segunda-feira, 23 de junho de 2014

São José Cafasso: Exemplo para os que devem ser exemplo

 Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP - 2014/06/23
Não foi pároco, mas sim formador de párocos. Não fundou institutos religiosos, porque a sua "fundação" foi a escola de vida e de santidade sacerdotal, ilustrada com seu exemplo e ensinamento.
Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP
Dom Bosco tentava descrever aos meninos do Oratório um de seus sonhos, no qual lhe aparecera São Domingos Sao José Cafasso.jpgSávio,1 mostrando-lhe o Paraíso:
- Que belo estava ele! Parecia um... um... Anjo!
O Santo Fundador havia interrogado seu discípulo, já na glória, acerca de sua obra.
- Quanto ao passado - respondeu ele -, muito já foi feito por tua Congregação. Olha aquele número incontável de jovens.
- Sim, parecem bem contentes! - comentou Dom Bosco.
- Todos eles foram salesianos. Portanto, foram salvos por ti ou por teus sacerdotes e clérigos, ou ainda por outros que encaminhaste nas vias de sua vocação.
Grande glória é ter contribuído para a salvação de tantas almas! Entretanto, poderia também contemplar com gáudio a legião dos bem-aventurados da família salesiana um varão, a respeito do qual afirmou São João Bosco: "se fiz algo de bom, o devo a este digno eclesiástico, em cujas mãos depositei todas as deliberações, estudos e ações da minha vida".2
Quem será este? Deixemos que Dom Bosco mesmo no-lo apresente.
Uma amizade que se estreitaria ao longo dos anos
Agitado como um formigueiro encontrava-se o pequeno vilarejo de Murialdo, pertencente a Castelnuovo, no Piemonte: era a festa da Maternidade de Maria, do ano 1827. Enquanto alguns terminavam  a arrumação da igreja e os preparativos para a Santa Missa, outros participavam, na praça, dos entretidos e inocentes jogos comemorativos.
Um rapaz de 16 anos, contudo, permanecia afastado daquela movimentação e atraiu a atenção de um menino do povo, de apenas 12 anos. Pela batina percebia-se ser um seminarista, "pequeno na estatura, olhos cintilantes, ar afável, rosto angelical". 3 Cheio de vivacidade e fascinado por tal figura, o jovenzinho resolveu aproximar-se para fazer-lhe um convite:
- Senhor cura, deseja presenciar algum dos espetáculos de nossa festa? De boa vontade eu o conduzirei aonde o senhor quiser.
Cheio de bondade, o rapaz interessou-se pelos estudos e pela catequese de seu pequeno interlocutor. E como este renovou o convite, respondeu-lhe:
- Meu caro amigo, para os clérigos, os únicos espetáculos que existem são as celebrações na igreja, as quais devem ser sempre atraentes e frequentadas com assiduidade. Estou só esperando que abram as portas da igreja para entrar.
- É verdade - redarguiu o menino, empolgado -, mas há tempo para tudo: para ir à igreja e para divertir-se.
Rindo-se da réplica vivaz, o jovem seminarista treplicou com palavras próprias a consolidar naquela alma infantil a admiração inicial:
- Quem abraça o estado eclesiástico se entrega ao Senhor, e nada do mundo deve interessar-lhe tanto quanto aquilo que possa resultar em maior glória d'Ele e proveito das almas.
Maravilhado, João Bosco - assim se chamava o menino - quis saber o nome daquele homem de Deus, cujas palavras e compostura manifestavam de modo tão claro seu espírito sobrenatural. Soube, então, que seu nome era José Cafasso, seminarista de quem "muito já tinha ouvido falar, como de um espelho de virtude".4
São João Bosco.jpg
Em Castelnuovo iniciou-se uma amizade
que, no decorrer dos anos,só se 
estreitaria
Estava iniciada uma amizade que, no decorrer dos anos, só se estreitaria. Mais tarde, pouco antes de ser ordenado sacerdote e sentindo-se pouco preparado para este passo decisivo, Dom Bosco encontrou no amigo a segurança para não duvidar de seu chamado, como ele mesmo confessa: "não havendo, porém, quem cuidasse diretamente da minha vocação, aconselhei-me com o padre Cafasso, que me recomendou seguir adiante e confiar na sua palavra".5
No entanto, o grande Fundador dos Salesianos não foi o único a se beneficiar dos inspirados conselhos de São José Cafasso. Este, compreendendo bem quanto um clero santo pode fazer nascer uma sociedade santa, dedicou toda a sua vida a formar os que têm a vocação de servir de exemplo: os sacerdotes.
O Colégio Eclesiástico São Francisco de Assis
Nascido em Castelnuovo, em 1811, no seio de uma família católica, aos 14 anos José Cafasso começou o estudo das disciplinas eclesiásticas; e em 1833, tendo tão só 22 anos, obteve dispensa para ser ordenado sacerdote antes da idade canônica. A alegria desse dia a conservou perpetuamente. "Vivo feliz - repetia durante sua vida apostólica - de ser sacerdote; este é o caminho mais seguro para elevar-se muito alto, ao Paraíso, e conduzir para lá muitos outros".6
A sinceridade e radicalidade de sua entrega ao ministério manifestaram-se depois da cerimônia de ordenação, ao prostrar-se aos pés de um Crucifixo dizendo: "Senhor, Vós sois minha herança, minha delícia, a vida de meu coração para sempre. Mas, ó Senhor, não só desejo ser todo vosso, como também fazer-me santo já. Busque o mundo, se quiser, a vaidade, os prazeres e as grandezas terrenas; eu não procuro nem almejo outra coisa senão santificar-me, e seria o mais feliz dos homens se me tornasse logo um grande santo".7
Visando adestrar-se, para dignamente exercer tão alto ministério, passou a frequentar o Colégio Eclesiástico São Francisco de Assis, onde, sob orientação do padre Luís Guala, sacerdotes jovens aprofundavam sua formação antes de assumirem uma responsabilidade pastoral. O aluno logo se tornou mestre e, em pouco tempo, diretor. Lá permaneceu até sua morte, transformando o estabelecimento num foco de renovação espiritual.
Com efeito, afirmou o Papa Bento XVI em uma catequese dedicada ao nosso Santo, aquele não foi apenas um colégio onde os jovens sacerdotes "aprendiam a confessar e a pregar, mas era também uma verdadeira escola de vida sacerdotal, onde os presbíteros se formavam na espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e na teologia moral e pastoral do grande Bispo Santo Afonso Maria de Ligório. [...] Uma feliz expressão de São João Bosco resume o sentido do trabalho educativo realizado naquela comunidade: ‘No colégio aprendia-se a ser sacerdote'".8
Pastores de profundo zelo e rica vida interior
São José Cafasso empenhou-se em formar virtuosos e experimentados presbíteros que soubessem dirigir as almas no confessionário e, especialmente, edificá-las pelo exemplo de sua conduta. "Desgraçado o dia no qual o povo possa dizer: o sacerdote é como eu; nosso pároco, meu confessor é como eu... Pregai, gritai, clamai se quiserdes, todavia mais vale o exemplo do que toda a lógica do mundo".9
"O tipo de sacerdote que Cafasso encontrou no colégio" - acrescenta Bento XVI - "e que ele mesmo contribuiu para fortalecer, sobretudo como Reitor, era o do verdadeiro pastor, com uma rica vida interior e um profundo zelo no cuidado pastoral: fiel à oração, comprometido na pregação, na catequese, dedicado à celebração da Eucaristia e ao ministério da Confissão, segundo o modelo encarnado por São Carlos Borromeu e por São Francisco de Sales".10
Insistia o padre Cafasso que a alma de um sacerdote não pode permanecer indiferente ante o Sacrifício Eucarístico. E aconselhava os sacerdotes a não só celebrarem diariamente sua própria Missa, mas assistirem a uma segunda quando possível.
Inculcava-lhes também a necessidade do exame de consciência e da frequência ao Sacramento da Penitência, dos quais se nutre a vida espiritual. Para melhor estimulá-los à Confissão semanal, fazia-os notar a lição de humildade que assim davam aos fiéis, por verem ajoelhar-se como réu quem há pouco era juiz.
"Não aumentemos seu desgosto duvidando do perdão"
Naquele tempo em que o jansenismo procurava afastar as almas do Paraíso, fazendo-as ver em Deus um tirano e não um Pai, a melhor arma para combater o erro era incutir a confiança na misericórdia e na bondade divina.
Ninguém estava mais convicto destes atributos do Salvador do que São José Cafasso; de maneira suave e segura, sabia infundir em todos esta certeza: "Se ofendemos ao Senhor, não aumentemos desgosto sobre desgosto, duvidando do perdão; se injuriamos sua santidade e justiça, honremos ao menos sua misericórdia; e enquanto o mundo inteiro canta sua bondade, nosso coração seria o único que hesita em tributar-Lhe este louvor?".11
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Vista atual da cidade de Castelnuovo
Para incentivar os padres a serem muito cuidadosos na prática destas virtudes, costumava contar-lhes o fato a seguir. Na véspera de sua execução, um condenado à morte negava-se a receber os auxílios da Igreja. Inquirido sobre as razões desta recusa, o infeliz explicou que, quando era jovem, ouvira um sermão no qual o pregador - comentando o Evangelho sobre a pergunta feita a Cristo se são poucos os homens que se salvam (cf. Lc 13, 23-24) - afirmara que, entre os numerosos fiéis ali presentes, provavelmente apenas dois ou três alcançariam o Céu. Vendo ao seu redor pessoas tão melhores que ele, o pobre homem sentiu-se excluído deste reduzido grupo de predestinados, e por isso se entregara às suas paixões, terminando na cadeia à espera do patíbulo, crendo-se condenado não só pelos homens, como também por Deus.
E se algum aluno objetava que, segundo as palavras de Jesus, a porta do Céu é por demais estreita e o seu caminho muito apertado (cf. Mt 7, 14), o professor lhe respondia com seu característico bom humor: "desde que possamos passar, parece-me suficiente, não há necessidade de caberem dois ao mesmo tempo".12
Virtude que se refletia no seu exterior
A fama de santidade de São José Cafasso cresceu desde a juventude e nunca foi maculada. De temperamento vivaz, soube adquirir inteiro domínio de si, a ponto de manter-se em paz em meio às contradições e tribulações da vida. A tranquilidade era o seu segredo. Não obstante, ria com gosto entre seus alunos e sabia fazer gracejos e ditos inesperados, pois a virtude em nada prejudicara seu espírito alegre, mas o sublimara.
"Se um sacerdote não é casto, de nada vale, nem para si nem para os demais".13 Exprimia assim sua convicção profunda e seu amor à virtude angélica. Nas aulas de Moral, tratava com o maior recato os pecados contra a bela virtude, deixando entrever sua repugnância até em mencioná-los.
Só uma intensa vida de oração e a devoção a Maria Santíssima podiam sustentar vida tão santa. Tinha especial fervor na recitação do Breviário, formulando uma intenção particular em cada hora litúrgica: "em Matinas, as necessidades atuais da Igreja; em Laudes, a conversão de algum pecador; em Prima, o sufrágio de alguma alma do Purgatório; em Tercia, uma grande pureza de intenção; em Sexta, uma profunda humildade; em Noa, a virtude da pureza; nas Vésperas, uma santa morte; e em Completas, a própria libertação das penas do Purgatório".14
"Durante mais de 30 anos de convívio com ele" - escreveu São João Bosco - "não me lembro de tê-lo visto passar um só instante que se pudesse chamar de ocioso. Terminado um trabalho, começava imediatamente outro. Seu único repouso consistia em trocar de ocupação quando se sentia oprimido pela fatiga. Quando, por exemplo, estava cansado de pregar, ia rezar; quando se cansava de escrever, ia visitar os enfermos, confessar nos cárceres ou em qualquer outro lugar".15 Estes eram os incontáveis "repousos" do padre Cafasso...
Tudo isto se refletia em seu exterior. Seu olhar cintilante - pelo qual tanto se sentira atraído o pequeno João Bosco - era eficaz para corrigir e animar aqueles em quem pousava. Apesar de, por uma deformidade na coluna, ter o ombro direito mais elevado que o esquerdo, seu porte era majestoso e imponente, produzindo até uma forte impressão sobrenatural.
Zelo pastoral pelos encarcerados e condenados à morte
São José Cafasso se dedicava ao ministério da Confissão muitas horas ao dia. "Procuravam-no Bispos, sacerdotes, religiosos, leigos eminentes e pessoas simples: a todos ele sabia oferecer o tempo necessário".16
Nenhuma das prisões de Turim deixou de se beneficiar da caridade de Dom Cafasso. Nem a repugnância que experimentava ao entrar nestes estabelecimentos, nem as maldições, blasfêmias e insultos com os quais era por vezes recebido, o afastavam deste meritório apostolado. Quando, em certa ocasião, avançou contra ele um feroz homicida que se encontrava preso, o santo sacerdote o deteve erguendo o Crucifixo e dizendo: "Eu nada valho, mas este merece tudo".17
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"Se um sacerdote não é casto, de nada vale,
nem para si nem para os demais"
São José Cafasso
Aos arrependidos, condenados à morte, sabia infundir a confiança na salvação eterna. Quando um destes lhe perguntou se, com tantos crimes, ainda era possível salvar sua alma, ele respondeu: "Não só possível, mas absolutamente certo. [...] Mesmo se estivesses na antecâmara do inferno e tivesses fora só um fio de cabelo, este me bastaria para livrar-te das garras do demônio e levar-te ao Paraíso".18
Ele acompanhou até o patíbulo 70 condenados à pena capital, depois de os ter confessado e de lhes ter administrado a Eucaristia, pois "nem um só deles morreu impenitente". 19 Pio XII o proclamou, por este motivo, padroeiro dos cárceres italianos.
Quem se humilhar será exaltado
Contava somente 49 anos este varão chamado a servir de exemplo para aqueles que devem servir de exemplo, quando se viu próximo da hora derradeira, sobre a qual, ao fazer o Exercício da Boa Morte, escrevera: "Estando para terminar minha missão sobre a Terra, entrego a Deus a grande vocação com que Ele quis honrar-me".20
Próximo já de render sua alma ao Criador exclamou: "Hei de morrer, mas consola-me o pensamento de que, com minha morte, haverá na Terra um ministro indigno a menos, e outro sacerdote, cheio de zelo e de fervor, virá compensar minha frieza e distração... Desejo e rogo ao Senhor que, quando tenha descido ao sepulcro, faça desaparecer da Terra minha memória; e aceito, como penitência por meus pecados, tudo quanto se diga no mundo contra mim, após o meu falecimento".21
O Divino Juiz não podia atender esta humilde oração... São José Cafasso foi elevado à honra dos altares e hoje permanece como modelo perene para todos os sacerdotes, em especial para os comprometidos na Confissão e na direção espiritual. "Ele não foi pároco como o cura d'Ars" - afirma dele Bento XVI, na já mencionada audiência -, "mas foi sobretudo formador de párocos e sacerdotes diocesanos, aliás de sacerdotes santos, entre os quais São João Bosco. Não fundou, como os outros santos sacerdotes do século XIX do Piemonte, institutos religiosos, porque a sua ‘fundação' foi a ‘escola de vida e de santidade sacerdotal' que realizou, com o exemplo e o ensinamento". (Revista Arautos do Evangelho, Junho/2014, n. 150, p. 34 à 37)

