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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Os pais têm um grande papel e responsabilidade na orientação sexual dos filhos

Richard Cohen, terapeuta ex-homossexual
Richard Cohen é um famoso psicólogo norte-americano que afirma que se pode corrigir a tendência homossexual. Ele nega que se possa provar cientificamente que algumas pessoas nasçam homossexuais. “A biologia diz o contrário”, ele afirma. Acompanhe as indicações e esclarecimentos de Cohen na entrevista a seguir.
–O senhor tem dito que corrigir a homossexualidade não é curar uma doença. O que isso quer dizer?
Há diferentes razões pelas quais alguém sente atração pelo mesmo sexo. Portanto, se ajudarmos essas pessoas a identificar esses motivos e logo resolver cada um desses aspectos, elas não terão que sofrer com sentimentos homossexuais depois desse processo. Nós tentamos ajudar a resolver as causas para que essas pessoas cheguem a ser livres.
–Com que argumentos o senhor sustenta que a condição natural do ser humano é a heterossexualidade?
Simplesmente pela biologia, que demonstra que o homem e a mulher se complementam perfeitamente no aspecto físico. Qualquer homossexual provém de um casal heterossexual. Sabemos quais causas provocam a homossexualidade, portanto, podemos preveni-las.
–Em um programa de TV afirmaram que uma criança de 2 ou 3 anos é consciente de quando sua orientação sexual é diferente de seu sexo. Qual é a sua opinião sobre isso?
Tenho visto, como terapeuta e na literatura científica, que se uma criança atua ou desenvolve um comportamento não conforme ao seu sexo, é porque um menino é muito feminino ou uma menina é muito masculina. Temos comprovado que existem três gerações anteriores a essa criança em que não existem ou são muito escassos os vínculos entre pai-filho. Nesse sentido, ocorre igual na relação com as mulheres, pois é na quarta geração que uma menina atua de maneira masculina. Em definitivo, não nasceram gays, lésbicas ou transexuais.
São João afirma que quando os discípulos perguntaram a Jesus quem era culpado pela ausência de visão do cego, se o próprio cego ou seus pais, Jesus respondeu que nenhum dos dois, porque a obra e a misericórdia de Deus iam se manifestar através de sua enfermidade.
Portanto, essas crianças que atuam em desacordo com sua sexualidade podem ser a oportunidade para restaurar os vínculos de todas as suas famílias. Porque quando um menino pequeno gosta de brincar com Barbies, o pai deve se unir ao mundo do menino e lhe perguntar o que ele gosta nas Barbies. O menino lhe dirá que gosta dos cabelos ruivos, do vestido rosa… e o pai o apoiará nesses comentários, de modo a se unir ao mundo emocional do menino, que se sentirá acolhido e amado por seu pai tal como ele é. Nesse momento, o pai então levará o menino ao mundo da masculinidade e juntos eles irão brincar com esportes e brincadeiras masculinas.
Os pais que participam do mundo feminino de seus filhos, e as mães que participam do mundo masculino de suas filhas, com o tempo, comprovam que todas essas crianças regressam naturalmente à orientação sexual conforme ao seu sexo. Desta forma, estão restaurando uma maldição entre gerações de ao menos três gerações, nas quais quase não havia vínculo entre pai e filho e entre mãe e filha (nesse sentido, George Rekers publicou diferentes estudos). Portanto, não é verdade que um filho nasça gay ou uma filha nasça lésbica.
–O senhor declarou que foi homossexual. Vivia um mal-estar ao manter esse tipo de relações?
Eu vivi uma vida homossexual durante muitos anos. Tive vários namorados e com um deles vivi três anos. Depois de ser educado como judeu, este último era católico e amava Jesus. Através dele, acabei conhecendo e amando Jesus e compreendi que o Senhor age de maneiras misteriosas. Em determinado momento, lemos na Bíblia que Deus não aprova o comportamento homossexual. Eu fiquei muito chateado com isso, porque não queria parar. Mais tarde, nós decidimos não ter relações sexuais. Eu me converti ao catolicismo e pedi a Deus que tirasse meus sentimentos homossexuais. Fui durante nove anos celibatário, depois conheci a minha mulher e nos casamos, mas aquilo foi um inferno, porque eu não tinha resolvido a minha atração por pessoas do mesmo sexo, simplesmente havia reprimido.
–Como abandonou definitivamente a sua prática homossexual?
Busquei livros, cursos, seminários, terapeutas, padres… tudo que me ajudasse, mas ninguém entendia o problema em sua complexidade. Isso foi há 31 anos. Foi muito doloroso e demorado entender por que eu tinha atração pelo mesmo sexo. Entendi também que durante aqueles anos eu rezava errado, pois pedia ao Senhor: “tira de mim os sentimentos homossexuais!” Ele poderia fazer isso, mas não fez. A oração que eu deveria ter rezado era outra: “Senhor, ensina-me o significado de meus sentimentos homossexuais, porque eu os tenho”.
Ocorreu que o Espírito Santo me revelou uma por uma as razões pelas quais eu tinha atração por pessoas do mesmo sexo. Assim, comecei na terapia a tocar nesses pontos e recebi a aprovação e o afeto de homens heterossexuais. De forma natural, meus impulsos homossexuais desapareceram. Pedi que Deus me inspirasse o que queria de mim e discerni que me solicitava que retornasse à universidade, cursasse Psicologia, e passasse a ajudar outros que tivessem uma atração não desejada pelo mesmo sexo e apoiasse as suas famílias. Isso faz 27 anos. Assim, nos últimos anos, como terapeuta, ajudei milhares de pessoas que tinham uma atração não desejada pelo seu mesmo gênero a se converterem em heterossexuais.
–O senhor sofre perseguição de grupos homossexuais?
O movimento homossexual é como um edifício fixado em dois pilares. Em um dizem: “nós nascemos homossexuais”; e no outro dizem: “portanto, não podemos mudar”. E então apareço eu, ex-homossexual, casado, com três filhos, que atuo como terapeuta há 25 anos – nos quais ajudei muita gente – e afirmo que, cientificamente, não se pode demonstrar que uma pessoa nasça homossexual. Portanto, a mudança é possível, e assim eu destruo o edifício deles. E eles me odeiam.
–Explique brevemente em que consiste a sua terapia.
Há três passos para resolver a atração não desejada pelo mesmo sexo. O primeiro é revelar, identificar e compreender as raízes profundas dessa tendência. O segundo, resolver, sanar, abraçar cada uma dessas causas. A terceira é que homens homossexuais têm que ser curados por heterossexuais. Isto é, sentir-se queridos, que os aceitem como são; e igualmente no caso das mulheres homossexuais, que devem perceber que as apreciam incondicionalmente. Quando se realiza esse percurso, os sentimentos homossexuais vão diminuindo e os heterossexuais vão aparecendo.
A atração pelo mesmo sexo é o resultado de questões familiares, do entorno e do temperamento. Ninguém decide ter atração pelo mesmo sexo: são resultado de feridas e da necessidade de ser amado. As pessoas têm de ter esperança, para passar da atração pelo mesmo sexo a se converterem em heterossexuais, porque a mudança é possível. Esta é a liberdade de decisão: continuar por esse caminho ou explorar o caminho da possibilidade de mudança. Depende de cada um.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Importante passo rumo ao modelo venezuelano

