúncia. Não tenhais medo de poder perder alguma coisa, ficando, no fim, por assim dizer de mãos vazias. Tende a coragem de empenhar os vossos talentos e os vossos dotes pelo Reino de Deus e de vos dar a vós mesmos – como a cera da vela –, para que o Senhor ilumine, por vosso meio, a escuridão. Sabei ousar ser santos ardorosos, em cujos olhos e coração brilha o amor de Cristo e que, deste modo, trazem luz ao mundo. Eu confio que vós e muitos outros jovens aqui na Alemanha sejam chamas de esperança, que não ficam escondidas. "Vós sois a luz do mundo". Amém.
Fonte: Canção Nova
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