Infância e Juventude de São Tomás de Aquino [1225-1245]


Roccasecca

Data de nascimento: Segundo Jean-Pierre Torrel calcula-se aproximadamente o nascimento de Tomás a partir da data de sua morte. Seu primeiro biógrafo nos informa que ele teria morrido na manhã de 7 de março de 1274, antes de completar 49 anos de idade. O mesmo autor acrescenta em seguida: "Terminando o 49° ano de sua vida, ele começou no 50º o jubileu da glória eterna". Situar-se-ia, pois seu nascimento em 1225. Bernardo Gui, que escreveu alguns anos depois, também assegura que Tomás falecera ao completar 49 anos, quando iniciava seu 50° ano. Em texto pouco anterior, Ptolomeu de Luca faz eco à incerteza: "Faleceu com a idade de 50 anos, mas alguns dizem 48”. Parece haver um acordo, hoje em dia, em torno de 1224/1225, mas outras fontes secundárias não permitem descartar 1226 ou 1227.
Lugar de nascimento: Quanto ao lugar de nascimento de Tomás, se outrora suscitou algumas dificuldades - diversas localidades disputando tal honra -, hoje os historiadores concordam em se referir ao castelo familiar de Roccasecca, na Itália meridional. Então situado no condado de Aquino e no reino das Duas Sicílias, encontra-se nos confins do Lácio e da Campânia, aproximadamente a meio caminho de Roma a Nápoles, a igual distância de Frosinone (ao Norte) e de Cassino (ao Sul), um pouco a leste da estrada do interior (antiga via Latina), que conduz de Roma a Nápoles. Essa situação geográfica está longe de ser insignificante; esteve até na origem de uma dificuldade política real: o domínio da família De Aquino se encontrava no limite dos Estados do papa e do imperador, que disputavam entre outras coisas o poder sobre a abadia de Monte Cassino, bem próxima dali. Tal situação local condenava a família de Tomás a oscilar entre o papa e o imperador, tendo se ressentido duramente do embate.
A Família de Tomás: De origem lombarda, a família aparece na história desde 887, e o castelo de Roccasecca lhe pertence desde o final do século X. Um primeiro ramo da família terá a posse do condado de Aquino até 1137; é dela que Tomás recebe seu patronímico, e não da cidade de Aquino, que não foi seu lugar de nascimento. Um segundo ramo mais tarde se fez herdeiro do condado de Acerra, cujo titular, em 1221, era Tomás I de Aquino, com poderes de vice-rei sobre a parte sul da península itálica. Landolfo, pai de Tomás, não pertencia ao ramo mais poderoso da família, e trazia simplesmente o título de miles. Partidário do imperador Frederico II a partir de 1210, foi Nomeado por ele "justiceiro" da "Terra de Trabalho", sua região, em 1220; com esse título, punha-se sob o jugo do conde de Acerra.
O Pai de Tomás: Não obstante os trabalhos dos especialistas, estamos longe de um perfeito esclarecimento no tocante ao pai de Tomás e à sua família. Para uns, Landolfo teria nascido por volta de 1160/1170, e teria se casado duas vezes; para outros, o mesmo nome recobriria duas personagens diferentes. As indicações das fontes não são unívocas e prestam-se a diversas interpretações, em especial quando se trata de determinar o número de irmãos de nosso santo. Weisheipl, retomando hipótese de Mandonnet, dá por certo que Landolfo se casou duas vezes e teve, com sua primeira mulher - da qual, de resto, nada se sabe -, três filhos: Tiago, Filipe e Adenolfo. Walz Novarina atribuem essa mesma opinião a Scandone, que porém nada disse a respeito e considera esses três nomes os dos irmãos uterinos de Tomás. Já Pelster sugere ver nesses três nomes os dos filhos de Tomás I, conde de Acerra; seriam pois primos mais ou menos distantes de Tomás. Sem condições de decidir definitivamente a respeito, esta última opinião nos parece verossímil.
Mãe de Tomás: É certo, entretanto, que Landolfo esposou em data indeterminada Senhora Teodora, que pertencia ao ramo Rossi da família napolitana dos Caracciolo, 12 e teve com ela pelo menos nove; crianças: quatro meninos e cinco meninas. Aimon, o filho mais velho, assim nomeado sem dúvida em homenagem a seu avô, participou de uma expedição à Terra Santa a mando de Frederico II, mas foi feito prisioneiro por um vassalo do rei de Chipre, Hugo I. Resgatado por intervenção de Gregório IX em 1233, permaneceu fiel ao partido do papa por toda a vida. Renaud, o segundo, inicialmente partidário de Frederico II, passou para o lado do papa quando Inocêndo IV, em 1245, depôs o imperador. Mas este último mandou executá-lo em 1246 por ter conspirado contra ele. A família então o considerava um mártir pela causa da Igreja. Ao que parece, Tomás também pensava assim, pois foi ele que teve em sonho uma visão de sua irmã Marotta, então recentemente falecida, que lhe teria informado do destino póstumo de dois de seus irmãos: Renaud se encontrava no paraíso, enquanto Landolfo estaria no purgatório, o que aliás é tudo que sabemos dele.
Irmãs de Tomás: Em contrapartida, são bem conhecidas as cinco irmãs de Tomás. Marotta, a mais velha, tomou-se superiora do convento Santa Maria de Cápua, e morreu por volta de 1259. A segunda, Teodora, tomou-se esposa de Rogério, conde de São Severino; em sua casa é que Tomás irá repousar algum tempo por ocasião de sua última doença; seu filho, Tomás, que mais tarde trabalhou pela canonização do tio, morreu vestindo o hábito dominicano. A terceira filha, Maria, desposou o mais velho dos São Severino, Guilherme; de sua filha, Catarina de Morra, Tocco obteve muitos detalhes a respeito da família de Tomás, sendo que Catarina, por sua vez, recebeu-os de sua avó, Teodora. A quarta, Adelásia, desposou Rogério de Áquila, do qual Tomás será o executor testamentário, em 1272. Ignora-se o nome da quinta irmã; morreu cedo, atingida pela cólera, enquanto o pequeno Tomás, que dormia ao lado de sua ama, foi poupado.
Oblato em Cassino: Como caçula, Tomás, segundo o costume da época, foi destinado à Igreja. A proximidade de Monte Cassino não permitia alternativa; Landolfo ofereceu seu filho como oblato no mosteiro vizinho, com a provável segunda intenção de que um dia se tomasse abade. A abadia se encontrava então em período de decadência, e constituía-se em presa disputada pelo papa e pelo imperador. No entanto, o tratado de São Germano, assinado entre eles em 23 de julho de 1230, inaugurava um período de relativa paz, e é então, entre essa data e 3 de maio de 1231, que se pode situar o ingresso de Tomás no mosteiro, sob a direção do abade Landolfo Sinibaldi. Essa última data é a de um documento pelo qual Landolfo, pai de Tomás, faz à abadia a generosa doação de 20 onças de ouro "para a remissão de seus pecados". Não é certo, mas é pelo menos verossímil, que essa doação constituísse a esmola a acompanhar a oblatura dos filhos de nobres, a que se refere São Bento em sua Regra (cap. 59). Tomás devia ter então entre 5 e 6 anos e, como o próprio Bento, foi acompanhado ao mosteiro por sua ama. Recebeu evidentemente, rudimentos de letras e uma iniciação à vida religiosa beneditina, cujos traços podem ser encontrados em suas obras. A partir de 1236, porém, a calma de que gozava o mosteiro foi novamente perturbada, e Landolfo, aconselhado pelo novo abade, Etienne de Corbario, teve de pôr seu filho a salvo de agitações facilmente previsíveis. Após refletir, os pais enviaram o adolescente a Nápoles, para ali desenvolver estudos mais aprofundados.
Estudos em Nápoles: Tomás deixou o mosteiro provavelmente na primavera de 1239. Tinha então 14 ou 15 anos, e poderia ter prestado juramento na ordo monasticus, mas nenhum documento menciona tal ato. O que não significa que Tomás não tenha sido monge. Segundo a explicação nuançada de Leccisotti, e por maior que seja a imprecisão jurídica da época, a oblatura tinha valor de um verdadeiro voto, mas condicional e temporário, comparável a nosso voto simples de hoje. Pelo fato de ser também não-pessoal, exigia ratificação do próprio sujeito, em idade adequada, pois ele permanecia livre para efetivar o compromisso assumido por seus pais ou assumir outro.
Tal singularidade explica tanto que o necrológio de Cassino possa mencionar Tomás nestes termos: "primo Casinensis monachus factus", como que esse vínculo tenha sido interrompido sem outra forma de processo no dia em que Tomás ingressou na ordem dos pregadores. O fato de o abade ter "aconselhado" a Landolfo enviar seu filho a Nápoles para ali realizar seus estudos mostra aliás, claramente, que ele não podia ter enviado por conta própria, o que por certo poderia fazer se Tomás já tivesse feito os votos. Mas é muito provável que, em sua chegada a Nápoles, Tomás tenha habitado pelo menos durante algum tempo o mosteiro de São Demétrio, quartel-general dos cassinianos naquela cidade. Ainda mais porque seus pais, provavelmente, ainda não haviam renunciado a seus projetos para ele.
Tomás pôde então se inscrever no jovem studium generale de Nápoles, no outono de 1239. Fundado em 1224 por Frederico II com o intuito de formar homens para o serviço imperial, destinava-se também a se contrapor à Universidade de Bolonha, e os súditos do imperador não eram autorizados a estudar em outro lugar. Ao chegar, Tomás devia começar pelo estudo das artes e da filosofia, passagem obrigatória antes de abordar a teologia.