COMUNICADO — Importante passo rumo ao modelo venezuelano
IPCO


COMUNICADO

Importante passo rumo ao modelo venezuelano


O País atravessa momentos de turbulência político-social, inéditos e perplexitantes. Tensões, boa parte delas induzidas, marcam o dia a dia do noticiário. A atmosfera psicológica do Brasil está saturada e nem sequer o clima, habitualmente distendido que cerca uma Copa do Mundo, ainda mais realizada em território nacional, escapou a tais deletérias influências.
A população tem assistido, estupefata, à realização de greves em serviços essenciais, muitas delas declaradas abusivas pela própria Justiça, que impõem graves inconvenientes e perturbações aos brasileiros ordeiros, que labutam e produzem nos grandes centros urbanos; tais greves têm gerado insegurança, que se traduz em depredações de bens públicos e privados e até em saques.
Grupos de chamados “sem-teto”, altamente treinados e organizados, inclusive com a presença de estrangeiros, invadem terrenos e prédios urbanos, sendo recebidos, após seus atos criminosos, por autoridades – até mesmo pela Presidente da República – tornando assim o poder público e a sociedade refém de seus desígnios ideológicos.
Marchas do MST e de reais ou fictícios indígenas, manipulados por ONGs ou instituições como o Conselho Indigenista Missionário-CIMI ou similares, fazem encenações de enfrentamentos com policiais, registradas em fotografias que percorrem o mundo, transmitindo a falsa idéia de um Brasil que se contorce em estertores sociais e raciais.
Por outro lado, grupos extremistas anti-sistema, estilo “Black Bloc”, promovem atos de protesto – por causas poucos definidas – espalhando a violência urbana, planejada e calculada, de modo a lançar o caos e atacar símbolos do capitalismo, no exercício do que qualificam como “ilegalidade democrática”.
Por fim, diante do alastrar-se de fatores de incompreensão e de indignação, nas camadas profundas da população, em relação ao governo da Presidente Dilma Rousseff e ao Partido dos Trabalhadores, vozes como a do ex-Presidente Lula tentam disseminar um clima de luta e de ódio de classes, tão avesso ao sentir do brasileiro comum.
*  *  *
É neste contexto tumultuado que surge um gravíssimo ataque às instituições e à ordem constitucional vigente, perpetrado através do Decreto presidencial nº 8.243, cuja efetivação poderia ser qualificada com uma tentativa de golpe de Estado incruento.
Editado pela Presidência da República no dia 23 de maio p.p., e publicado no Diário Oficial três dias depois, estabelece ele a “Política Nacional de Participação Social” e o “Sistema Nacional de Participação Social”.
Sob o disfarce de tratar da organização e funcionamento da administração pública – invocando para tal até dispositivos constitucionais – e alegando que o sistema representativo contém falhas, o governo do Partido dos Trabalhadores, via decreto, tenta implementar um novo regime de organização do Estado, o qual visa “consolidar a participação social como método de governo”.
Manejando habilmente sofismas e falácias sobre a “democracia direta”, valendo-se de definições e disposições vagas, o Decreto submete a Administração Pública, em seus diversos níveis, aos “mecanismos de participação social”.
Os “conflitos sociais”, como, por exemplo, invasões de terras, de imóveis urbanos, de demarcação de terras indígenas, – tantos deles gerados artificialmente – serão mediados por elementos do governo e setores da sociedade civil, controlados por “coletivos, movimentos sociais, suas redes e suas organizações”.
E a Secretaria-Geral da Presidência da República dirigirá uma burocrática e coletivista estrutura de conselhos, conferências, comissões, ouvidorias, mesas de diálogo, etc.
O Decreto 8.243 – que já chegou a ser comparado a um decreto bolivariano ou bolchevique – torna obsoletas as instituições do Estado de Direito, criando organismos informais (ou quase tanto) que condicionarão o Judiciário, o Legislativo ou o próprio Executivo.
Como é de conhecimento público, em grande medida tais “movimentos sociais”, “coletivos” ou grupos da dita sociedade civil são influenciados, orientados e financiados pelo Partido dos Trabalhadores, pela “esquerda católica”, bem como pelo próprio governo.
Fica assim instituído um sistema paralelo de poder, que consagra na prática uma ditadura do Executivo, na pessoa do Secretário-Geral da Presidência da República, atualmente o ex-seminarista Gilberto Carvalho, quem habitualmente faz a ponte entre o governo e a CNBB.
*  *  *
 A Presidente da República tenta desta forma impor ao País metas político-ideológicas do PT – alimentadas nos Fóruns Sociais Mundiais – e sempre repudiadas pela maioria dos brasileiros.
Desde há muito, certo tipo de esquerda – e sobremaneira a esquerda petista no poder, influenciada em maior ou menor grau pelo progressismo católico – tenta subverter o exercício do regime “democrático”. Fiel a suas velhas convicções socialo-comunistas, eriça-se contra as instituições do que qualifica de “democracia burguesa”, tentando vender a idéia de uma democracia direta e participativa, como mais autêntica e popular.
Já no primeiro mandato do Presidente Lula, enquanto o País estava embalado pela pseudo-moderação do projeto político de mudança do Brasil, expresso na Carta ao Povo brasileiro, o programa “Fome Zero” fazia uma primeira tentativa de instaurar no Brasil “conselhos populares” que, como alertaram certas vozes na época, mais não eram de que uma reedição dos conselhos da revolução cubanos ou dos coletivos chavistas.
Mais à frente veio a tentativa de controlar a imprensa pelo mesmo mecanismo de conselhos, manipulados por “movimentos sociais”.
O PNDH3, baseado numa vaga e abrangente política de Direitos Humanos, constituiu nova tentativa de impor ao País um controle da sociedade e das instituições do Estado, por conselhos.
Por ocasião das manifestações de junho de 2013, a Presidente Dilma Rousseff em discurso televisionado a todo o País, voltou a acenar com o tema da democracia direta e a “voz das ruas”. Veio, logo em seguida, a tentativa de impor ao País uma Constituinte específica para a reforma política.
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De todos os quadrantes da sociedade se têm erguido vozes que apontam o grave perigo criado ao futuro político do Brasil pelo Decreto presidencial nº 8.243. No Congresso Nacional há movimentos pronunciados para inviabilizar ou derrubar o referido Decreto. Outros setores ensaiam movimentos para recorrer ao Supremo Tribunal Federal, reclamando da inconstitucionalidade de tal Decreto.
O governo veio a público defender a medida, sempre baseado em subterfúgios e, segundo informa a imprensa, não está disposto a recuar. Aproveitando-se do período em que as atenções de muitas pessoas estão voltadas para a Copa do Mundo, contando ainda com já tão próxima campanha eleitoral, Dilma Rousseff e seus assessores no Planalto e no PT, parecem decididos a apostar no golpe institucional.
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Quando dos trabalhos da Constituinte de 1988, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou a obra “Projeto de Constituição angustia o País”. Nele alertava para o fato de que elementos de nossa classe política, divorciados dos verdadeiros anseios do Brasil profundo, iriam arrastando inexoravelmente o Brasil para o esquerdismo radical.
E admoestava ainda que cada vez mais raros seriam os partícipes da farândola reformista da esquerda, “ganhos gradualmente pelo sentimento de inconformidade e apreensão nascido, a justo título, das camadas mais profundas da população”.
O Decreto nº 8243 é, por certo, um grave exemplo dessa obstinação ideológica. A inconformidade, ainda que silenciosa, é também uma realidade que cresce, apesar das máquinas de propaganda tentarem menosprezá-la ou distorcer-lhe o sentido.
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira faz um apelo às forças vivas da Nação para que, num concerto geral dos espíritos clarividentes, alertem para o perigoso rumo ao qual nos encaminha o Decreto 8.243, obstruindo-lhe legalmente o caminho.
Caso não seja derrubado, o Decreto nº 8.243 terá operado uma transformação radical nas instituições do Estado de Direito, esvaziando o regime de democracia representativa, deixando o País refém de minorias radicais de esquerda e de ativistas, abrindo as portas para a tão almejada fórmula do atropelo e do arbítrio, típica dos regimes bolivarianos.

Adolpho Lindenberg
Presidente do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: http://ipco.org.br/ipco/noticias/comunicado-decreto-presidencial#.U68HFLFftLM

domingo, 22 de junho de 2014

Da obediência dos católicos ao Papa

La Civiltà Cattolica ano XXVIII, serie X, vol. I (fasc. 639, 20 genn. 1877), Florença 1877 pag. 257-272.

R.P. Raffaele Ballerini d.C.d.G.

I.

