sábado, 21 de junho de 2014
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Ensinamentos e Admoestações Sobre Paz e Bem
Peçamos
humildemente a Jesus Cristo que nos conceda alegrar-nos só nele, viver
modestamente, menosprezar as inquietações do mundo, manifestar-lhe todas as
nossas necessidades, a fim de que, protegidos por sua paz, possamos um dia
viver na pacífica Jerusalém do céu. Auxilie-nos aquele que é bendito e glorioso
pelos séculos eternos. E toda alma pacífica diga: Amém! Aleluia! (3Ad 6d).
Busca
a paz dentro de ti, em ti mesmo; se a encontrares, terás paz com Deus e com o
próximo (5Pn 16a).
Os
olhos misericordiosos do Senhor estão sobre os que procuram a paz (5Pn 16a).
Coisas
necessárias a qualquer justo: a paz do coração, a separação dos bens terrenos,
o silêncio da boca, o êxtase da contemplação, a lembrança da própria
fragilidade (Pp 18c).
O
azeite é o mais excelente de todos os líquidos; a paz de consciência excede o
gozo dos bens temporais (Ft 15a).
Quem
possuir a paz do coração merece de verdade ser chamado filho de Deus Pai, ao
qual, juntamente com seu Unigênito, diz na hora da morte: Pai, nas tuas mãos
entrego o meu espírito, porque da paz do coração passa à paz da eternidade
(23Pn 18a).
Quem
em vida estabelecer com o Senhor a aliança da reconciliação, depois, no reino
celeste, repousará na formosura da paz (9Pn 15c).
De
Deus provém todo o bem que nós possuímos (6Pn 12b).
O
bem é sempre simples (l0Pn 13a).
Jesus
Cristo é o Bem, o bem substancial, de quem todas as coisas prendem bondade.
Tudo o que há e se move, vive ou existe no céu, como nos anjos, na terra ou debaixo
da terra, no ar, na água, dotado de inteligência e de razão, procede daquele
Sumo Bem, causa de todas as coisas e fonte de bondade (Ft 9a).
A
coroa de todo o bem é a humildade (1Qr2 4c).
Afasta-te
do mal, mas isto ainda não basta: é preciso praticar o bem (5Pn 16a).
Note-se
que há quatro espécies de orgulho: quando alguém possui um bem e julga ter ele
vindo de si mesmo; ou, se dado por Deus, considera-o dado em razão dos seus
méritos; ou jacta-se de possuir o que não possui; ou despreza os outros e procura
pôr em evidência o que possui (11Pn 3a).
Retirado de Almas Castelos.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
CORPUS CHRISTI
Na quinta-feira, dia 19 deste
mês, a Igreja celebra o sacramento por excelência: a Sagrada Eucaristia
— o maior milagre de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é sua presença
contínua nesta Terra.
O dia de Corpus Christi
é a data para honrar e adorar o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus
Cristo realmente presente na Eucaristia, sob as aparências do pão e do
vinho. Sublime mistério, que excede a pobre inteligência humana, pois
nossos olhos mortais não veem senão o pão e o vinho. Mas temos a certeza
de que é o Corpo de Cristo, pois para Deus nada é impossível.Corpus Christi é a manifestação pública da fé no dogma dessa presença real na Hóstia consagrada. Daí as belas procissões realizadas no mundo inteiro. No Brasil, de norte a sul, cidades enfeitam suas ruas com encantadores “tapetes” de flores para glorificar o Deus humanado.
A origem da festa de Corpus Christi remonta a uma religiosa agostiniana, Santa Juliana de Cornillon (1193–1258) [imagem abaixo], a quem Deus revelou a conveniência para a Igreja de uma celebração dedicada a glorificar o Corpo de Cristo. Esta grande devota da Eucaristia foi superiora da abadia de Mont-Cornillon de Liège (Bélgica), fundada em 1124. Neste lugar, surgiu um movimento eucarístico que incentivou várias práticas de adoração à Hóstia Consagrada, como a Exposição e a Bênção do Santíssimo Sacramento.
Em 1246, Santa Juliana pediu ao bispo de Liège, Dom Roberto de Thorote, a instituição da festa de
Somente em 1250 o Cardeal Cher, também de Liège, decidiu instituir em toda a diocese a nova festividade. Assim, a primeira celebração, com o nome de “Fête-Dieu”, foi realizada no interior da igreja de Saint-Martin, num cerimonial dirigido pelo próprio Cardeal.