O meio intelectual: Desde 1225, o conhecimento de Averróis é atestado por um mestre de artes anônimo, e, pouco depois, por Guilherme de Auxerre ou por Roberto Grosseteste, que o à ta diversas vezes em sua obra científica. Pôde, portanto, Tomás familiarizar-se desde cedo com a filosofia natural de Aristóteles e sua meta física numa época em que seu estudo ainda era oficialmente proibido em Paris. Oficialmente apenas, pois a repetição das proibições mostra que não eram respeitadas; assim como o de Averróis, o estudo de, Aristóteles ali já florescia desde 1230. Tocco nos transmitiu o nome de dois prováveis mestres de Tomás: Mestre Martino, que lhe teria ensinado a Gramática e a Lógica, e Mestre Pedro da Irlanda, responsável pelo ensino dasnaturalia. Por muito tempo, só se soube os nomes deles, mas identificaram-se posteriormente certos escritos do segundo, e ele surge um pouco mais tarde na história: por volta de 1250, num grupo de letrados, judeus e cristãos, que se dedicam ao estudo de Maimônides; entre 1258 e 1266, quando decide uma questão disputada em presença do rei Manfredo. Afirmou-se com freqüenta que os escritos de Pedro da Irlanda dão mostras de uma grande admiração por Averróis, e que Tomás teria adquirido desse mestre seu gosto pelo comentário literal de Aristóteles. Na verdade, bem reduzida é a pane do comentário literal Pedro, enquanto a primeira afirmação é totalmente infundada. Desde as primeiras linhas de seu comentário sobre o Peri hermeneias, ele se mostra ciente do erro “averroísta”, e o denuncia claramente como sofística. Como essa interpretação de Averróis só se difunde a partir de 1252, há poucas chances de que se trate de fato do curso seguido pelo jovem Tomás entre 1240 e 1244. Mas, uma vez que são apontadas diversas coincidências, das quais algumas bastante notáveis, entre seu texto e o de Pedro, podemos perguntar se Tomás não teria tido em mãos algum relato do curso deste último – a menos que utilize suas próprias notas de um curso de Pedro anterior à de - núncia de Averróis. Devemos concluir, em todo caso, que nada se sabe de exato sobre esses anos de estudo em Nápoles.
A tomada de hábito dominicano: Foi também em Nápoles que Tomás travou conhecimento com os dominicanos. Um convento da ordem ali fora fundado em 1231, onde Jordão da Saxônia, sucessor de São Domingos, esteve a pregar em 1236 para os estudantes. Em 1239, restam apenas dois religiosos, autorizados a permanecer a serviço de sua Igreja pelo mesmo Frederico II que expulsara de seu reino os religiosos mendicantes. Um deles era João de São Juliano, que esteve na origem da vocação de Tomás, apoiou-o por meio de visitas durante sua detenção, e a quem Bartolomeu de Cápua presta pungente homenagem. O outro é o prior Tomás de Lentini, personagem de resto bastante conhecido, já que se tomou bispo de Belém, legado do papa e patriarca de Jerusalém, sendo porém para nós aquele que concedeu o hábito a Tomás. Este último dado, que se acredita ser atestado somente por Bernardo Gui, é na verdade a retomada da quarta redação de Tocco, e não mais permite sustentar a hipótese de Mandonnet, segundo a qual Tomás teria recebido o hábito das mãos do mestre da ordem, João, o Teutônico. O fato ocorreu provavelmente em abril de 1244, ou pouco antes, como a seqüência dos acontecimentos permite estabelecer.
O Ingresso de Tomás nos pregadores comprometia e definitivamente os planos de seus pais no que dizia respeito a seu futuro abadiado em Monte Cassino. Se ele chegou a pensar que os pais se renderiam facilmente diante do fato, não contava com sua obstinação, em especial com a de sua mãe. Os frades de Nápoles, instruídos por um desagradável precedente (seu convento fora saqueado em 1235, em seguida à tomada de hábito de um jovem nobre, que os seus queriam anular), não tiveram essa ingenuidade e se apressaram em fazê-lo deixar a cidade. Assim, quando Teodora foi a Nápoles na esperança de dissuadi-lo, chegou tarde demais, e pôs-se a persegui-lo até Roma. Também lá chegou tarde. Tomás partira novamente no séquito do Mestre geral, João, o Teutônico, que ia a Bolonha para o capítulo geral da ordem; previsto para a festa de Pentecostes, em 22 de maio de 1244. Teodora enviou um mensageiro a seus filhos que lutavam em companhia de Frederico II, na região de Acquapendente, aproximadamente a noroeste de Orvieto (ao norte de Roma, mas fora dos Estados pontifícios), para que interceptassem o irmão e o trouxessem de volta. Todas as fontes concordam quanto à indicação de Acquapendente, e sabe-se além disso que Frederico II se encontrava na região com seus homens. O fato se situa pois na primeira quinzena de maio, data de referência que permite fixar a tomada de hábito de Tomás algumas semanas antes, em abril.
O rapto de Tomás: Da pequena tropa que procedeu à captura de Tomás, duas pessoas são nomeadas: Renaud, seu próprio irmão, ainda fiel a Frederico II, e Pedro da Vigna, o todo-poderoso conselheiro do imperador. A presença de Pedro permite supor que Frederico II dera seu assentimento à operação, segundo informam as fontes. Acompanhados por uma pequena escolta, não tiveram dificuldade em se apossar do jovem religioso, do qual tentaram em vão arrancar o hábito. Tendo-o posto sobre um cavalo, conduziram-no a Montesangiovanni, um castelo da família ao norte de Roccasecca (ali poderia ter ocorrido o episódio, sobre o qual tanto se especulou da prostituta introduzida junto a ele para tentá-lo), mas aquela era apenas uma etapa, e rapidamente conduziram-no a Roccasecca. Tocco acrescenta que os dominicanos se queixaram junto a Inocêndo IV desse ato de força; o papa teria intervindo junto ao imperador, que teria feito punir os autores; temendo o escândalo, os dominicanos não ousaram processar na justiça a família De Aquino, sabendo, além do mais, que mesmo na prisão Tomás perseverava em seu propósito.
'Preso' em Roccasecca: Em Roccasecca, toda a família se empenhou em fazê-lo mudar de idéia; mas seria um erro imaginá-lo maltratado e relegado a uma cela. Tratava-se mais de uma designação de residência forçada que de um aprisionamento. Tomás podia ir e vir, receber visitas (reiteradamente as de João de São Juliano, em especial, que lhe trouxe um novo hábito para substituir o seu, rasgado), conversar com as irmãs (ele teria então convencido Marotta a se tomar religiosa), e Tocco relata que teria dedicado seu tempo a orar, ler toda a Bíblia (perlegit), e a estudar (didicit), desde essa época, o livro das Sentenças, propiciando a suas irmãs beneficiar-se de sua jovem ciência - signo evidente de sua futura mestria.
Atribui-se a ele, na mesma época -mas é algo menos certo (ut dicitur) -, a compilação de um resumo de lógica para iniciantes, o tractatus fallaciarum. Com efeito, foram conservados dois pequenos tratados, De fallaciis e De propositionibus modalibus, até o início do século XX considerados obras de juventude de Tomás. Hoje reconhece-se sua inautenticidade; sem querer pronunciar-se muito claramente, o Pe. H.-F. Dondaine, seu editor leonino, imprimira-os em caracteres pequenos, para significar a "posição incerta dos dois opúsculos na herança literária de Santo Tomás". Ao retomar a questão alguns anos depois, Pe. Gauthier mostra com abundância de detalhes que não deve restar dúvida alguma: como dependem de vários autores, em particular do tractactus VII de Pedro da Espanha, esses pequenos tratados são forçosamente de uma data posterior, e diversas razões militam contra sua autenticidade tomista. Dado que as Fallaciis foram incluídas nas coleções de opúsculos tomistas em Avignon por volta de 1310-1320, Gauthier sugere buscar seu autor junto aos mestres de artes do sul da França, por volta do final do século XIII.
Retorno à Nápoles: Segundo certas fontes, Tomás teria conseguido evadir-se ao cabo de algum tempo (com a cumplicidade de sua mãe), descendo pela muralha com ajuda de uma corda, como São Paulo. A verdade é sem dúvida mais prosaica. Vendo que sua resolução não podia ser vencida, sua família o reconduziu ao convento de Nápoles, após um lapso de tempo de pouco mais de um ano. Se, conforme podemos pensar, a deposição de Frederico II por Inocêncio IV (17 de julho de 1245) no Concílio de Lião foi vista como sinal de que a situação política estava prestes a mudar, a liberação de Tomás poderia ser um pouco posterior a esse fato.
A despeito dessas peripécias, o vínculo de Tomás com seu meio familiar permaneceu forte e profundo. Diversos detalhes de sua biografia permitem percebê-lo. Com a súbita transformação da situação política, e a família em dificuldades em conseqüência de sua defecção da causa imperial, Tomás soube encontrar fundos eclesiásticos para ajudar os seus, com a permissão de Clemente IV. Na seqüência, durante seus deslocamentos, hospedou-se regularmente nos castelos da família: em São Severino, onde residia sua irmã Teodora, condessa de Marsico, e em Maenza, onde habitava sua sobrinha Francesca, condessa de Ceccano. Somos informados de suas freqüentes idas à casa dessa sobrinha; deteve-se lá por ocasião de sua última doença, e dela se fez transportar para Fossanova, afirmando que, se o Senhor devia visitá-lo, seria melhor que o encontrasse em casa de religiosos do que em casa de seculares. Além disso, Tomás foi escolhido executor testamentário de Rogério de Áquila, conde de Traiecto, marido de sua irmã Adelásia, tendo-se desincumbido muito bem dessa tarefa. Não cremos que tenha ficado defasado em relação a tudo isso; Tomás foi um feudal bastante ligado a seu meio e a seu tempo, e sua linguagem lembra isso sem cessar e de maneira às vezes inesperada, como quando toma emprestado seu vocabulário e suas metáforas da cavalaria e do ofício das armas.
TORRELL, J.-P. OP Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Sua pessoa e obra. São Paulo: Loyola, 1999, pp.1-14.
Retirado de Aquinate.