Entre os discursos públicos que o Santo Padre Pio IX fez no final do ano passado, o mundo cristão acolheu com os mais notáveis sinais de aplausos, como singularmente oportuno, aquele que ele dirigiu ao sagrado Colégio Cardinalício, agradecendo-lhes os respeitosos bons votos recebidos na vigília de Natal. Neste, de fato, após o esplêndido exemplos de virtudes que o Sagrado Colégio dá,  durante as angústias da perseguição, na qual, há muito tempo aflige a Igreja, chegou a pensar em seus inimigos internos que contribuem para esta aflição e sobre eles diz: «São poucos mas podem realmente chamar-se sediciosos, e juntamente com os externos são todos seduzidos e animados pelo espírito de orgulho e da soberba; e seja um como o outro, gritam e repetem em diversos tons: Non serviam». [Ier.II 20 Não servirei. Ed] Acrescentou que estes inimigos internos «agridem a Igreja com a voz e a caneta, imprimindo grandes ou pequenas publicações , mas todas com intenção de diminuir a autoridade da Igreja.  Algumas vezes são publicações anônimas, e surgem da escuridão de algum salão... Escrevem e falam por conta própria,  não tendo a missão: Ex semetipsis loquuntur, como dizia o próprio Jesus Cristo aos fariseus. [Ver. Ioann. VII, 18. Mons. Antonio Martini comenta: «Vers. 18. Quem fala de sua própria iniciativa, ec. Qualquer pessoa, sem ter sido mandada por Deus, se coloca a instruir pessoas, não o faz certamente, se não para adquirir glória ou outras vantagens humanas. Ao contrario, quem no seu ministério,esquecendo completamente de si mesmo, não procura outra coisa que a glória de Deus, este é certamente digno de fé, e é incapaz de trair os seus ouvintes.» Ed.] E de consequência andam às cegas, nubes sine aqua, [DIU. I, 12: "Nuvens sem água". Monsenhor Martini diz:: «Nuvens que prometem aparentemente águas abundantes de doutrina, mas são estéreis e inférteis e fáceis de ser transportadas pelo vento da sua leveza.» Ed] pregando erros em grande quantidade. Falam, mas não podem dizer junto com o Divino Mestre: Mea doctrina non est mea, sed eius qui misit me Patris». [Ioann. VII, 16: «A minha doutrina não é minha, mas Dele (o Pai) que me mandou» Ed.] Portanto, no seu nome e da Igreja lamenta a traição deste tipo de inimigo com a recordação das terríveis palavras: Filios enutrivi et exaltavi, ipsi autem spreverunt me [1]. [Is. I, 2.: «Eu nutri e exaltei meus filhos e estes me disprezaram.» O discurso do Santo Padre ao Sagrado Colégio Cardinalicio e ao patriciado romano de 24 dezembro 1876 foi publicado pelo Osservatore Romano n° 295 e pela Civiltà Cattolica serie X vol. I, Florença 1877 pag. 226-228. Ed.]
Este discurso recentemente divulgado, deu aos católicos uma boa impressão; e isso se manifestou nos seus diários, que deixaram transparecer uma certa curiosidade de conhecer determinadamente as indeterminadas alusões que este continha. Mas além disso, para quem vive fora de Roma, era difícil, muitos entenderam que não tinham que levantar o véu, com o qual o Santo Padre tinha discretamente coberto suas alusões: e isso muito mais do que a realização de um desejo, não era um ponto necessário, para compreender a importância e a oportunidade da palavra pontifícia. Que já a muito tempo, aqueles que, com o olho diligente, seguem o que acontece no campo católico, vinham observando e deplorando o astuto funcionamento, execrado pelo Santo Padre, para trazer o maior número de fiéis possível para a prática do Non serviam, que é a tentativa do campo inimigo. Pouco conta que os tentadores se chamem Fulano, Ciclano ou Beltrano, que sejam homens ou que sejam mulheres, que mostrem uma intenção ou outra, que vistam um hábito ou outro, escrevam livros grandes ou pequenos: o problema é que a obra de sedução e sedição procedia, não sem dano aos humildes e escândalo aos menos cautos. Não se tratava de pessoas, mas de princípios; e pressionava muito que a maldade e a estupidez dos seminadores da erva daninha fosse, por quem tem autoridade, reveladas aos católicos. E isto fez o Papa, no discurso mencionado acima.
Agora cabe a cada um de nós tirar o fruto que compensa. Que consiste, basicamente na verdadeira obediência ao Papa e à Igreja, que é a antítese perfeita do Non serviam, que gritam os adversários. E eles gritam com aparência de uma certa razoabilidade, assim, acreditamos um bom investimento  duas sinceras palavras, que desfaçam o mal-entendido ou o engano.
II.
Estes sediciosos, como o Santo Padre os qualificou, são também ditos por ele inimigos, porque levantam a bandeira oposta a àquela da Igreja, mas internos; mas internos, porque protestam de não querer declarar-se abertamente nem como heréticos e nem como cismáticos, e muito menos sair do aprisco de Jesus Cristo. Eles têm vários nomes, com o qual eles enfeitam o título de católicos, e se trocam entre eles com uma caridade que edifica. De si mesmos, então, fazem humildemente supor as coisas mais magníficas: estes são arcas da ciência, intelectos superlativos, que iluminam as mentes e também esclarecedores do mais alto grau. Doutrinas e virtudes são de casa. Este é o sinal manifestado daquele espirito de orgulho e soberba, do qual o Pontífice disse serem animados. Existem até mesmo alguns que convencidos de possuir uma espécie de mandato de Deus, para dirigir o Papa no governo da Igreja, e até mesmo para salvar o Papado e a Igreja do naufrágio. A verdade é que eles, animados pelo espirito de soberba,  são desequilibrados, e talvez mais dignos de pena que de reprovação.
Costumam chamar-se com o nome genérico de católicos liberais, que parece suficientemente apropriado, pelo que os caracteriza em um mesmo item, o qual é presente em todas suas variações de escolas e graduações comuns: isto é, a desobediência ao Papa. Ignoramos que outros os tenham descrito melhor, do que aquilo que fez o ilustre barão d’Ones Reggio, no seu discurso ao Congresso católico de Florença. « Estes católicos liberais, são aqueles os quais dizem que obedecem ao Sumo Pontífice, que doutor infalível define doutrinas da fé e da moral, mas podem não obedecer em todas outras matérias, nas quais ele decide. Por aquilo no qual obedecem são católicos, por aquilo no qual não obedecem são liberais. São um e são o outro, belamente junto e harmonizados, impecáveis pelos ditames de fé, impecáveis pelos ditames da razão. [2]».
Na qual descrição se encontram reunidas as raízes, por assim dizer, de todos sofismas e pretextos que estes alegam, para  dar aparência de honestidade à desobediência deles, o Non serviam que gritam ao Papa e à Igreja.

III.

Alguns mais teologizantes dos que os outros, pretendem de pesar com a balança do ourives os direitos do Papa, enquanto mestre da Igreja, de ser obedecido pelos fiéis, e a consequente obrigação que estes têm em professar-lhe obediência. E depois, o que deduzem? Que a obrigação verdadeira e estreita desta obediência, por eles chamada necessitas fidei, abrange unicamente à definição  ex cathedra, com todos e cada requisito indicados pelo cânone do Concilio Vaticano, mas não o resto, que é objeto da assim chamada por eles pietas fidei. Rigorosamente , portanto, não se pretende-se dos católicos nada além do que a  necessitas fidei; embora seja elogiada também a pratica da  pietas fidei. Estranha confusão de fórmulas e de conceitos, que parecem deliberadamente projetadas para confundir as cabeças da multidão!
Aqui precisa destinguir. Se por necessidade de fé se entende aquela que é necessária para ser um católico, e não cair formalmente em heresia, se concede que esta, como tal, não envolve nada além do que as verdades dogmáticas, definidas como tais pelos Concílios, ou pelo Papa ensinadas ex cathedra. Mas, se se entende aquela que é necessária para salvar a alma, ad salutem, se nega que não envolva também outras verdades, ainda que não sejam definidas dogmas de fé. Enquanto nos católicos a necessitas, ou seja, a obrigação de obediência ao Papa e à Igreja, não se limita somente àqueles casos nos quais a desobediência leva ao cisma e à heresia, mas ainda aqueles nos quais leva ao pecado grave. O corpo da doutrina católica tem muitas verdades, as quais aquele que se rebela não pode dizer-se herege, mas não pode nem sequer justificar-se da culpa mortal. E por isso, em cada curso mais elementar de teologia se explica a diferença entre verdade puramente dogmática e as verdades não propriamente tais, mas todavia de fé, ou pertencentes à fé.
Agora, que católico seria aquele, que teria a audácia de afirmar que a estas verdades seriam devidas, não a obediência de necessidade, mas àquela de piedade, quase como se aderir com o intelecto, o crer e professa-las, fosse um ato supérfluo de devoção e não dever de consciência? Os Romanos Pontífices condenaram um grande número proposições teológicas e filosóficas, as quais contradição não é certamente sempre dogma de fé ou de moral, e nem condenando-as seguiram sempre todas as fórmulas, expressas no cânon vaticano da infalibilidade pontifícia. No entanto, seria católico e seria saudável quem afirmasse: Todas essas condenações são matérias não da necessidade , mas da piedade da fé: portanto sera um bem se eu aceito como verdade, mas não será mal se eu rejeito como falsas?
Repetimos que opor a  piedade à necessidade da fé, sem límpidas declarações, que estabelecem a natureza e os limites de uma e da outra, e sem incluir explicitamente na necessidade também aquelas verdades, as quais, embora não sejam dogmas definidos, são porém verdades pertencentes à fé, é um modo de nós criarmos emaranhados , perigosos para a alma dos católicos menos instruídos, e fácil de se transformar em instrumentos de falácia e engano. De dupla serventia para o católico é a obediência necessária: uma de preservá-lo da heresia, a outra do pecado. Quem nega o Papa e a Igreja, primeiro além do pecado mortal de heresia, incorre, se o ato é externo, ao anátema que o separa da Igreja: quem nega a segunda, embora não incorra ao anátema, peca ainda este, mais ou menos diretamente contra a fé e perde a graça de Deus. A pietas fidei poderá envolver a perfeição ambas, mas certamente não tem relação com a substância daquela obediência, a qual transgressão implica grave ofensa à fé, e portanto, pecado mortal.
O mesmo se diga do uso ambíguo que se faz ao texto atribuido a S.Agostinho: In certis fides, in dubiis libertas, in omnibus caritas; que parece dizer que nas coisas certas são anexas somente as verdades dogmáticas, e nas duvidosas todas as outras. Isto seria um erro muito prejudicial e intolerável na Igreja de Cristo. Podemos chamar duvidosas, e de consequência livres, somente aquelas doutrinas em torno as quais não consta com certeza o sentido da Igreja. E sobre estas, de fato se propagam as frequentes disputas dos teólogos católicos. [3]. [ Recomendamos ardentemente a leitura desta nota. Ed.]

IV.