A primeira procissão de Corpus Christi realizada publicamente, ocorreu em 1264 — há exatos 750 anos. Ela percorreu as ruas da cidade de Orvieto (Itália). Certamente, nos tempos atuais, a mais bela manifestação pública em honra do Santíssimo Sacramento.
Com a bula Transiturus de hoc mundo, de 11 de agosto de 1264, o Papa Urbano IV [imagem ao lado] estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi, a ser celebrada publicamente de modo solene pelas ruas e praças. A data da comemoração foi fixada para a quinta-feira após o dia da Santíssima Trindade. O dia foi escolhido em memória da celebração da primeira Missa celebrada por Nosso Senhor, na última ceia com os Apóstolos, que foi na Quinta-Feira Santa, quando instituiu o incomparável Sacramento da Eucaristia.
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Os leitores que desejarem maiores informações sobre a solenidade de Corpus Christi podem encontrá-las na revista Catolicismo deste mês, ou click aqui.
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(*) O jornalista Paulo Roberto Campos é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM).
Retirado de Agência Boa Imprensa.
Da Relação entre a Eucaristia e a Cruz
Por Pe. Jean Grou, S. J.
Jesus Cristo instituiu o sacramento da
eucaristia pouco antes da sua paixão, para que conhecêssemos a relação
existente entre este Sacramento e a Cruz. Instituindo-o, mudou
separadamente, e por duas ações distintas, o pão em seu Corpo e o vinho
em seu Sangue, para exprimir a efusão que, na cruz, faria de seu Sangue
até a última gota. Apresentando o seu corpo aos discípulos disse-lhes: Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós (Lc 22, 19); apresentando o seu sangue: Este é o Cálice do meu Sangue, que será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados
(Mt 26,28). Quis que o seu corpo conservasse na eucaristia o caráter de
vítima e o seu Sangue o de um sangue derramado e aplicado às almas em
expiação dos respectivos pecados. Dando, enfim, aos discípulos o poder
de consagrarem-lhe o Corpo e o Sangue, recomendou-lhes que o fizessem em
sua memória, isto é, advertiu-lhes que se lembrassem de ser esse
sacramento o memorial da sua morte cruenta.
Quis, por outro lado, que a Eucaristia
constituísse alimento necessário, indispensável das almas, como o único
meio de poderem ter em si a vida da graça, e de a conservarem e
aumentarem.
O que queria Jesus?
1.º) que os fiéis guardassem profundamente gravada no coração a lembrança da sua cruz;
2.º) que a renovassem em si mesmos cada vez que recebessem o seu corpo;
3º) que, alimentando-se da sua carne,
também se alimentassem da sua cruz, se incorporassem por assim dizer a
esta, ardessem de amor pela sua glória e manifestassem progresso
espiritual com a recepção da eucaristia, tornando-se sempre mais
ardorosos pela cruz. Assim compreenderam os mártires dos primeiros
séculos, pois mediante a recepção da santa eucaristia preparavam-se para
os mais atrozes suplícios e, saciados com esse manjar sagrado,
afrontavam os tiranos e algozes.
Queremos comungar utilmente e
corresponder às intenções de Jesus Cristo? Comunguemos desejosos de que
seu corpo adorável faça nascer em nós o amor à cruz, isto é, às
humilhações e sofrimentos, o desejo de morrermos para nós mesmos e
sermos imolados com Jesus Cristo segundo a vontade de Deus. Por ai
devemos alcançar os frutos das nossas comunhões. Não as julguemos boas
quando gozamos de consolações e sim quando nos enchem de nova coragem
para vencermos todas as penas enviadas por Deus e até desejarmos outras
maiores; quando aprendermos a não mais procurar Deus em nosso proveito,
mas buscá-lo e amá-lo unicamente por ele mesmo, a não atender à maneira
por que nos trata, a ficar igualmente contentes quer nos trate com rigor
quer com doçura, ou até preferir aquele a essa. Se as nossas comunhões
produzirem esses efeitos, serão excelentes; realizarão as intenções de
Jesus Cristo; serão igualmente gloriosas para Deus e profícuas para nós.
Alarmamo-nos quando comungamos sem gosto
e sem devoção, ou quando Deus não nos dá consolações? Se não tivermos
contribuído para isso com alguma falta ou infidelidade voluntária,
consolemo-nos; é sinal de que a eucaristia não é para nós o pão dos
fracos e começa a tornar-se o pão dos fortes.