domingo, 22 de junho de 2014

O consumo de carne, o pecado, as heresias e os rumos do cristianismo

Por:

Eduardo Moreira

Créditos da imagem:

Rafael Vitola Brodbeck

Não é de hoje que critérios totalmente superficiais são adotados como nível máximo de santidade por grupos sectários que estão infiltrados na Igreja. Quando alguns franciscanos se viram sem seu fundador, formaram eles uma seita de fanáticos de certo caráter gnóstico que foram duramente (e com razão) combatidos pela Igreja. Eles alegavam praticamente que era impossível ter posses e ser bom católico, quando nem mesmo Deus negou o direito de propriedade. Isso é bem evidente no decálogo descrito no capítulo XX do livro do Êxodo quando Deus manda que não se roube nada do próximo. Ora, só é possível roubar algo que é propriedade de outro, portanto, Deus impede por esse mandamento que se tome a propriedade privada. Assim fica fácil perceber o caráter herético desse grupo primitivo de franciscanos que, em nome da virtude do desapego, tentaram impostar a todos os cristãos essa virtude como caráter fundamental para se ser bom católico.
            De forma análoga, o apego à saúde faz com que muitos condenem o álcool e o fumo. O uso dessas substâncias não é considerado pecado pela moral católica, o que não significa que é mandatório fumar ou beber para ser bom católico. Significa tampouco que uma pessoa possa discordar desses hábitos. Aos que assim agem, deixo a frase do grande escritor católico, Gilbert K. Chesterton:
            ˗ "Idolatria é cometida, não apenas através da criação de falsos deuses, mas também através da criação de falsos demônios, fazendo os homens terem medo de guerra ou álcool, ou das leis econômicas, quando deveriam ter medo da corrupção espiritual e da covardia."
            Com o advento do politicamente correto vêm nascendo uma enxurrada de heresias brancas pautadas no respeito humano, o que pode ser pecado mortal. Palavrões, cigarros, bebidas e até o consumo de carne vêm sendo alvos de crítica dos puritanos. Que é belo e moral querer se afastar de tudo isso, sem se afastar da verdade, não se pode negar. Aquele que deseja ser perfeito e que deseja unir-se inteiramente a Deus pode optar por desapegar de todas essas coisas e de mais tantas outras por amor ao Criador. Entretanto, não é lícito, nem belo, nem moral condenar quem faça uso de tudo o que já foi citado aqui. Tivemos santos na Igreja que eram doces e suaves, como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, assim como tivemos verdadeiros doutores da Igreja que não economizaram palavras duras no trato com os traidores. São Gregório Nazianzeno, por exemplo, em pleno Concílio de Constantinopla dirigiu-se a bispos traidores chamando-os de vagabundos, porcos, despudorados, falsos e oportunistas sem escrúpulos. São Jerônimo chamava seus adversários, dentre outras coisas, de asnos bípedes. São Josémaria Escrivá, fundador do Opus Dei, convidava as pessoas a aprenderem o apostolado dos palavrões. Quer dizer, a Santa Ira é Dom de Deus e pode ser usada sem moderação contra os hereges que buscam desvirtuar as almas.
            A bola da vez parece ser a corrente dos cristãos veganos. Como não era pra ser diferente, sempre que há uma modinha mundana superficial ela busca refúgio no cristianismo para crescer, para apropriar-se das virtudes de Cristo e não raro para dizer que “o cristianismo primitivo era assim”. Assim sendo, o problema não é deixar de comer carne e continuar sendo cristão. O problema é fazer isso e condenar todos os que não fazem o mesmo.
            Primeiramente, não há argumentação científica suficiente para sustentar o vegetarianismo. As pessoas que escolhem viver comendo apenas vegetais têm que seguir uma dieta muito mais rígida e diversificada para suprir a deficiência de carne. Em termos de evolução (e a Igreja não nega que essa teoria possa estar correta), o ser humano evoluiu consumindo carne e sofreu mutações ao longo do processo evolutivo para se adaptar a isso. As presas e o apêndice são evidências de que o ser humano se adaptou ao consumo de carne. Apenas animais carnívoros ou de histórico carnívoro recente (como o Panda) possuem presas, que servem para perfurar a carne. O apêndice é encarado pela ciência como uma adaptação do intestino ao consumo de carne, pois, tendo abandonado hábitos exclusivamente herbívoros, o ser humano teve uma diminuição do intestino que antes era mais longo para digerir apenas vegetais.
            Alguns argumentam que nenhum ser humano nasce carnívoro. Isso é verdadeiro, mas é impossível afirmar que o ser humano nasce herbívoro partindo do fato do ser humano, nos primeiros meses de vida, alimentar-se apenas de leite. Aliás, o leite e a carne têm algo em comum: ambos são de origem animal, muito embora sejam totalmente distintos. Esse argumento é um tiro no pé de quem o usa, porque segundo os veganos, o ser humano não pode consumir leite também. Ora, o ser humano nasce exclusivamente mamífero!
            Ainda há aqueles de coração mole que dizem que os maus tratos com os animais impedem a pessoa com consciência cristã de consumir carne. A esses deixo apenas uma coisa: nenhum animal, por mais fofinho que seja, está acima do ser humano, por pior que seja, nos planos de Deus. O homem é o “animal” mais querido por Deus e não foram poucos os doutores da Igreja que trataram das diferenças dos animais e dos seres humanos.
            Evocam eles São Francisco de Assis sem ao menos terem lido uma vírgula do que deixou esse glorioso santo. Ora, São Francisco, embora tratasse toda a criação como irmã do homem, fez questão de dizer que o restante da criação era uma irmã desengonçada do ser humano. São Francisco de Assis não partiu do princípio de que a natureza é igual ao homem, pois se assim tivesse feito, teria caído no mesmo erro dos pagãos panteístas. São Francisco, tal qual a Igreja, convidou o homem, como um ser ímpar, a olhar a natureza e a ser capaz de perceber um grau crescente de complexidade que leva a chegarmos à conclusão inevitável oriunda da filosofia de Platão: Deus, o criador está acima de todas as coisas.
            Portanto, não é pecado de forma alguma consumir carne de animais confinados desde que esse processo seja necessário para manter a dignidade do homem, saciando a fome e as necessidades dele. Também não é pecado consumir carne alegando que, por não ser um alimento saudável, é pecaminoso. Não é pecado porque o consumo de carne dentro de limites seguros é saudável e mesmo que não fosse saudável, isso por si não seria motivo para haver pecado.

            A verdade é que esses “cristãos” não conseguem conviver bem em um mundo real e, por isso, tentam usar o cristianismo para justificar seu proceder e para proibir aquilo que em sua mentalidade é pecaminoso. Felizmente o cristianismo é a religião da verdade, não dos achismos. Vale sempre lembrar nessa ocasião que Jesus Cristo multiplicou peixes, e não brócolis, bem como sua primeira refeição após a ressurreição foi... peixe. E qual foi a refeição que Deus pediu que os judeus tivessem na páscoa? Cordeiro!

Retirado de Apostolado SCR.

O sofrimento

Texto do Professor José Luiz Delgado publicado no Jornal do Commercio (Recife, 11 de março de 2014 – foram feitas pequenas modificações estilísticas):
A vida pode ser uma sucessão de alegrias, de realizações, de vitórias. Mas será também uma sucessão de sofrimentos e agonias, umas maiores e outras menores, nuns mais e noutros menos. Por que alguns homens sofrem tanto? Por que sobre determinados membros da da família humana, e não sobre outros, e não sobre todos, se abatem certas moléstias ou certas privações que lhes prejudicam terrivelmente a qualidade de vida? Não há regra nessas fatalidades: não são sempre os piores que sofrem, nem os melhores. Nem aqueles, com tais sofrimentos, são castigados; nem estes são purificados e exaltados como que para dar exemplo. A vida é desigual também nisso: no fato de recair sobre uns uma carga excessiva de sofrimentos, enquanto outros são olimpicamente poupados.
O sofrimento é um mal, evidentemente. Desde os primeiros albores da consciência até o último estertor, o homem é perturbado, impressionado, obcecado, com a presença do mal. Não só o mal moral, a escolha voluntária do mal, a opção pelo crime e pelo pecado. Mas, antes de tudo, o mal físico, a dor, o sofrimento, o mal que atinge os inocentes (ao menos, inocentes do mal que os toca).
O mistério do mal seria ainda mais incompreensível se bens muito maiores não pudessem ser tirados dele. Nem sempre se tira, é fato. Mas, quando alguém, a quem foi dada carga muito pesada de sofrimentos, em vez de se revoltar contra o destino, aceita, resignado, a humilhação de sua carne e consegue tirar das dores que o acometem, um bem ainda maior, não somente fica pessoalmente pacificado, sobretudo dá admiráveis lições diárias, edificantes exemplos, reanimadoras motivações, e será exaltado entre as melhores referências da fortaleza humana. Se, ao invés, do próprio sofrimento não conseguir extrair as consolações e as grandezas que poderia tirar, contará com uma compreensão que não terão aqueles que foram poupados de sofrimentos semelhantes.
Não sei se pode imaginar algum consolo para esses sofredores, que dizem ser os preferidos de Deus, e que, tendo já padecido demais aqui, hão de chegar mais rápido à felicidade da outra vida. Sei é que são exemplares e são queridos exatamente pela imensidão de sua dor. E ainda nos mostram como somos todos humanos, tão frágeis, tão vulneráveis, tão dependentes de um milhão de coincidências para continuarmos nesta existência.
 