Outros, simulam um desejo escrupuloso de manter o dever de obediência ao Papa, dentro dos termos mais precisos, nos quais pelo Concílio Vaticano foi posto. Estes, de boca cheia ensinam, que o Pontífice, enquanto é mestre, não tem o direito de ser obedecido pelos católicos, se não somente acerca da doutrina de fé e dos costumes: e que para matérias políticas, sendo ao seu magistério subtraídas, são portanto livres cada um e independentes do Papa e da Igreja. In cauda venenum. O tóxico do sofisma é na anfibologia da consequência. As matérias políticas são subtraídas ao magistério do Papa? Adágio. Todas não, somente algumas. Aquelas não ligadas com a fé e com a moral, é verdade: aquelas que com a fé e com a moral têm um vínculo, uma relação, é falso. Portanto é falso a afirmação, em modo geral, que aos católicos as matérias políticas são livres, e que são por si independentes do juízo da Igreja e de seu Chefe.
Não seria o Papa mestre das doutrinas de competência específica relativas à sociedade civil com a eclesiástica? Não seria ele, por seu ofício, o juiz dos princípios morais, dos quais necessariamente tem de ser formada a política? Por acaso não cabe a ele apontar os erros e reprovar a iniquidade, que a política faz passar muitas vezes por ouro fino, por verdade e justiça? E se os católicos querem ser e parecer católicos, por acaso não teriam o dever de submeter-se, também neste caso, ao Papa e de aceitar a sua sentença?
Este artifício dialético, para subtrair teologicamente ao magistério do Papa uma quantidade de matérias importantíssimas à saúde do cristianismo, infelizmente é comum aos católicos liberais, que, por suas ambições e interesses tem a tendência de separar o máximo possível (com exceção, porém de certas conveniências) o Estado da Igreja, ou a moral da política. E que este seja o vício capital do sistema deles, o S. Padre Pio IX, muitas vezes deixou a entender e reclamou, e ultimamente ainda no seu Breve de 18 setembro 1876 ao Bispo das Trois-Rivières no Canadá, onde em termos expressos podemos ler: «Devemos louvar o zelo, com o qual vós tem se esforçado de preservar o povo contra as astutas ciladas do liberalismo que se diz católico, tão perigoso, enquanto, com aparência de piedade , induzem ao erro muitos homens honestos, e enquanto afastando-os da sã doutrina, especialmente nas questões, que a primeira vista, parecem interessar o poder civil e não o eclesiástico, estes enfraquecem a fé, quebram a unidade, dividem as forças católicas, e fornecem uma ajuda eficaz aos inimigos da Igreja, os quais ensinam os mesmos erros, embora com maior amplitude  e imprudência, e conduzem inexoravelmente os espíritos a ter em comum com eles desenhos perversos. [4]».
Estas palavras de autoridade do Papa vem a demonstrar a futilidade de um outro artifício mais cruel, que os adversários fazem uso: é desacreditar o dever de obediência dos católicos ao Papa, injuriando os apoiadores, como se estes exagerassem, falsificassem as condições e portanto pervertem a sã doutrina da Igreja.
Sim: nós escritores de revistas católicas mais devotos ao Papa e aos Bispos e mais estudiosos de defender, sob sua supervisão, segundo as nossas forças, a integridade da fé, corrompemos o dogma da infalibilidade pontifícia, porque afirmamos e afirmaremos, que ao Vigário de Cristo é devida a obediência, não somente quando define dogmas, mas sim quando em outras maneiras expõe a doutrina católica, e porque afirmamos e afirmaremos que objeto do seu supremo e infalível magistério são também todas matérias políticas, as quais são relacionadas com a fé e com os costumes. Por isso somos acusados de querer dominar a regra da fé, com intenção de ofuscar, de estragar, de torturar. Mas aquilo que afirmamos é invenção nossa ou  por acaso não é ensinamento de todos teólogos, e antes e depois a definição do Concilio Vaticano? E se é assim, quem pode nos reprovar? E a acusação de corromper a fé, que nos foi dada, não resulta em uma calúnia, desonrosa a quem a faz e não a quem recebe? Mas vamos além, não podemos nos perder combatendo contra o nevoeiro, nubes sine aqua,  como o próprio Santo Padre descreveu ser os cérebros orgulhosos dessas pessoas.

V.

Estes, que tanto afiam as mentes para mitigar a exigência de submissão ao Papa, naquilo em torno ao qual possui autoridade de magistério infalível, não é de admirar que manipulem , para mitigar naquilo, em torno o qual ele não pussui igualmente infalibilidade e autoridade. — “O Papa é falível, fora do seu magistério: portanto, nas matérias que não pertencem a este seu magistério, podemos não obedecer e permanecer católicos sinceros”. Este é o grito de guerra deles, contra quem tenta convencê-los a aceitar humildemente as prescrições do Papa.
Desculpa mais insensata do que esta não podiam alegar. Jesus Cristo não constituiu o romano pontífice seu Vigário somente para que ensine, mas também para que guie a sua Igreja: e a preeminência de Pedro não consiste só no poder supremo que ele tem de ensinar, no que é prioridade do magistério, mas também de governar, no que é a prioridade da jurisdição [5]. E este é o dogma essencial de fé católica , e quem não professa cai portanto em heresia juntamente com o cisma. Duplo, portanto é o oficio divinamente conferido ao papa por Cristo, no ministério comissionado por ele de apascentar o seu rebanho, quer dizer ofício de mestre e oficio de governante, é claro que todos fiéis são ainda vinculados à dupla obrigação de submeter-se a ele, seja no que se refere a um oficio como no que  diz respeito ao outro.
É verdade: o carisma ou dom da infalibilidade não foi concedido por Deus ao Papa, exceto no exercício do oficio de mestre da Igreja: e então? Então, porque o Papa não tem esse dom em seu governo eclesiástico, e pode em determinadas coisas, de fato, não relacionadas porém com a geral disciplina da Igreja e não relacionadas com a fé e com os costumes, errar, é admissível desobedecê-lo? Mas se a razão da obediência nas ordens sagradas, civis e domésticas fosse, não mais a posse legítima, e sim o exercício infalível da autoridade, o que seria da ordem humana no mundo? Os pais  não são infalíveis, então, os filhinhos poderiam legalmente desprezar os comandos. Os governantes políticos não são infalíveis, portanto os cidadãos e os súditos poderiam legalmente violar as leis. Os sacerdotes e os Bispos não são infalíveis, portanto os cristãos, ao regimento espiritual à eles sujeito, poderiam legitimamente não levar em conta alguma as ordens dadas por eles. A rebelião e a anarquia seriam perpetuadas e justificadas em todos os sentidos.
O absurdo dos corolários mostra as suposições dos quais derivam. O dever de sujeição aos poderes por Deus estabelecidos não tem raiz nas prerrogativas mais ou menos distintas dos quais estes podem ser dotados, mas na sua natureza intrínseca de emanação da autoridade de Deus, de seus representantes, dos delegados por Ele a recolher dos súditos aquele tributo de obediência, que Ele tem o direito absoluto de exigir, ou imediatamente por Ele ou por meio de outros: e até que estes poderes não se distorçam, pervertendo a ordem desejada por Deus e prescrevendo outras por Deus proibidas, estes tem o direito àquela obediência que os súditos devem à Deus, do qual fazem vez. Esta é a teoria racional e cristã de poder, promulgada nas Escrituras divinas e mantidas constantemente intactas pela Igreja. «Cada homem deve sujeitar-se a seu superior, porque todo poder vem de Deus, e quem resiste a Deus se autocondena. Aqueles que são revestidos de poder são ministros de Deus, e a estes ministros devemos obedecer, não somente para evitar a sua ira, mas também por consciência. [6]». Além do mais, o Apóstolo, em nome de Deus, intimava os fiéis, que em todo poder reconhecessem Jesus Cristo, e seus servos ao seu patrão, ainda que gentis, obedecessem como a Cristo. [7]. Ali foi originada no cristianismo aquela nobre obediência, que não é dobrar a vontade do homem a outro homem, somente porque é este ou aquele homem, mas unicamente porque representa Jesus Cristo, e movidos não pelo temor servil, mas pela consciência e pelo amor, e se levanta até o trono de Cristo-Deus, o homem, que por Ele a outro homem se sujeita. Esta é a obediência que podemos chamar e é a prática do amor à Jesus, amor em ato, o precioso laço que une a terra ao céu, um vinculo de união, nó abençoado de paz entre os homens, nos Estados, nas comunidades, nas familias: Haec est illa obedientia, quae concordiam conservat in angelis, tranquillitatem generat in civibus, sine qua Respublica stare non potest, sine qua familia aliqua regi non potest [8]. [«Haec est illa obedientia quae concordiam conservat in Angelis, pacem nutrit in monachis, tranquillitatem generat in civibus. Haec est illa obedientia, sine qua respublica stare non potest, sine qua familia aliqua regi non potest. —  Tal é a obediência que mantem a concórdia entre os anjos, que nutre a paz entre os monges e produz a tranquilidade entre os concidadãos, obediência sem a qual, um Estado não pode sustentar-se e sem a qual nenhuma família pode ser governada.» Ad fratres in eremo Sermo VII, S. August. Opera omnia (Migne) t. VI col. 1248-1249, Paris1861. Ed.]
Posto isso, que valor tem, moralmente e teologicamente, a bela razão dos adversários, os quais pensam de legitimar a sua desobediência ao Papa nas coisas viáveis, porque nestas o Papa não goza de infalibilidade assegurada por Deus nos ensinamentos? O bom senso natural é suficiente para julgar. É ilícito, segundo são Paulo, a desobediência de um servo cristão a um patrão gentil, será lícito aquela de um fiel católico ao Vigário de Cristo? Se nada valesse, a razão dos católicos liberais faria tremer os alicerces de cada ordem humana e cristã.
«Pode errar, observou com sabedoria o  Barão d'Ondes, no discurso acima mencionado, pode errar o Sumo Pontífice, mas passa esta lacuna essencial entre o Sumo Pontífice e os outros: que ele pode cometer erros no governo da Igreja, mas nunca erros que ofendam a fé e a moral, porque no ensinamento da fé e da moral é infalível, mas os outros podem cometer erros, e não raramente acostumados contra ambas aquelas: onde os erros do Sumo Pontífice não causam dano algum ao que mais importa para a saúde das almas, e também para o bem substancial da vida terrena, e podem atingir somente objetivos secundários. Esta sim é verdadeira, grande e inevitável garantia, que o governo do Sumo Pontífice dá ao universo e ao mundo! [9]»
Mas não há necessidade de discutir ainda mais e espalhar sofismas, que chama atenção dos menos especialistas na matéria. Tanto é que a solução para isso não se procura na lógica, mas na moral, proveniente do defeito e não do bom discurso, mas da boa vontade. E por isso o Sumo Pontífice demonstrou muito bem a origem, dizendo destes sediciosos «movidos e animados pelo espirito do orgulho e da soberba.» A desobediencia é filha primogenita da vanglória [10].Os católicos que se arrogam o direito de desobedecer o Papa, para poder serem liberais, não cederão nunca à dialética, se antes não cedem à humildade.