Enquanto precisamos encontrar na
eucaristia o gosto sensível, somos fracos; mas se comungarmos sem
prestar atenção a nós mesmos, sem nos preocupar com os efeitos
sensíveis, sem os desejar e sem nos entristecer com a sua privação,
tornamo-nos fortes; começamos a viver da vida do espírito, o nosso amor a
Deus purifica-se, não é mais eivado do amor a nós mesmos.
[Vídeo]: Entrevista do Papa Francisco em canal de televisão europeu foi vista por mais de 2 milhões de pessoas
MADRI, 17 Jun. 14 / 06:38 pm (ACI/EWTN Noticias).- A entrevista que o jornalista Henrique Cymerman realizou ao Papa Francisco –publicada no jornal La Vanguarda-, foi vista no domingo passado por 2.203.000 pessoas através da cadeia de televisão ‘Cuatro’, do grupo italiano Mediaset.
Segundo pesquisas de audiência, durante os 50 minutos que durou a transmissão, a entrevista foi vista por 18.992.000 pessoas, na semana anterior, quando foi ao ar pela primeira vez, foi vista por 19.135.000.
A entrevista foi realizada após a visita do Papa à Terra Santa e o encontro que manteve no Vaticano com o presidente de Israel Shimon Peres e o líder palestino Mahmud Abas. O conteúdo da entrevista foi muito similar ao publicado no jornal espanhol “La Vanguardia” dias antes.
O Papa Francisco sublinhou a esperança que aprecia nos políticos jovens "sejam de centro, esquerda ou direita" -que definiu como uma "nova música"-, e destacou a importância da política para mudar o mundo e contribuir "ao bem comum".
Entretanto, advertiu que “estamos em um sistema econômico que não é bom”, pois antepõe o amor ao dinheiro ao amor às pessoas. “Está provado que com a comida que sobra poderíamos alimentar às pessoas que tem fome”, assinalou.
Nesse sentido o Papa alertou que “toda economia se move descartando: descarta-se as crianças, descarta-se os idosos... já não servem, não produzem. E agora está de moda descartar os jovens com o desemprego. São 75 milhões na Europa, isto é uma barbaridade, ou seja, descartamos toda uma geração”.
Trechos da entrevista, recolhidos pela agência Europa Press, podem ser lidos em: http://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-concede-entrevista-ao-jornal-espanhol-la-vanguardia-20211/
Retirado de ACI Digital.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Sermão do Padre René Trincado Domingo da Santíssima Trindade
Sermão do Padre René Trincado Domingo da Santíssima Trindade
México, 26 de Maio de 2013
Tradução: Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória/ES
Observações: capela@nossasenhoradasalegrias.com.br
Retirado de A Grande Guerra.
A GUERRA NÃO É VOSSA MAS SIM DE DEUS
Houve
um rei de Judá, chamado Josafat, que governou com temor de Deus. É
muito elogiado por muitas obras santas que fez, como, por exemplo,
quando se diz na Escritura que “varreu da terra o resto dos efeminados
que haviam ficado do tempo de sua pátria Asá” (1 Reis, 22-47).
Em
certa ocasião o Reino de Judá se viu gravemente ameaçado por uma aliança
poderosa das nações vizinhas, humanamente impossível de vencer. O Rei
Josafá, muito angustiado, suplicou o auxílio divino diante de todo o
povo. Ao finalizar sua oração, um profeta chamado Jahaziel, se levantou e
disse: “Ouvi, toda Judá, e vós moradores de Jerusalém, e tú, rei
Josafá. O Senhor os disse: não temais nem se amedronteis diante desta
tão grande multidão, porque a guerra não é vossa senão de Deus. Não
temais nem desanimeis; marchai contra eles porque o Senhor está
convosco” (2 Cron. 20 15,17). Cheio de valor, de confiança em Deus, e
desprezando os meios puramente humanos, marchou o rei na cabeça do seu
pequeno exército contra os poderosos inimigos, e estes foram esmagados
por obra de Deus. A guerra não era sua, era de Deus.
No Evangelho de hoje, festa da Santíssima Trindade, nos diz Nosso Senhor: “Ide
e ensinai a todas as gentes batizando-as em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo: ensinando-as a observar todas as coisas que os hei
mandado: e olhai que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos”.
Dado
que o diabo se opõe sempre a extensão do Reino de Deus, com essas
palavras Cristo nos deu uma verdadeira ordem de batalha, pois ir a
conquistar para Ele todas as gentes, implica marchar contra todos os
demônios e seus exércitos humanos. Por isso a Igreja dos vivos se chama
“militante”, é dizer, combatente, e Santo Eusébio, comentando este
Evangelho, diz que Nosso Senhor, fazendo-nos exército do Reino dos Céus,
nos dispôs para a guerra contra os inimigos.