Da obediência dos católicos ao Papa

La Civiltà Cattolica ano XXVIII, serie X, vol. I (fasc. 639, 20 genn. 1877), Florença 1877 pag. 257-272.

R.P. Raffaele Ballerini d.C.d.G.

I.

Entre os discursos públicos que o Santo Padre Pio IX fez no final do ano passado, o mundo cristão acolheu com os mais notáveis sinais de aplausos, como singularmente oportuno, aquele que ele dirigiu ao sagrado Colégio Cardinalício, agradecendo-lhes os respeitosos bons votos recebidos na vigília de Natal. Neste, de fato, após o esplêndido exemplos de virtudes que o Sagrado Colégio dá,  durante as angústias da perseguição, na qual, há muito tempo aflige a Igreja, chegou a pensar em seus inimigos internos que contribuem para esta aflição e sobre eles diz: «São poucos mas podem realmente chamar-se sediciosos, e juntamente com os externos são todos seduzidos e animados pelo espírito de orgulho e da soberba; e seja um como o outro, gritam e repetem em diversos tons: Non serviam». [Ier.II 20 Não servirei. Ed] Acrescentou que estes inimigos internos «agridem a Igreja com a voz e a caneta, imprimindo grandes ou pequenas publicações , mas todas com intenção de diminuir a autoridade da Igreja.  Algumas vezes são publicações anônimas, e surgem da escuridão de algum salão... Escrevem e falam por conta própria,  não tendo a missão: Ex semetipsis loquuntur, como dizia o próprio Jesus Cristo aos fariseus. [Ver. Ioann. VII, 18. Mons. Antonio Martini comenta: «Vers. 18. Quem fala de sua própria iniciativa, ec. Qualquer pessoa, sem ter sido mandada por Deus, se coloca a instruir pessoas, não o faz certamente, se não para adquirir glória ou outras vantagens humanas. Ao contrario, quem no seu ministério,esquecendo completamente de si mesmo, não procura outra coisa que a glória de Deus, este é certamente digno de fé, e é incapaz de trair os seus ouvintes.» Ed.] E de consequência andam às cegas, nubes sine aqua, [DIU. I, 12: "Nuvens sem água". Monsenhor Martini diz:: «Nuvens que prometem aparentemente águas abundantes de doutrina, mas são estéreis e inférteis e fáceis de ser transportadas pelo vento da sua leveza.» Ed] pregando erros em grande quantidade. Falam, mas não podem dizer junto com o Divino Mestre: Mea doctrina non est mea, sed eius qui misit me Patris». [Ioann. VII, 16: «A minha doutrina não é minha, mas Dele (o Pai) que me mandou» Ed.] Portanto, no seu nome e da Igreja lamenta a traição deste tipo de inimigo com a recordação das terríveis palavras: Filios enutrivi et exaltavi, ipsi autem spreverunt me [1]. [Is. I, 2.: «Eu nutri e exaltei meus filhos e estes me disprezaram.» O discurso do Santo Padre ao Sagrado Colégio Cardinalicio e ao patriciado romano de 24 dezembro 1876 foi publicado pelo Osservatore Romano n° 295 e pela Civiltà Cattolica serie X vol. I, Florença 1877 pag. 226-228. Ed.]
Este discurso recentemente divulgado, deu aos católicos uma boa impressão; e isso se manifestou nos seus diários, que deixaram transparecer uma certa curiosidade de conhecer determinadamente as indeterminadas alusões que este continha. Mas além disso, para quem vive fora de Roma, era difícil, muitos entenderam que não tinham que levantar o véu, com o qual o Santo Padre tinha discretamente coberto suas alusões: e isso muito mais do que a realização de um desejo, não era um ponto necessário, para compreender a importância e a oportunidade da palavra pontifícia. Que já a muito tempo, aqueles que, com o olho diligente, seguem o que acontece no campo católico, vinham observando e deplorando o astuto funcionamento, execrado pelo Santo Padre, para trazer o maior número de fiéis possível para a prática do Non serviam, que é a tentativa do campo inimigo. Pouco conta que os tentadores se chamem Fulano, Ciclano ou Beltrano, que sejam homens ou que sejam mulheres, que mostrem uma intenção ou outra, que vistam um hábito ou outro, escrevam livros grandes ou pequenos: o problema é que a obra de sedução e sedição procedia, não sem dano aos humildes e escândalo aos menos cautos. Não se tratava de pessoas, mas de princípios; e pressionava muito que a maldade e a estupidez dos seminadores da erva daninha fosse, por quem tem autoridade, reveladas aos católicos. E isto fez o Papa, no discurso mencionado acima.
Agora cabe a cada um de nós tirar o fruto que compensa. Que consiste, basicamente na verdadeira obediência ao Papa e à Igreja, que é a antítese perfeita do Non serviam, que gritam os adversários. E eles gritam com aparência de uma certa razoabilidade, assim, acreditamos um bom investimento  duas sinceras palavras, que desfaçam o mal-entendido ou o engano.
II.
Estes sediciosos, como o Santo Padre os qualificou, são também ditos por ele inimigos, porque levantam a bandeira oposta a àquela da Igreja, mas internos; mas internos, porque protestam de não querer declarar-se abertamente nem como heréticos e nem como cismáticos, e muito menos sair do aprisco de Jesus Cristo. Eles têm vários nomes, com o qual eles enfeitam o título de católicos, e se trocam entre eles com uma caridade que edifica. De si mesmos, então, fazem humildemente supor as coisas mais magníficas: estes são arcas da ciência, intelectos superlativos, que iluminam as mentes e também esclarecedores do mais alto grau. Doutrinas e virtudes são de casa. Este é o sinal manifestado daquele espirito de orgulho e soberba, do qual o Pontífice disse serem animados. Existem até mesmo alguns que convencidos de possuir uma espécie de mandato de Deus, para dirigir o Papa no governo da Igreja, e até mesmo para salvar o Papado e a Igreja do naufrágio. A verdade é que eles, animados pelo espirito de soberba,  são desequilibrados, e talvez mais dignos de pena que de reprovação.
Costumam chamar-se com o nome genérico de católicos liberais, que parece suficientemente apropriado, pelo que os caracteriza em um mesmo item, o qual é presente em todas suas variações de escolas e graduações comuns: isto é, a desobediência ao Papa. Ignoramos que outros os tenham descrito melhor, do que aquilo que fez o ilustre barão d’Ones Reggio, no seu discurso ao Congresso católico de Florença. « Estes católicos liberais, são aqueles os quais dizem que obedecem ao Sumo Pontífice, que doutor infalível define doutrinas da fé e da moral, mas podem não obedecer em todas outras matérias, nas quais ele decide. Por aquilo no qual obedecem são católicos, por aquilo no qual não obedecem são liberais. São um e são o outro, belamente junto e harmonizados, impecáveis pelos ditames de fé, impecáveis pelos ditames da razão. [2]».
Na qual descrição se encontram reunidas as raízes, por assim dizer, de todos sofismas e pretextos que estes alegam, para  dar aparência de honestidade à desobediência deles, o Non serviam que gritam ao Papa e à Igreja.

III.

Alguns mais teologizantes dos que os outros, pretendem de pesar com a balança do ourives os direitos do Papa, enquanto mestre da Igreja, de ser obedecido pelos fiéis, e a consequente obrigação que estes têm em professar-lhe obediência. E depois, o que deduzem? Que a obrigação verdadeira e estreita desta obediência, por eles chamada necessitas fidei, abrange unicamente à definição  ex cathedra, com todos e cada requisito indicados pelo cânone do Concilio Vaticano, mas não o resto, que é objeto da assim chamada por eles pietas fidei. Rigorosamente , portanto, não se pretende-se dos católicos nada além do que a  necessitas fidei; embora seja elogiada também a pratica da  pietas fidei. Estranha confusão de fórmulas e de conceitos, que parecem deliberadamente projetadas para confundir as cabeças da multidão!
Aqui precisa destinguir. Se por necessidade de fé se entende aquela que é necessária para ser um católico, e não cair formalmente em heresia, se concede que esta, como tal, não envolve nada além do que as verdades dogmáticas, definidas como tais pelos Concílios, ou pelo Papa ensinadas ex cathedra. Mas, se se entende aquela que é necessária para salvar a alma, ad salutem, se nega que não envolva também outras verdades, ainda que não sejam definidas dogmas de fé. Enquanto nos católicos a necessitas, ou seja, a obrigação de obediência ao Papa e à Igreja, não se limita somente àqueles casos nos quais a desobediência leva ao cisma e à heresia, mas ainda aqueles nos quais leva ao pecado grave. O corpo da doutrina católica tem muitas verdades, as quais aquele que se rebela não pode dizer-se herege, mas não pode nem sequer justificar-se da culpa mortal. E por isso, em cada curso mais elementar de teologia se explica a diferença entre verdade puramente dogmática e as verdades não propriamente tais, mas todavia de fé, ou pertencentes à fé.
Agora, que católico seria aquele, que teria a audácia de afirmar que a estas verdades seriam devidas, não a obediência de necessidade, mas àquela de piedade, quase como se aderir com o intelecto, o crer e professa-las, fosse um ato supérfluo de devoção e não dever de consciência? Os Romanos Pontífices condenaram um grande número proposições teológicas e filosóficas, as quais contradição não é certamente sempre dogma de fé ou de moral, e nem condenando-as seguiram sempre todas as fórmulas, expressas no cânon vaticano da infalibilidade pontifícia. No entanto, seria católico e seria saudável quem afirmasse: Todas essas condenações são matérias não da necessidade , mas da piedade da fé: portanto sera um bem se eu aceito como verdade, mas não será mal se eu rejeito como falsas?
Repetimos que opor a  piedade à necessidade da fé, sem límpidas declarações, que estabelecem a natureza e os limites de uma e da outra, e sem incluir explicitamente na necessidade também aquelas verdades, as quais, embora não sejam dogmas definidos, são porém verdades pertencentes à fé, é um modo de nós criarmos emaranhados , perigosos para a alma dos católicos menos instruídos, e fácil de se transformar em instrumentos de falácia e engano. De dupla serventia para o católico é a obediência necessária: uma de preservá-lo da heresia, a outra do pecado. Quem nega o Papa e a Igreja, primeiro além do pecado mortal de heresia, incorre, se o ato é externo, ao anátema que o separa da Igreja: quem nega a segunda, embora não incorra ao anátema, peca ainda este, mais ou menos diretamente contra a fé e perde a graça de Deus. A pietas fidei poderá envolver a perfeição ambas, mas certamente não tem relação com a substância daquela obediência, a qual transgressão implica grave ofensa à fé, e portanto, pecado mortal.
O mesmo se diga do uso ambíguo que se faz ao texto atribuido a S.Agostinho: In certis fides, in dubiis libertas, in omnibus caritas; que parece dizer que nas coisas certas são anexas somente as verdades dogmáticas, e nas duvidosas todas as outras. Isto seria um erro muito prejudicial e intolerável na Igreja de Cristo. Podemos chamar duvidosas, e de consequência livres, somente aquelas doutrinas em torno as quais não consta com certeza o sentido da Igreja. E sobre estas, de fato se propagam as frequentes disputas dos teólogos católicos. [3]. [ Recomendamos ardentemente a leitura desta nota. Ed.]