VI.

Por graça de Deus, estes inimigos internos (e nos advertiu o Santo padre) são poucos. Muitos já passaram notoriamente para o campo dos inimigos externos, e outros que parecem vacilar na borda da fossa, estão ali em torno mais por falta de imaginação que por maldade de coração.Na Itália, em particular, aqueles que não se envergonham do título de católicos, estão na maioria com o Papa, afeiçoadíssimos ao Papa e muito bem dispostos a obedecer em tudo o Papa. Esta é a verdade.
No mais, convém à eles estar em guarda de si mesmo e das armadilhas sutis, as quais o seus retos e bom ânimo são quotidianamente expostos. Vivemos no século satânico por excelência, uma vez que se caracteriza por ser o século da revolução universal, e é o único século, no qual foi louvado Satanás, porque rebelde a Deus. A desobediência, que é revolução, toma todas as formas possíveis, para que não vejamos transformada em dogma político, mas vejamos erguida à ídolo, no qual desejam forçar-nos todos a oferecer sacrifício. O católico do nosso tempo, precisa de fé viva e forte, para manter-se como se deve diante de Deus, diante da Igreja, diante do mundo. A fé tem de formar nele o critério prático e levantar o peito, contra o turbilhão de erros e os terrores que o cercam. O nosso século, esta acima dos outros séculos, é anti-cristão, porque acima de tudo, a autoridade é inimiga. Observe como são reduzidas as autoridades civis, o poder dos Estados nos nossos dias! É considerada como jurídica e inviolável a liberdade de fazer oposição a todos poderes, e de julgá-los independentemente . Acima de cada autoridade, pretende-se que esteja a assim chamada opinião pública, a qual, quando é alguma coisa, não é nada mais do que o julgamento coletivo de muitos cidadãos, cada qual responsável por um, embora tenha peso. Esta é a autoridade soberana do nosso tempo. E onde nasce o desprezo de todas autoridades, se não sempre de si mesma, certamente em quem foi investido e exercita publicamente os oficios. Infelizmente o desânimo no qual esta caiu, faz com que algumas vezes, em alguns países, na roda do leme do Estado estejam pessoas que deveriam estar remando nos banheiros, com o selo de condenado colados na testa. Mas, em suma o fato é este: o maior dos infortúnios de hoje é que, no conceito comum, autoridade social já não goza mais nem do caráter , nem da força, nem da reverência que desta não deveria nunca se separar.
Hoje, o perigo dos católicos, mesmo os melhores, é este: que sem perceber, se deixem levar pela corrente: e , ou se transformam em juízes da autoridade do Papa e da Igreja, como todos fazem com as outras autoridades, ou não se atrevem, por respeito humano, de demonstrar o seu respeito. Por isso cremos que seja muito necessária a fé, e estimamos que aos católicos nunca é demais repetir: sejais homens de fé!  State in fide [11].
A fé os lembrará constantemente , que a autoridade do Papa no mundo é de um tipo diferente de todas as outras, porque sobrenaturalmente divina na origem, no seu constitutivo, em seu exercício e no seu destino final. Em suma, a fé tem de mostrar a eles, no Papa o doce Cristo na terra, que santa Catarina de Siena não cansava de servir, de escutar, de venerar. Do mesmo modo em que nenhum católico ousaria julgar Jesus Cristo, se fosse visível no Vaticano, visivilmente dali governasse a Igreja, como de lá governa seu Vigário, assim ninguém ouse julgar o seu Vigário. Aquele que temerariamente o julga, o culpa ou o censura, fere nele a eterna majestade que ele representa. E aqui está a flor daquela fé, que nunca é demais recomendar: ver no Vaticano Jesus Cristo, e na honorável pessoa de seu representante, aquela adorável do seu representado. E lembre-se que Jesus Cristo não é um Rei constitucional, que separa a sua responsabilidade daquela do seu Ministro, e portanto, o Papa, em relação à Jesus Cristo não é um daqueles ministros constitucionais, que podem ser jogados na lama e lapidados pelos fiéis súditos, sem que o Rei cidadão se ofenda. Não, Jesus Cristo e seu Vigário, em ordem de instrução e regimento da Igreja, formam um inteiro, tanto que  estritamente falando é verdade, que Jesus Cristo instrui e rege Sua Igreja através do Papa, já que este moralmente vive no seu Vigário, e através deste transfunde em todo o corpo social da Igreja a vida. Então, ai daquele que toca no Papa! Ai daquele que não tem temor, respeito, e obediência!! Cada dardo lançado contra o Papa, atinge diretamente Jesus Cristo.
É questão máxima importância da fé, que deveria valer normalmente para todos os católicos, para regular bem as relações internas no coração e as relações externas das obras e da língua com o Papa. Feita a premissa, esta norma é muito fecunda de práticas e consequências, as quais cada um por si mesmo pode perceber.
Mas a principal de todas é a docilidade, e de uma docilidade filial e disposta, também naquilo que não é estritamente obrigatório, ou com discernimento das grandes mentes, parece menos produtivo aos interesses da Igreja e do papado. A fé nos diz que, com Deus, o mérito de obediência é tanto maior, quanto é menor, em quem exercita os atos, o dever de exercita-los todos. A mesma fé em seguida nos adverte, que a graça de conhecer e avantajar os interesses da Igreja, Deus não dá às grandes mentes, mas ao Seu Vigário na terra: e que somente ele tem iluminação para o efeito, porque somente ele recebeu Dele o ofício de apascentar e governar Seu rebanho. De grandes mentes, quando humildes e obedientes, o Senhor está acostumado a confiar o serviço não ordinário da Igreja, mas quando são rebeldes e orgulhosos, Ele faz o que fez com Lúcifer, o intelecto mais sublime que saiu da onipotência da Sua criação. O governo da Igreja de Jesus Cristo não é comissionado aos grandes gênios, mas ao Papa, e mais luz tem o Papa, para enxergar quem se adequa ou não se adequa à Igreja e à Santa Sé que todas as grandes mentes do mundo reunidas em uma só. O que os católicos tem que ter bem presente no ânimo, com mais frequência, é que no fim, estes grandes gênios, os quais pretendem dirigir o Papa, são, como bem os definiu o Santo Padre em outro discurso mais recente, « cabeças exaltadas, que se deixam guiar pela imaginação e por orgulho e não por reflexão [12].»  E isto é precisamente o que faz rationabile obsequium nostrum [nossa obediência racional. Cfr. Rom. XII, 1. N.d.R.] ao Pontífice, também em matéria de política eclesiástica , as quais não são claras à prudencia humana: a certeza que o Pontífice tem de Jesus Cristo a graça de estado, para ver claro aonde a humana prudência enxerga escuro, e para obter o bem da Igreja com meios, que não raramente parecem ser o melhor modo para fazer politica.
Nem tenham medo os católicos de cair no excesso de obediência ao Papa, que alguns fariseus do catolicismo liberal, com simulação estudada, fingem ter, pois faz mal «às almas»: e por isso contra os jornalistas, promotores fervorosos desta obediência, lançam as flechas mais envenenadas dos seus aljavas jansenistas. Nessa matéria, o excesso, não só não é temível mas nem mesmo possível. Um excesso de obediência cristã e verdadeira, como aquela que nós falamos, se reduziria a um excesso de amor por Jesus Cristo, isso é, a um excesso daquela virtude que, única entre todas, não é capaz de excessos. O pharisaei hypocritae, [O fariseu hipocrita N.d.R.] Você ainda pode participar de uma culpa assim tao bela!