IV.

Outros, simulam um desejo escrupuloso de manter o dever de obediência ao Papa, dentro dos termos mais precisos, nos quais pelo Concílio Vaticano foi posto. Estes, de boca cheia ensinam, que o Pontífice, enquanto é mestre, não tem o direito de ser obedecido pelos católicos, se não somente acerca da doutrina de fé e dos costumes: e que para matérias políticas, sendo ao seu magistério subtraídas, são portanto livres cada um e independentes do Papa e da Igreja. In cauda venenum. O tóxico do sofisma é na anfibologia da consequência. As matérias políticas são subtraídas ao magistério do Papa? Adágio. Todas não, somente algumas. Aquelas não ligadas com a fé e com a moral, é verdade: aquelas que com a fé e com a moral têm um vínculo, uma relação, é falso. Portanto é falso a afirmação, em modo geral, que aos católicos as matérias políticas são livres, e que são por si independentes do juízo da Igreja e de seu Chefe.
Não seria o Papa mestre das doutrinas de competência específica relativas à sociedade civil com a eclesiástica? Não seria ele, por seu ofício, o juiz dos princípios morais, dos quais necessariamente tem de ser formada a política? Por acaso não cabe a ele apontar os erros e reprovar a iniquidade, que a política faz passar muitas vezes por ouro fino, por verdade e justiça? E se os católicos querem ser e parecer católicos, por acaso não teriam o dever de submeter-se, também neste caso, ao Papa e de aceitar a sua sentença?
Este artifício dialético, para subtrair teologicamente ao magistério do Papa uma quantidade de matérias importantíssimas à saúde do cristianismo, infelizmente é comum aos católicos liberais, que, por suas ambições e interesses tem a tendência de separar o máximo possível (com exceção, porém de certas conveniências) o Estado da Igreja, ou a moral da política. E que este seja o vício capital do sistema deles, o S. Padre Pio IX, muitas vezes deixou a entender e reclamou, e ultimamente ainda no seu Breve de 18 setembro 1876 ao Bispo das Trois-Rivières no Canadá, onde em termos expressos podemos ler: «Devemos louvar o zelo, com o qual vós tem se esforçado de preservar o povo contra as astutas ciladas do liberalismo que se diz católico, tão perigoso, enquanto, com aparência de piedade , induzem ao erro muitos homens honestos, e enquanto afastando-os da sã doutrina, especialmente nas questões, que a primeira vista, parecem interessar o poder civil e não o eclesiástico, estes enfraquecem a fé, quebram a unidade, dividem as forças católicas, e fornecem uma ajuda eficaz aos inimigos da Igreja, os quais ensinam os mesmos erros, embora com maior amplitude  e imprudência, e conduzem inexoravelmente os espíritos a ter em comum com eles desenhos perversos. [4]».
Estas palavras de autoridade do Papa vem a demonstrar a futilidade de um outro artifício mais cruel, que os adversários fazem uso: é desacreditar o dever de obediência dos católicos ao Papa, injuriando os apoiadores, como se estes exagerassem, falsificassem as condições e portanto pervertem a sã doutrina da Igreja.
Sim: nós escritores de revistas católicas mais devotos ao Papa e aos Bispos e mais estudiosos de defender, sob sua supervisão, segundo as nossas forças, a integridade da fé, corrompemos o dogma da infalibilidade pontifícia, porque afirmamos e afirmaremos, que ao Vigário de Cristo é devida a obediência, não somente quando define dogmas, mas sim quando em outras maneiras expõe a doutrina católica, e porque afirmamos e afirmaremos que objeto do seu supremo e infalível magistério são também todas matérias políticas, as quais são relacionadas com a fé e com os costumes. Por isso somos acusados de querer dominar a regra da fé, com intenção de ofuscar, de estragar, de torturar. Mas aquilo que afirmamos é invenção nossa ou  por acaso não é ensinamento de todos teólogos, e antes e depois a definição do Concilio Vaticano? E se é assim, quem pode nos reprovar? E a acusação de corromper a fé, que nos foi dada, não resulta em uma calúnia, desonrosa a quem a faz e não a quem recebe? Mas vamos além, não podemos nos perder combatendo contra o nevoeiro, nubes sine aqua,  como o próprio Santo Padre descreveu ser os cérebros orgulhosos dessas pessoas.

V.

Estes, que tanto afiam as mentes para mitigar a exigência de submissão ao Papa, naquilo em torno ao qual possui autoridade de magistério infalível, não é de admirar que manipulem , para mitigar naquilo, em torno o qual ele não pussui igualmente infalibilidade e autoridade. — “O Papa é falível, fora do seu magistério: portanto, nas matérias que não pertencem a este seu magistério, podemos não obedecer e permanecer católicos sinceros”. Este é o grito de guerra deles, contra quem tenta convencê-los a aceitar humildemente as prescrições do Papa.
Desculpa mais insensata do que esta não podiam alegar. Jesus Cristo não constituiu o romano pontífice seu Vigário somente para que ensine, mas também para que guie a sua Igreja: e a preeminência de Pedro não consiste só no poder supremo que ele tem de ensinar, no que é prioridade do magistério, mas também de governar, no que é a prioridade da jurisdição [5]. E este é o dogma essencial de fé católica , e quem não professa cai portanto em heresia juntamente com o cisma. Duplo, portanto é o oficio divinamente conferido ao papa por Cristo, no ministério comissionado por ele de apascentar o seu rebanho, quer dizer ofício de mestre e oficio de governante, é claro que todos fiéis são ainda vinculados à dupla obrigação de submeter-se a ele, seja no que se refere a um oficio como no que  diz respeito ao outro.
É verdade: o carisma ou dom da infalibilidade não foi concedido por Deus ao Papa, exceto no exercício do oficio de mestre da Igreja: e então? Então, porque o Papa não tem esse dom em seu governo eclesiástico, e pode em determinadas coisas, de fato, não relacionadas porém com a geral disciplina da Igreja e não relacionadas com a fé e com os costumes, errar, é admissível desobedecê-lo? Mas se a razão da obediência nas ordens sagradas, civis e domésticas fosse, não mais a posse legítima, e sim o exercício infalível da autoridade, o que seria da ordem humana no mundo? Os pais  não são infalíveis, então, os filhinhos poderiam legalmente desprezar os comandos. Os governantes políticos não são infalíveis, portanto os cidadãos e os súditos poderiam legalmente violar as leis. Os sacerdotes e os Bispos não são infalíveis, portanto os cristãos, ao regimento espiritual à eles sujeito, poderiam legitimamente não levar em conta alguma as ordens dadas por eles. A rebelião e a anarquia seriam perpetuadas e justificadas em todos os sentidos.
O absurdo dos corolários mostra as suposições dos quais derivam. O dever de sujeição aos poderes por Deus estabelecidos não tem raiz nas prerrogativas mais ou menos distintas dos quais estes podem ser dotados, mas na sua natureza intrínseca de emanação da autoridade de Deus, de seus representantes, dos delegados por Ele a recolher dos súditos aquele tributo de obediência, que Ele tem o direito absoluto de exigir, ou imediatamente por Ele ou por meio de outros: e até que estes poderes não se distorçam, pervertendo a ordem desejada por Deus e prescrevendo outras por Deus proibidas, estes tem o direito àquela obediência que os súditos devem à Deus, do qual fazem vez. Esta é a teoria racional e cristã de poder, promulgada nas Escrituras divinas e mantidas constantemente intactas pela Igreja. «Cada homem deve sujeitar-se a seu superior, porque todo poder vem de Deus, e quem resiste a Deus se autocondena. Aqueles que são revestidos de poder são ministros de Deus, e a estes ministros devemos obedecer, não somente para evitar a sua ira, mas também por consciência. [6]». Além do mais, o Apóstolo, em nome de Deus, intimava os fiéis, que em todo poder reconhecessem Jesus Cristo, e seus servos ao seu patrão, ainda que gentis, obedecessem como a Cristo. [7]. Ali foi originada no cristianismo aquela nobre obediência, que não é dobrar a vontade do homem a outro homem, somente porque é este ou aquele homem, mas unicamente porque representa Jesus Cristo, e movidos não pelo temor servil, mas pela consciência e pelo amor, e se levanta até o trono de Cristo-Deus, o homem, que por Ele a outro homem se sujeita. Esta é a obediência que podemos chamar e é a prática do amor à Jesus, amor em ato, o precioso laço que une a terra ao céu, um vinculo de união, nó abençoado de paz entre os homens, nos Estados, nas comunidades, nas familias: Haec est illa obedientia, quae concordiam conservat in angelis, tranquillitatem generat in civibus, sine qua Respublica stare non potest, sine qua familia aliqua regi non potest [8]. [«Haec est illa obedientia quae concordiam conservat in Angelis, pacem nutrit in monachis, tranquillitatem generat in civibus. Haec est illa obedientia, sine qua respublica stare non potest, sine qua familia aliqua regi non potest. —  Tal é a obediência que mantem a concórdia entre os anjos, que nutre a paz entre os monges e produz a tranquilidade entre os concidadãos, obediência sem a qual, um Estado não pode sustentar-se e sem a qual nenhuma família pode ser governada.» Ad fratres in eremo Sermo VII, S. August. Opera omnia (Migne) t. VI col. 1248-1249, Paris1861. Ed.]
Posto isso, que valor tem, moralmente e teologicamente, a bela razão dos adversários, os quais pensam de legitimar a sua desobediência ao Papa nas coisas viáveis, porque nestas o Papa não goza de infalibilidade assegurada por Deus nos ensinamentos? O bom senso natural é suficiente para julgar. É ilícito, segundo são Paulo, a desobediência de um servo cristão a um patrão gentil, será lícito aquela de um fiel católico ao Vigário de Cristo? Se nada valesse, a razão dos católicos liberais faria tremer os alicerces de cada ordem humana e cristã.
«Pode errar, observou com sabedoria o  Barão d'Ondes, no discurso acima mencionado, pode errar o Sumo Pontífice, mas passa esta lacuna essencial entre o Sumo Pontífice e os outros: que ele pode cometer erros no governo da Igreja, mas nunca erros que ofendam a fé e a moral, porque no ensinamento da fé e da moral é infalível, mas os outros podem cometer erros, e não raramente acostumados contra ambas aquelas: onde os erros do Sumo Pontífice não causam dano algum ao que mais importa para a saúde das almas, e também para o bem substancial da vida terrena, e podem atingir somente objetivos secundários. Esta sim é verdadeira, grande e inevitável garantia, que o governo do Sumo Pontífice dá ao universo e ao mundo! [9]»
Mas não há necessidade de discutir ainda mais e espalhar sofismas, que chama atenção dos menos especialistas na matéria. Tanto é que a solução para isso não se procura na lógica, mas na moral, proveniente do defeito e não do bom discurso, mas da boa vontade. E por isso o Sumo Pontífice demonstrou muito bem a origem, dizendo destes sediciosos «movidos e animados pelo espirito do orgulho e da soberba.» A desobediencia é filha primogenita da vanglória [10].Os católicos que se arrogam o direito de desobedecer o Papa, para poder serem liberais, não cederão nunca à dialética, se antes não cedem à humildade.