VII.

É um bem desejar que os católicos da Itália se aperfeiçoem mais ainda nessa fé e obediência ao Papa, que tem de ser o centro comum da união de ação religiosa  junto à politica, para a salvação da pátria. Já vemos com prazer o quanto prevaleça entre eles, e especialmente entre os mais influentes e laboriosos, o conceito que na Santa Sé se identifica com a causa não menos sagrada que civil da Itália. E consideramos digníssimo de louvor os valorosos escritos do Osservatore cattolico de Milão, os quais, com zelo igual ao saber, os defendem e ilustram. As condições dos católicos na Itália diferem daquela dos católicos na França, na Espanha e na Bélgica e de outros países, no fato de que muitos de seus atos políticos, como tal, são a estes livres, porque não contrariam direitos e razões de ordem religiosa, quando aos católicos da Itália muitos destes atos não são livres, porque são opostos à prescrições jurídicas da Igreja ou a proibições pontifícias, que antes de tudo e acima de tudo devem observar. Este é o efeito particular no qual se encontra a Península, por ter no seu ventre a Sede de são Pedro, agora despojada pela Revolução que domina Roma e detém o Papa apertado neste cerco hostil, sub hostili potestate constitutum. Motivo pelo qual ao querer concordar a consciência e os deveres católicos com aqueles de cidadãos, é necessário que os italianos tomem, nas suas operações religiosas e civis, endereço pelo Papa.
Pode parecer dura esta necessidade aos espíritos ambiciosos, porque gostariam de usar a fé para superar a sua soberba mundana; dura aos sonhadores de transformações opostas aos conselhos de Deus, dura aos interessados aos frutos de um capital que, sendo, como aquele conquistado por Judas, pretium sanguinis, [a preço de  sangue. Matth. XXVII, 6 Ed.] como aquele é maldito também pelo céu: mas ao invés, é estimado pelos outros, que na tiara de Pedro vêem o simbolo histórico e providencial da paz e da grandeza da Itália. Porém o nó que liga a Itália ao Papado não é feito pelos homens, mas é formado evidentemente por Deus. E até mesmo sobre este laço tem de cumprir-se , que Quod Deus coniunxit homo non separet [13]. [O homem não divida aquilo que Deus uniu.Ed.] A nacionalidade não pode, portanto ser nunca uma razão de separar um do outro: e já que, por tal pretexto, uma separação moral ou material ocorra entre eles, será causa de males e danos gravíssimos até que persevere. E a experiência atual o demonstra. O que ganhou a Italia com a rebelião de quase 20 anos dos seus governantes com a Santa Sé? Fome, servidão e delitos. Dos tempos dos barbaros até hoje, nos anais da historia não constam uma miséria maior do que esta, que corroe e consome a Itália que quiseram arrancá-la das mãos do Papa.
Os católicos italianos, portanto, no qual queima no peito o amor não somente pela religião, mas também pela pátria, devem alegrar-se que Deus tão providencialmente  uniu o destino político da Península com aquele do papado, que aos direitos de um não se pode insultar sem prejudicar o outro. Este é o único privilégio do nosso país: mas assim feito, nos pede, em troca, o tributo de respeito particular à Santa Sé. Se para obedecer ou referir a esta, não soframos se somos forçados a renunciar , na guerra politica, a uma estratégia que poderia parecer eficaz, mas não é conforme os direitos ou querer seus. Isso prova que Deus tem desenhos ocultos e dispõe a vitoria por outros caminhos.
Além disso, dizemos todos os dias, que sem uma intervenção especial de Deus, a vitória da justiça pacificadora da Itália, foge à todas previsões humanas. Mas qual titulo mais válido, para obter esta intervenção, qual o argumento mais sólido, para esperar de obtê-lo, que sacrificar temporariamente a Deus nosso zelo, a nossa coragem e parte das nossas armas, para obedecer melhor ao seu Vigário na terra?

NOTAS:

[1] V. l'Osservatore Romano de 27 decembre 1876.
[2] Discursos e propostas do barao Vito D'Ondes Reggio no segundo Congresso catolico italiano,em Florença, em setembro de 1875. Florença 1875, pags. 5-6.
[3] De modo muito belo e erudito, em seu habitual, monsenhor Francesco Nardi escreveu sobre este assunto, em uma carta para o diretor da Univers de Paris: « O famoso texto atribuido a Santo Agostinho, e é como a palavra de ordem dos católicos liberais, nao se encontra nas obras genuinas do santo Padre.
«Além do que, aquele texto,  que acredito ser de um polemista alemão no tempo da falsa Reforma, não expressa uma ideia justa e cuidada. Tomando no sentido que se apresenta mais óbvio, significaria que, com exceçao dos dogmas: in certis fides, o resto é livre: in dubiis libertas. Digo com exceção dos dogmas, porque somente os dogmas são objetos de fé (manifestamente claro que o escritor quis dizer por fé aquela teologicamente dita fé catolica). Agora, talvez , fora dos dogmas o resto é livre? Nao, nao nenhum pouco.
« Há muitas verdades que são ensinadas pela boa doutrina tradicional da Igreja, e que sem os dogmas, e quem mesmo não sendo dogmas, devem ser aceitadas e devemos crer, e não somos livres de rejeitar. Negando-as, não somos hereges, mas mestres imprudentes e maus. Eu não admito a prática deste principio: in dubiis libertas. In dubiis, eu diria examen e iudicium, e se quiseres adicionar também um pouco de humilitas, non seria mal.
«Quanto à caritas, voces sabem alguma coisa, e eu também não desconheço. Em geral, as pessoas mais gananciosos desta mercadoria costumam ser aqueles que gostariam de ter o monopólio». V. Univers 7 janeiro de 1877 e La Voce della Verità de Roma 11 de janeiro de 1877.
[4] Ver este volume. pags. 116-17.
[5] Pontificem Romanum verum Christi Vicarium, totiusque Ecclesiae caput, et omnium christianorum patrem ac doctorem existere; et ipsi in beato Petro pascendi, regendi et gubernandi universalem Ecclesiam a D. N. Iesu Christo plenam potestatem traditam esse. Assim definiu o Concilio ecumenico de Florença, depois que outros Concilios anteriormente tinham definido o mesmo dogma. As quais definiçoes , todas reconfirmaram o Concilio Vaticano, ao definir que declarou também o dogma da infalibilidade inerente ao magisterio pontificio. [«Item diffinimus, sanctam Apostolicam Sedem, et Romanum Pontificem, in universum orbem tenere primatum, et ipsum Pontificem Romanum successorem esse beati Petri principis Apostolorum et verum Christi vicarium, totiusque Ecclesiae caput et omnium Christianorum patrem ac doctorem exsistere; et ipsi in beato Petro pascendi, regendi ac gubernandi universalem Ecclesiam a Domino nostro Jesu Christo plenam potestatem traditam esse; quemadmodum etiam in gestis oecumenicorum Conciliorum et in sacris canonibus continetur. — Definitmos também que a santa Se Apostólica e o Romano Pontifice detém o promado sobre toda a terra, que o mesmo Romano Pontífice é o sucessor do bem-aventurado Pedro príncipe dos Apóstolos e verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a Igreja e pai e mestre de todos os Cristãos; e que ele, no bem aventurado pedro, foi dado pelo nosso Senhor Jesus cristo plenos poderes de apascentar, reger e governar a Igreja universal, como também è dito nos Concílios ecumênicos e nos sagrados cânons.» Concilio de Florença, Sess VI (6 julho 1439). DB 694. Ed.]
[6] Omnis anima potestatibus sublimioribus subdita sit, non est enim potestas nisi a Deo.... Qui resistit potestati, Dei ordinationi resistit. Qui autem resistunt, ipsi sibi damnationem acquirunt... Dei enim minister est... ideo subditi estote, non solum propter iram, sed etiam propter conscientiam. Rom. XIII, 1-5.
[7] Servi, obedite dominis carnalibus... in simplicitate cordis vestri, sicut Christo. Non ad oculum servientes... sed ut servi Christi, facientes voluntatem Dei ex animo, cum bona voluntate servientes, sicut Domino et non hominibus. Ephes. VI, 5-7.
[8] S. Augustin. Prosec. [Ad fratres in eremo Sermo VII, S. August. Opera omnia (Migne) t. VI col. 1248-1249 Paris 1861 N.d.R.]
[9] Disc. cit. pags. 9-10.
[10] Inobedientia prima filia est inanis gloriae. S. Antoninus, Par. II, tit. 4, cap. 2.
[11] I Cor. XVI, 13.
[12] Ver,  no Osservatore Romano de 9 janeiro de 1877, o discurso da Sua Santidade aos peregrinos italianos, no dia da Epifania deste ano.
[13] Matth. XIX, 6.

PARA CITAR

BALLERINI, Raffaele. Da obediência dos católicos ao Papa - Disponível em: < http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/699-da-obediencia-dos-catolicos-ao-papa >. Desde: 20/06/2014. Tradução: Gabriela Arenare.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Belle Époque — esplendores e contradições

Belle Époque — esplendores e contradições

Nelson R. Fragelli

Transcorrida entre 1870 e 1914, foi uma época brilhante, na qual infelizmente o mito do progresso gerou novos estilos de vida, incompatíveis com a moral, o esplendor e a cortesia



Duas impressões vêm à mente da maior parte das pessoas quando pensam na Belle Époque. De um lado, as roupas femininas — saias longas, apertadas na cintura, chapéus largos, a sombrinha não podia faltar. E os trajes masculinos — fraque escuro e cartola. Ainda hoje, em ocasiões de gala, os homens usam esse traje como sendo o máximo da elegância.



Indissociavelmente ligadas a tal modo de vestir ficaram na lembrança as boas maneiras e a cortesia. Eram nas festas, recepções, concertos que essa distinção de trato encontrava o ambiente próprio a se desenvolver e encantar a sociedade. Não havia maior prazer do que a conversa.


A arte de conversar era então das mais cultivadas. No centro dessa arte estava a cortesia. Isto é, a consideração pela dignidade própria ao interlocutor, fosse ele sacerdote, nobre ou pessoa do povo. A escolha do assunto? — se é que se pode falar de escolha, pois ele surgia segundo a ocasião social, iluminando-se gradativamente, suavemente, como o acender das velas por lacaios em libré, lustre após lustre, naqueles salões. O desenvolvimento do assunto e a escolha das frases, isto sim, era circunstancial, fazendo da conversa uma obra de minuciosa composição temática. Uma obra que encantava.





Ritos como numa liturgia temporal

Que críticas não se deviam fazer em determinado ambiente? Ou em que medida fazer elogios? Em caso de uma discussão, como manter a elevação da conversa? Caso se tratasse de convite para um jantar, por exemplo, que flores oferecer e com que traje comparecer? Como se servir dos talheres, do guardanapo, dos vinhos? Terminada a refeição, prescreviam os ritos sociais conhecer o momento oportuno de se retirar, a fim de nem sobrecarregar a hospitalidade dos anfitriões com uma conversa muito longa, nem dar a impressão de aborrecimento, retirando-se apressadamente.

Todos os atos da vida social eram organizados segundo regras — flexíveis de acordo com o bom senso, é claro, mas que constituíam uma verdadeira liturgia da vida civil — cuja finalidade era dar ao próximo respeito, reverência e honra. Havia então uma ordem de valores que unia a todos da sociedade e essa ordem era superior aos interesses ou aos prazeres individuais. Essa liturgia era um resto da antiga caridade cristã, ensinada pela Igreja, e cujo modelo tinham sido as interlocuções dos monges nos mosteiros e nas abadias. Havia um momento da vida monacal dedicado à conversa — e ela era obra de santificação — que ensinava a dominar as inclinações e controlar a vontade própria em favor do próximo. Primava a caridade.

Assim, na Belle Époque, foi a amenidade e a elegância da vida social que a tornaram bela. A vida de salão atraía irresistivelmente a todos, porque no contacto humano a cortesia dá um prazer durável. A cortesia é o melhor portador de respeito e amizade: dois sentimentos que confortam a alma. A distinção orienta o homem no sentido diáfano do anjo.

Um episódio muito ilustrativo da época

Talvez um exemplo faça luz sobre a cortesia de então. Nos primeiros anos do século XX, em plena Belle Époque, chefiava Joaquim Nabuco a Missão Diplomática do Brasil em Londres. Pertencente a uma família de políticos, intelectual de renome, tomado por abstrações filosóficas e políticas, Nabuco era conhecido por suas distrações. Tendo recebido convite, belamente impresso, para jantar em casa de outro embaixador, esforçou-se por chegar à hora, pois embora a pontualidade não estivesse de modo algum em seus hábitos, na Inglaterra ela sempre foi rigorosamente exigida. Recebido pontualmente pelo mordomo, teve entretanto de esperar um tempo mais longo do que habitual até que aparecesse o embaixador, acompanhado de sua senhora. Amabilíssimos, contentes com a presença de Nabuco, mestres na arte de receber, incitaram-no a falar — desde sobre florestas exóticas do Brasil até os movimentos sociais da recente República — o que muito lhe agradou. Terminados o jantar e a animada conversa, o casal o acompanhou até a saída, e ao abrir-lhe a porta do cabriolé, disse então o diplomático anfitrião, com ligeira inclinação: “Prezado Doutor Nabuco, segundo o convite que tivemos a honra de lhe enviar, nós o aguardamos então, amanhã, para o jantar”. Nabuco tinha se enganado de data e comparecido um dia antes...
Salões e a nobre arte da conversa

Não surpreende que, em razão dessa amenidade de trato, nas grandes cidades européias os salões se multiplicavam em todas as classes sociais. A elite, em seus palácios, discutia arte e literatura, ambas em rápida transformação. Política era também um tema central. Monarquistas afeitos às belas e boas tradições enfrentavam os republicanos imbuídos de suas idéias de progresso e reformas sociais. Os salões burgueses se reuniam nos cafés. Escritores e poetas frequentavam cafés literários; professores e cientistas os cafés universitários. As novidades científicas empolgavam, pois as descobertas e invenções se multiplicavam. Na medicina surgiam novos remédios e métodos cirúrgicos. Em todos esses salões cintilavam inteligências. Quando o clima permitia, sobretudo na primavera e no verão, concertos e espetáculos ao ar livre reuniam nos grandes parques e jardins pessoas provenientes dos mais variados salões. Paris e Berlim ofereciam jardins cujo elevado bom gosto se refletia para os paulistanos no Parque da Luz e no Parque Antarctica, e para os cariocas na Praça Paris.
“Salões” nas pequenas cidades e aldeias

Havia também “salões” — talvez os mais autênticos — nas pequenas cidades e nas aldeias. À saída da Missa, pequenos grupos de pessoas se reuniam num café ou em casa de uma delas, quando não os recebia o chefe político local. A literatura, as artes, a ciência não constituíam os grandes temas das conversas. O centro das atenções era a vida do lugar. Uma cabra desaparecida, uma onça vista à noite ao lado do curral, o incêndio no paiol do vizinho, a chegada do novo pároco, rumores de que ladrões vindos de longe rondavam a região, narrativas de caçadas eram assuntos próprios a inflamar as conversas. Por vezes as reuniões se davam também durante a preparação das festas religiosas ou das procissões solenes. Desses encontros até crianças participavam, ouvindo silenciosamente, aprendendo com os mais velhos. Não havia rádio. A televisão estava ainda mais distante. Não havia, portanto, a excitação das novidades e a ânsia comercial despertada pela propaganda. As pessoas assim se preservavam, conservando o caráter autêntico de sua família e de sua região, sendo cada uma delas uma personalidade rica em particularidades. Precisamente esta riqueza tornava interessante o contacto, pois de que vale encontrar-se com pessoas padronizadas pela propaganda, tal como cada um dos outros? Se nesses “salões” a delicadeza cortês e as sutilezas de linguagem podiam não ser a nota dominante, como na capital, a autenticidade das almas oferecia uma variedade de caracteres também ela encantadora. Este esplendor das relações sociais conferiu à Belle Époque seu qualificativo de bela, tornando-a inesquecível.
Invenções modernas e mudanças sociais

Entretanto, havia o outro lado — realidade contraditória com o encanto social da Belle Époque. Ela representa a segunda impressão que logo vem à lembrança, ainda hoje, quando pensamos naquele período entre 1870-1914. Essa realidade se apresentou insidiosamente às pessoas de então, sob a máscara atraente do enorme progresso técnico. As cidades grandes foram as primeiras a adotar as invenções: eletricidade, telefone, rádio, cinema, bicicletas, automóveis. As conquistas da tecnologia entusiasmavam. Os olhos se enchiam de lágrimas ao verem os primeiros balões dirigíveis contornar as torres das catedrais ou ao se ter notícia, na Patagônia ou no Saara, da vitória japonesa em Port Arthur, no momento em que as armas ainda fumegavam: o telégrafo dava ao homem um novo senso de sua presença na Terra. Acreditava-se que a máquina a vapor e a eletricidade dariam ao mundo uma forma de felicidade nunca antes obtida.

Acontece que o progresso técnico trazia em seu bojo profundas mudanças sociais e morais, dele inseparáveis. Poucos viram esse perigo. Desejava-se juntar ao esplendor social os confortos trazidos pela técnica.