VI.

Por graça de Deus, estes inimigos internos (e nos advertiu o Santo padre) são poucos. Muitos já passaram notoriamente para o campo dos inimigos externos, e outros que parecem vacilar na borda da fossa, estão ali em torno mais por falta de imaginação que por maldade de coração.Na Itália, em particular, aqueles que não se envergonham do título de católicos, estão na maioria com o Papa, afeiçoadíssimos ao Papa e muito bem dispostos a obedecer em tudo o Papa. Esta é a verdade.
No mais, convém à eles estar em guarda de si mesmo e das armadilhas sutis, as quais o seus retos e bom ânimo são quotidianamente expostos. Vivemos no século satânico por excelência, uma vez que se caracteriza por ser o século da revolução universal, e é o único século, no qual foi louvado Satanás, porque rebelde a Deus. A desobediência, que é revolução, toma todas as formas possíveis, para que não vejamos transformada em dogma político, mas vejamos erguida à ídolo, no qual desejam forçar-nos todos a oferecer sacrifício. O católico do nosso tempo, precisa de fé viva e forte, para manter-se como se deve diante de Deus, diante da Igreja, diante do mundo. A fé tem de formar nele o critério prático e levantar o peito, contra o turbilhão de erros e os terrores que o cercam. O nosso século, esta acima dos outros séculos, é anti-cristão, porque acima de tudo, a autoridade é inimiga. Observe como são reduzidas as autoridades civis, o poder dos Estados nos nossos dias! É considerada como jurídica e inviolável a liberdade de fazer oposição a todos poderes, e de julgá-los independentemente . Acima de cada autoridade, pretende-se que esteja a assim chamada opinião pública, a qual, quando é alguma coisa, não é nada mais do que o julgamento coletivo de muitos cidadãos, cada qual responsável por um, embora tenha peso. Esta é a autoridade soberana do nosso tempo. E onde nasce o desprezo de todas autoridades, se não sempre de si mesma, certamente em quem foi investido e exercita publicamente os oficios. Infelizmente o desânimo no qual esta caiu, faz com que algumas vezes, em alguns países, na roda do leme do Estado estejam pessoas que deveriam estar remando nos banheiros, com o selo de condenado colados na testa. Mas, em suma o fato é este: o maior dos infortúnios de hoje é que, no conceito comum, autoridade social já não goza mais nem do caráter , nem da força, nem da reverência que desta não deveria nunca se separar.
Hoje, o perigo dos católicos, mesmo os melhores, é este: que sem perceber, se deixem levar pela corrente: e , ou se transformam em juízes da autoridade do Papa e da Igreja, como todos fazem com as outras autoridades, ou não se atrevem, por respeito humano, de demonstrar o seu respeito. Por isso cremos que seja muito necessária a fé, e estimamos que aos católicos nunca é demais repetir: sejais homens de fé!  State in fide [11].
A fé os lembrará constantemente , que a autoridade do Papa no mundo é de um tipo diferente de todas as outras, porque sobrenaturalmente divina na origem, no seu constitutivo, em seu exercício e no seu destino final. Em suma, a fé tem de mostrar a eles, no Papa o doce Cristo na terra, que santa Catarina de Siena não cansava de servir, de escutar, de venerar. Do mesmo modo em que nenhum católico ousaria julgar Jesus Cristo, se fosse visível no Vaticano, visivilmente dali governasse a Igreja, como de lá governa seu Vigário, assim ninguém ouse julgar o seu Vigário. Aquele que temerariamente o julga, o culpa ou o censura, fere nele a eterna majestade que ele representa. E aqui está a flor daquela fé, que nunca é demais recomendar: ver no Vaticano Jesus Cristo, e na honorável pessoa de seu representante, aquela adorável do seu representado. E lembre-se que Jesus Cristo não é um Rei constitucional, que separa a sua responsabilidade daquela do seu Ministro, e portanto, o Papa, em relação à Jesus Cristo não é um daqueles ministros constitucionais, que podem ser jogados na lama e lapidados pelos fiéis súditos, sem que o Rei cidadão se ofenda. Não, Jesus Cristo e seu Vigário, em ordem de instrução e regimento da Igreja, formam um inteiro, tanto que  estritamente falando é verdade, que Jesus Cristo instrui e rege Sua Igreja através do Papa, já que este moralmente vive no seu Vigário, e através deste transfunde em todo o corpo social da Igreja a vida. Então, ai daquele que toca no Papa! Ai daquele que não tem temor, respeito, e obediência!! Cada dardo lançado contra o Papa, atinge diretamente Jesus Cristo.
É questão máxima importância da fé, que deveria valer normalmente para todos os católicos, para regular bem as relações internas no coração e as relações externas das obras e da língua com o Papa. Feita a premissa, esta norma é muito fecunda de práticas e consequências, as quais cada um por si mesmo pode perceber.
Mas a principal de todas é a docilidade, e de uma docilidade filial e disposta, também naquilo que não é estritamente obrigatório, ou com discernimento das grandes mentes, parece menos produtivo aos interesses da Igreja e do papado. A fé nos diz que, com Deus, o mérito de obediência é tanto maior, quanto é menor, em quem exercita os atos, o dever de exercita-los todos. A mesma fé em seguida nos adverte, que a graça de conhecer e avantajar os interesses da Igreja, Deus não dá às grandes mentes, mas ao Seu Vigário na terra: e que somente ele tem iluminação para o efeito, porque somente ele recebeu Dele o ofício de apascentar e governar Seu rebanho. De grandes mentes, quando humildes e obedientes, o Senhor está acostumado a confiar o serviço não ordinário da Igreja, mas quando são rebeldes e orgulhosos, Ele faz o que fez com Lúcifer, o intelecto mais sublime que saiu da onipotência da Sua criação. O governo da Igreja de Jesus Cristo não é comissionado aos grandes gênios, mas ao Papa, e mais luz tem o Papa, para enxergar quem se adequa ou não se adequa à Igreja e à Santa Sé que todas as grandes mentes do mundo reunidas em uma só. O que os católicos tem que ter bem presente no ânimo, com mais frequência, é que no fim, estes grandes gênios, os quais pretendem dirigir o Papa, são, como bem os definiu o Santo Padre em outro discurso mais recente, « cabeças exaltadas, que se deixam guiar pela imaginação e por orgulho e não por reflexão [12].»  E isto é precisamente o que faz rationabile obsequium nostrum [nossa obediência racional. Cfr. Rom. XII, 1. N.d.R.] ao Pontífice, também em matéria de política eclesiástica , as quais não são claras à prudencia humana: a certeza que o Pontífice tem de Jesus Cristo a graça de estado, para ver claro aonde a humana prudência enxerga escuro, e para obter o bem da Igreja com meios, que não raramente parecem ser o melhor modo para fazer politica.
Nem tenham medo os católicos de cair no excesso de obediência ao Papa, que alguns fariseus do catolicismo liberal, com simulação estudada, fingem ter, pois faz mal «às almas»: e por isso contra os jornalistas, promotores fervorosos desta obediência, lançam as flechas mais envenenadas dos seus aljavas jansenistas. Nessa matéria, o excesso, não só não é temível mas nem mesmo possível. Um excesso de obediência cristã e verdadeira, como aquela que nós falamos, se reduziria a um excesso de amor por Jesus Cristo, isso é, a um excesso daquela virtude que, única entre todas, não é capaz de excessos. O pharisaei hypocritae, [O fariseu hipocrita N.d.R.] Você ainda pode participar de uma culpa assim tao bela!

VII.

É um bem desejar que os católicos da Itália se aperfeiçoem mais ainda nessa fé e obediência ao Papa, que tem de ser o centro comum da união de ação religiosa  junto à politica, para a salvação da pátria. Já vemos com prazer o quanto prevaleça entre eles, e especialmente entre os mais influentes e laboriosos, o conceito que na Santa Sé se identifica com a causa não menos sagrada que civil da Itália. E consideramos digníssimo de louvor os valorosos escritos do Osservatore cattolico de Milão, os quais, com zelo igual ao saber, os defendem e ilustram. As condições dos católicos na Itália diferem daquela dos católicos na França, na Espanha e na Bélgica e de outros países, no fato de que muitos de seus atos políticos, como tal, são a estes livres, porque não contrariam direitos e razões de ordem religiosa, quando aos católicos da Itália muitos destes atos não são livres, porque são opostos à prescrições jurídicas da Igreja ou a proibições pontifícias, que antes de tudo e acima de tudo devem observar. Este é o efeito particular no qual se encontra a Península, por ter no seu ventre a Sede de são Pedro, agora despojada pela Revolução que domina Roma e detém o Papa apertado neste cerco hostil, sub hostili potestate constitutum. Motivo pelo qual ao querer concordar a consciência e os deveres católicos com aqueles de cidadãos, é necessário que os italianos tomem, nas suas operações religiosas e civis, endereço pelo Papa.
Pode parecer dura esta necessidade aos espíritos ambiciosos, porque gostariam de usar a fé para superar a sua soberba mundana; dura aos sonhadores de transformações opostas aos conselhos de Deus, dura aos interessados aos frutos de um capital que, sendo, como aquele conquistado por Judas, pretium sanguinis, [a preço de  sangue. Matth. XXVII, 6 Ed.] como aquele é maldito também pelo céu: mas ao invés, é estimado pelos outros, que na tiara de Pedro vêem o simbolo histórico e providencial da paz e da grandeza da Itália. Porém o nó que liga a Itália ao Papado não é feito pelos homens, mas é formado evidentemente por Deus. E até mesmo sobre este laço tem de cumprir-se , que Quod Deus coniunxit homo non separet [13]. [O homem não divida aquilo que Deus uniu.Ed.] A nacionalidade não pode, portanto ser nunca uma razão de separar um do outro: e já que, por tal pretexto, uma separação moral ou material ocorra entre eles, será causa de males e danos gravíssimos até que persevere. E a experiência atual o demonstra. O que ganhou a Italia com a rebelião de quase 20 anos dos seus governantes com a Santa Sé? Fome, servidão e delitos. Dos tempos dos barbaros até hoje, nos anais da historia não constam uma miséria maior do que esta, que corroe e consome a Itália que quiseram arrancá-la das mãos do Papa.
Os católicos italianos, portanto, no qual queima no peito o amor não somente pela religião, mas também pela pátria, devem alegrar-se que Deus tão providencialmente  uniu o destino político da Península com aquele do papado, que aos direitos de um não se pode insultar sem prejudicar o outro. Este é o único privilégio do nosso país: mas assim feito, nos pede, em troca, o tributo de respeito particular à Santa Sé. Se para obedecer ou referir a esta, não soframos se somos forçados a renunciar , na guerra politica, a uma estratégia que poderia parecer eficaz, mas não é conforme os direitos ou querer seus. Isso prova que Deus tem desenhos ocultos e dispõe a vitoria por outros caminhos.
Além disso, dizemos todos os dias, que sem uma intervenção especial de Deus, a vitória da justiça pacificadora da Itália, foge à todas previsões humanas. Mas qual titulo mais válido, para obter esta intervenção, qual o argumento mais sólido, para esperar de obtê-lo, que sacrificar temporariamente a Deus nosso zelo, a nossa coragem e parte das nossas armas, para obedecer melhor ao seu Vigário na terra?

NOTAS:

[1] V. l'Osservatore Romano de 27 decembre 1876.
[2] Discursos e propostas do barao Vito D'Ondes Reggio no segundo Congresso catolico italiano,em Florença, em setembro de 1875. Florença 1875, pags. 5-6.
[3] De modo muito belo e erudito, em seu habitual, monsenhor Francesco Nardi escreveu sobre este assunto, em uma carta para o diretor da Univers de Paris: « O famoso texto atribuido a Santo Agostinho, e é como a palavra de ordem dos católicos liberais, nao se encontra nas obras genuinas do santo Padre.
«Além do que, aquele texto,  que acredito ser de um polemista alemão no tempo da falsa Reforma, não expressa uma ideia justa e cuidada. Tomando no sentido que se apresenta mais óbvio, significaria que, com exceçao dos dogmas: in certis fides, o resto é livre: in dubiis libertas. Digo com exceção dos dogmas, porque somente os dogmas são objetos de fé (manifestamente claro que o escritor quis dizer por fé aquela teologicamente dita fé catolica). Agora, talvez , fora dos dogmas o resto é livre? Nao, nao nenhum pouco.
« Há muitas verdades que são ensinadas pela boa doutrina tradicional da Igreja, e que sem os dogmas, e quem mesmo não sendo dogmas, devem ser aceitadas e devemos crer, e não somos livres de rejeitar. Negando-as, não somos hereges, mas mestres imprudentes e maus. Eu não admito a prática deste principio: in dubiis libertas. In dubiis, eu diria examen e iudicium, e se quiseres adicionar também um pouco de humilitas, non seria mal.
«Quanto à caritas, voces sabem alguma coisa, e eu também não desconheço. Em geral, as pessoas mais gananciosos desta mercadoria costumam ser aqueles que gostariam de ter o monopólio». V. Univers 7 janeiro de 1877 e La Voce della Verità de Roma 11 de janeiro de 1877.
[4] Ver este volume. pags. 116-17.
[5] Pontificem Romanum verum Christi Vicarium, totiusque Ecclesiae caput, et omnium christianorum patrem ac doctorem existere; et ipsi in beato Petro pascendi, regendi et gubernandi universalem Ecclesiam a D. N. Iesu Christo plenam potestatem traditam esse. Assim definiu o Concilio ecumenico de Florença, depois que outros Concilios anteriormente tinham definido o mesmo dogma. As quais definiçoes , todas reconfirmaram o Concilio Vaticano, ao definir que declarou também o dogma da infalibilidade inerente ao magisterio pontificio. [«Item diffinimus, sanctam Apostolicam Sedem, et Romanum Pontificem, in universum orbem tenere primatum, et ipsum Pontificem Romanum successorem esse beati Petri principis Apostolorum et verum Christi vicarium, totiusque Ecclesiae caput et omnium Christianorum patrem ac doctorem exsistere; et ipsi in beato Petro pascendi, regendi ac gubernandi universalem Ecclesiam a Domino nostro Jesu Christo plenam potestatem traditam esse; quemadmodum etiam in gestis oecumenicorum Conciliorum et in sacris canonibus continetur. — Definitmos também que a santa Se Apostólica e o Romano Pontifice detém o promado sobre toda a terra, que o mesmo Romano Pontífice é o sucessor do bem-aventurado Pedro príncipe dos Apóstolos e verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a Igreja e pai e mestre de todos os Cristãos; e que ele, no bem aventurado pedro, foi dado pelo nosso Senhor Jesus cristo plenos poderes de apascentar, reger e governar a Igreja universal, como também è dito nos Concílios ecumênicos e nos sagrados cânons.» Concilio de Florença, Sess VI (6 julho 1439). DB 694. Ed.]
[6] Omnis anima potestatibus sublimioribus subdita sit, non est enim potestas nisi a Deo.... Qui resistit potestati, Dei ordinationi resistit. Qui autem resistunt, ipsi sibi damnationem acquirunt... Dei enim minister est... ideo subditi estote, non solum propter iram, sed etiam propter conscientiam. Rom. XIII, 1-5.
[7] Servi, obedite dominis carnalibus... in simplicitate cordis vestri, sicut Christo. Non ad oculum servientes... sed ut servi Christi, facientes voluntatem Dei ex animo, cum bona voluntate servientes, sicut Domino et non hominibus. Ephes. VI, 5-7.
[8] S. Augustin. Prosec. [Ad fratres in eremo Sermo VII, S. August. Opera omnia (Migne) t. VI col. 1248-1249 Paris 1861 N.d.R.]
[9] Disc. cit. pags. 9-10.
[10] Inobedientia prima filia est inanis gloriae. S. Antoninus, Par. II, tit. 4, cap. 2.
[11] I Cor. XVI, 13.
[12] Ver,  no Osservatore Romano de 9 janeiro de 1877, o discurso da Sua Santidade aos peregrinos italianos, no dia da Epifania deste ano.
[13] Matth. XIX, 6.

PARA CITAR

BALLERINI, Raffaele. Da obediência dos católicos ao Papa - Disponível em: < http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/699-da-obediencia-dos-catolicos-ao-papa >. Desde: 20/06/2014. Tradução: Gabriela Arenare.

sábado, 21 de junho de 2014

Dia de Corpus Christi - Mistério insondável

Dia desses, fui à Missa e, olhando a Eucaristia, me pus a meditar..
A Eucaristia é Deus. Às vezes, a gente acha que entende o que é isso, mas não entende. Qualquer conceito que possamos ter de Deus, por mais elevado que seja, é sempre analógico e nunca literal. O que Ele é nos escapa. Por isso dizemos apenas que Ele é.
Neste sentido, escreveu S. Gregório de Nissa, na sua Vida de Moisés:
"Todo conceito formado pelo entendimento para tentar atingir e abranger a natureza divina não consegue mais do que forjar um ídolo de Deus, em vez de fazer conhecê-Lo."
Qualquer teologia que suponha poder dizer estritamente quem é Deus torna-se herética no ato mesmo de pretendê-lo. Quem é Deus? Não sabemos. As nossas afirmações d'Ele são sempre comparativas.
Se não sabemos isto, como pretendemos entender o fenômeno da Eucaristia? Simplesmente, não dá.. Podemos ter uma Fé profunda de que Deus está ali, mas a Fé é justamente a "visão obscura", o "ver confusamente" de que fala S. Paulo. Por isso, a Sta Edith Stein costumava dizer que a Eucaristia é "o pão seco dos fortes", pois é preciso ser forte, no sentido de vencer a nossa tendência natural de exigir comprovações e gostos sensíveis, como fazem as crianças com os alimentos, para encontrar ali o Cristo. Sta Faustina Kowalska dizia o mesmo: "A fé firme rasga este véu". E é assim mesmo que Deus o quer, pois diz São Paulo: "O justo vive pela fé" e "sem fé é impossível agradar a Deus." Jesus o exprime de modo claro: "Felizes os que crêem sem ter visto", e Tomás de Aquino, o doutor angélico, por sua vez, escreve em que consiste esta força: "Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela Fé." (Lauda Sion)
A Fé, portanto, não indica um bloqueio no sentido de nos deixar aquém daquilo que é percebido pelos sentidos. Pelo contrário, a Fé nos leva além deles, a um tipo de conhecimento que é tão intenso e se aproxima tanto da luz que, antes, nos ofusca. Mas, ao nos ofuscar, nos ilumina e nos prepara, gradativamente, para a visão. Os olhos incandescidos tendem a adaptar-se aos poucos à luz. A Eucaristia, exigindo-nos a Fé, nos prepara para a visão beatífica.
A Eucaristia é Deus. Ao dizê-lo, abre-se diante de nós um abismo de horizontes infinitos. Como esgotá-lo com o entendimento? Não dá. Os sentidos não o apreendem. A razão apenas assente. E, no entanto, Deus verdadeiramente Se dá, e nós O recebemos, e O comemos.
Deus é a raiz mesma da realidade. É a realidade por si mesma subsistente. É a realidade real por excelência. Duvidar da Eucaristia, portanto, é um contrassenso, pois é duvidar daquilo que é mais verdadeiro que qualquer verdade que conhecemos. Sob as espécies do Pão e do Vinho está aquele que disse: "Eu sou a Verdade" (Ego Sum Veritas).
Nós, que vivemos num mundo efêmero e frágil, que passa como um piscar de olhos, que é um momento entre duas eternidades, como bem o disse Sta Teresinha de Lisieux, ao receber a Eucaristia, recebemos Aquele que É, que não é suscetível de mudanças, que criou e sustenta todas as criaturas; Aquele ao qual tudo o que existe deve sua existência. Comemo-Lo e, ao fazê-Lo, sofremos uma espécie de adensamento da realidade. Nos tornamos mais nós mesmos, pois estamos comendo a própria Verdade. A Eucaristia, portanto, reforça o nosso ser, e tenderá necessariamente a iluminar a inteligência, permitindo-nos conhecê-Lo e conhecer-nos. Conhecer-nos é a raiz da humildade, que é início de qualquer virtude. A Eucaristia, assim, é causa eficiente de uma profunda dinâmica interior que culminará na santidade ou perfeita identificação com o Cristo, se o permitirmos. Não é outra coisa o que Ele mesmo diz a Sto. Agostinho:
"Ao comer-Me, não és tu que Me transformas em ti, mas Eu que te transformo em Mim."
Que mistério.. Uma criatura, abismo de nada, recebe em si mesma Aquele que é o tudo. Como pode um buraco na areia receber o oceano? Deus não pode, depois de recebido, não abrir a amplitude interior da alma, não torná-la grande, não estendê-la ao infinito, não dispô-la a Si. Se o recipiente torna o recebido semelhante a si, aqui se dá o inverso: é o recebido que adapta o recipiente. 
Neste dia de Corpus Christi, nós possamos contemplar o mistério absolutamente inefável da Eucaristia, o amor e a humildade vertiginosos que se comprimem ali, naquelas aparências tão vizinhas do nada, como dizia Sta Teresa D'Avila, e aceitar o fato de que não O vemos nem O entendemos. Não desejemos vê-Lo nem compreender tal mistério. Desejemos apenas amá-Lo e acreditar na Fé que nos diz que, naquele pequeno objeto frágil, magra hóstia branca, há um sobre-excesso de ser, uma raiz de eternidade, ou, como diziam os antigos, o remédio de imortalidade, pois, "quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna." (Jo 6,54)
Fábio