Mas a máquina, trazendo velocidades e a produção em massa, minava a sociedade. O trem — e logo depois o automóvel — trouxe o gosto pelas viagens — nascia o turismo, visitavam-se estações balneárias e montanhas desconhecidas da maioria. Consequentemente incrementava-se o esporte e com ele a modificação dos trajes, adaptados às novas maneiras e sempre tendentes a considerar como aceitável o que até pouco antes era visto como imoral. O esporte separava as gerações, pois os mais velhos ainda não os praticavam em razão das normas do decoro: como era ridículo ver alguém de fraque e cartola pedalando bicicletas! Com o esporte vieram as danças cujo ritmo parecia competir com a velocidade das máquinas, acelerando-se sempre, sempre mais sensuais. Do minueto passara-se à valsa, da valsa ao charleston e ao tango. A indústria empregava moças e elas, ainda então ligadas aos círculos da família paterna até o casamento, passaram a trabalhar como operárias ou secretárias, tornadas independentes pelo salário. Aumentavam as uniões fora dos laços sagrados do matrimônio cristão, apareciam os primeiros casos de divórcio, caía a prática religiosa. Em vários países europeus aumentava a prostituição. A glorificação das velocidades intoxicou os espíritos que passaram a se distanciar de toda forma de recolhimento. Entre os balões dirigíveis e a torre da catedral, esta passou a representar o passado petrificado enquanto os dirigíveis simbolizavam o futuro, o movimento, pois eles permitiam o descortino de horizontes mais vastos.
Utopia socialista, desluzimento de uma bela época

Politicamente, os republicanos oriundos da Revolução Francesa viam com simpatia os novos costumes. Sabiam que a decadência moral dos anos precedentes à Revolução de 1789 tinha sido uma das principais causas da vitória revolucionária. Partidários do progresso e da técnica consideravam os restos de tradições cristãs como incompatíveis com os novos tempos. Essa mesma corrente evoluía, aos poucos, rumo à aceitação da utopia socialista.

Tanto os aficionados à elevação social daqueles anos, na qual viam um ideal a ser conservado, quanto os partidários do progresso tiveram enorme sobressalto com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em meados de 1914. Os primeiros viam no terrível conflito a destruição de tradições tão preciosas e belas. Os outros, por reconhecer no progresso o criador de máquinas mortíferas nunca antes fabricadas. A brutalidade da Guerra sufocou na lama das trincheiras e nos gazes mortíferos a beleza daquela época. O mundo nunca mais voltou a ser o que era. O esplendor social empalideceu para em seguida entrar em obscuro ocaso. Hoje, em meio às frustrações de uma sociedade altamente tecnológica e vazia de conteúdo moral e religioso, um número crescente de pessoas admira o esplendor e lamenta o desaparecimento daquela doce liturgia que no convívio da Belle Époque regulava os atos de cortesia.

Veja:
Revista Catolicismo
Fonte: Fundadores

terça-feira, 20 de março de 2012

Um católico com cara de protestante.

Um católico com cara de protestante.

Trechos da entrevista concedida ontem por Gabriel Chalita, pré-candidato do PMDB à Prefeitura de São Paulo, ao portal Terra (em vídeo aqui):
Dois dias antes da entrevista em que defende a união civil entre homossexuais, Chalita faz uma das leituras na Missa da Paróquia São José, no bairro do Belém, em São Paulo.


Dois dias antes da entrevista em que defende a união civil entre homossexuais, Chalita faz uma das leituras na Missa da Paróquia São José, no bairro do Belém, em São Paulo.

Sobre o aborto e a polêmica a este respeito na corrida presidencial de 2010:

“Eu acho que foi muito feio o que aconteceu na eleição presidencial. Eu não tenho problema em responder questão de nenhuma ordem. Mas o que aconteceu na eleição presidencial [...] de repente teve um reducionismo na eleição presidencial de uma discussão religisoa que nasceu de boataria de internet.”

“Eu sou um candidato, eu sou uma pessoa religiosa, nunca escondi isso de ninguém, eu frequento a Igreja, sou católico, tive num evento nos evangélicos nessa semana, e uma evangélica falou assim: nossa, você tem a cara dos evangélicos.”

“Eu sou contra o aborto, porque eu acho que você vai diretamente contra a vida. Eu não mudei, eu continuei defendendo isso, mas a presidenta Dilma disse o seguinte: ‘no meu governo não terá aborto’. E não tem. Ah, agora ela colocou uma ministra que é favorável ao aborto; sim, mas uma pessoa no governo ser favorável ao aborto não significa que o governo vai nessa linha, nessa direção. Eu não tive nenhuma mudança de percurso nessa minha trajetória política, o que houve foi essa quantidade de boatos que tentou colar nela a imagem de uma pessoa que era contra a vida.”

O Fratres in Unum gostaria de refrescar a memória do pré-candidato Chalita:

Sobre a união civil entre homossexuais:

“Maria, acho que esse é um tema fundamental. Eu fico muito à vontade para falar sobre isso porque em todos os meus livros, aí vem a questão do afeto ou os livros sobre a ética, livros que foram traduzidos. Eu tenho uma visão que eu acredito profundamente que a dignidade da pessoa humana, o respeito ao ser humano devem nortear todas as ações na área pública e na área privada. Então, é inadimissível que uma sociedade não consiga conviver com uma pessoa que seja diferente. Qualquer tipo de preconceito, qualquer tipo de intolerância deve ser perseguido, devem ser banido da área pública. Eu tenho o maior respeito pelas pessoas que tenham uma orientação sexual diferente. Acho que o Supremo já decidiu a esse respeito, dando o direito da união civil de pessoas do mesmo sexo.

- O senhor é favorável a isso?”

“Sou favorável a isso. Acho que isso já está decidido, discutido. Agora a questão do casamento religioso em igrejas, nem me parece que isso seja alguma coisa que essa comunidade queira, que os homossexuais queiram. Aí tem que respeitar a Igreja”.

* * *

Aproveitamos a oportunidade para recordar alguns princípios que deveriam ser seguidos por todos os católicos — o que incluiria o senhor Chalita, apesar de ser a cara dos “evangélicos” — e enunciados pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, atualmente Bento XVI:

“Onde o Estado assume uma política de tolerância de facto, sem implicar a existência de uma lei que explicitamente conceda um reconhecimento legal de tais formas de vida, há que discernir bem os diversos aspectos do problema. É imperativo da consciência moral dar, em todas as ocasiões, testemunho da verdade moral integral, contra a qual se opõem tanto a aprovação das relações homossexuais como a injusta discriminação para com as pessoas homossexuais. São úteis, portanto, intervenções discretas e prudentes, cujo conteúdo poderia ser, por exemplo, o seguinte: desmascarar o uso instrumental ou ideológico que se possa fazer de dita tolerância; afirmar com clareza o carácter imoral desse tipo de união; advertir o Estado para a necessidade de conter o fenómeno dentro de limites que não ponham em perigo o tecido da moral pública e que, sobretudo, não exponham as jovens gerações a uma visão errada da sexualidade e do matrimónio, que os privaria das defesas necessárias e, ao mesmo tempo, contribuiria para difundir o próprio fenómeno. Àqueles que, em nome dessa tolerância, entendessem chegar à legitimação de específicos direitos para as pessoas homossexuais conviventes, há que lembrar que a tolerância do mal é muito diferente da aprovação ou legalização do mal.

Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimónio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objecção de consciência.
Fonte: Frates in Unum

Nova Evangelização: a pregação descolada, ridícula e imoral da nova estrela carismática do Brasil. Com a chancela da Canção Nova.

Nova Evangelização: a pregação descolada, ridícula e imoral da nova estrela carismática do Brasil. Com a chancela da Canção Nova.

Apresentamos a nossos leitores o Padre Chrystian Shankar, da diocese de Divinópolis, MG, e sua “fenomenal” obra de evangelização. A Canção Nova, onde já pregou, tem suas palestras vendidas, celebrou missa e se tornou mais um parceiro-padre-estrela, apresenta o digníssimo sacerdote mais detalhadamente, de batina e tudo! Aliás, o site do Padre ainda traz anúncios de “formação católica”, “em defesa da fé”…

Padre faz sucesso no YouTube ao dar 10 conselhos para arrumar namorado

Crystian Shankar já é um fenômeno de acessos no You Tube

O Impacto – O padre Chrystian Shankar se tornou um fenômeno de acessos no YouTube com um vídeo fora do comum. O sacerdote de Divinópolis, no interior de Minas Gerais, dá 10 dicas para os fiéis conseguirem uma namorada(o). Com o título “10 desejos para quem deseja arrumar alguém”, o vídeo se aproxima da marca de 500 mil visualizações.

Com uma linguagem informal e até mesmo com gírias, o padre Chrystian compartilha com os fiéis da igreja os ensinamentos para quem busca um par romântico. O sacerdote consegue arrancar risos e aplausos da platéia com as sugestões.

Confira as 10 dicas do padre e assista ao vídeo na íntegra:

1- Livre-se do ditado “namorado e namorada não se arruma na noite”

2- Procure nos lugares certos.

3- Quem fica com todo mundo acaba ficando sem ninguém.

4- Cuidado com a maneira como você se veste.

5- Evite sair só com pessoas encalhadas.

6- Tenha resolvido sentimentos passados.

7- Tenha outros objetivos a não ser arrumar alguém.

8- Tenha foco. Não saia atirando para todo os lados

9- Pense que ninguém é responsável pela sua felicidade.

10- Busque o equilíbrio: “Não seja nem vergonhoso demais nem atacado demais, que você assusta. Se você é muito prafrentex, os outros vão dizer que esse aí não tem relacionamento sólido não. É muito fogo de palha”.
Fonte: Frates in Unum