São
João Crisóstomo assinala que Cristo veio dar início a guerra católica e
que por isso manifestou desde um começo a classe de combate que
havíamos de sustentar, mais terrível que toda guerra civil. E, por sua
parte, São Jerônimo diz sobre este Evangelho, que Nosso Senhor, ao
prometer estar conosco, seus discípulos, até o fim dos tempos, indica
que venceremos sempre.
Se
a guerra é de Deus e não nossa, não devemos buscar, para livrar-se
dela, socorros humanos, senão que devemos aderir por inteiro a fé.
Quanto menos buscarmos os apoios terrenos – diz Santo Ambrósio – mais
encontraremos os auxílios divinos.
VATICANO II: A PAZ DO DIABO
Pois
bem, depois de quase vinte séculos de guerra, de resistência da Igreja
entre duros combates, finalmente veio o demônio com sua obra mestra, o
Concílio Vaticano II, a converter em letra morta a ordem de batalha de
Cristo: o liberalismo, batizado no concílio, acabou com a guerra: se
assinou por fim a paz com o demônio, com o mundo e com a carne.
Se existe
direito a não ser católico, a liberdade religiosa e de consciência, como
ensinam os maçons e os documentos conciliares: se fora da Igreja há
salvação, se não há inferno ou está vazio, como pretendem os
modernistas; para que ir batizar e evangelizar? Para que ir combater?
Melhor ir dialogar para corrigir os meros maus entendidos que impedem a
realização da paz mundial, dessa unidade dos homens não fundada em
Cristo, que é o novo fim da Igreja, segundo os liberais e os hereges
modernistas. O santo espírito missionário foi destruído pelo
concílio, e seu lugar foi usurpado pelo diálogo ecumênico que não é
outra coisa que a continuação daquele diálogo catastrófico entre Eva e a
serpente.
SE DERRUBA DESDE DENTRO O ÚLTIMO BASTIÃO
Contra este engano diabólico se levantou nosso fundador, Monsenhor Lefebvre, mas 40 anos depois vemos
que a congregação que lutava gloriosamente contra o liberalismo, está
abandonando gradualmente a trincheira, está deixando paulatinamente de
combater e está mendigando migalhas a seita conciliar.
Perdida
a esperança na conversão de Roma pelo poder divino – coisa que parece
impossível aos que deixaram de confiar inteiramente em Deus – e
esquecendo que esta guerra não é dos homens senão de Deus; se busca um
auxílio humano, uma aliança adúltera com os liberais moderados, a ajuda
de uns supostos “novos amigos em Roma” (Cor Unum 101), se pretende um
acordo de paz com o inimigo (esteve a ponto de firmar-se no ano
passado), se pensa que estando na estrutura oficial, converteremos os
modernistas e restauraremos a Igreja. Mas tudo isto não é mais que uma
horrorosa ilusão, e esta ilusão está fazendo baixar os braços aos que
combatiam valorosamente por Cristo: “Não se vem já na Fraternidade os sintomas dessa diminuição na confissão da Fé?” diziam
os três bispos ao Conselho Geral na carta de 7 de abril do ano passado.
O combate diminui, o diálogo aumenta. Mas o conciliador termina
conciliar.
NÃO VIM TRAZER PAZ SENÃO ESPADA
Contra esses sonhos pacifistas tão característicos dos liberais, estão as palavras eternas de Cristo: “Não vim trazer paz, senão a espada [ou divisão]” (Mt.
10, 34; Lc 12,51). Uma é a espada da paz do mundo; outra é a paz de
Cristo. “Vos deixo a paz, minha paz dou-Vos; não como o mundo no-la dá,
Eu dou-Vos. Não se perturbe o vosso coração, nem tenhais medo” (Jo. 14,
27).
Há uma paz boa e
há uma paz má. E há uma divisão boa e uma divisão má. A paz segundo o
mundo é a união dos homens para o bem ou para o mal, “a paz de Cristo é a união que Ele estabelece entre o Céu e a terra por sua Cruz” (Col.
1), diz São Cirilo citando São Paulo, e agrega que é má a paz quando
separa do amor divino. E São João Crisóstomo, falando da boa espada ou
divisão, diz que o médico, a fim de conservar o resto do corpo, corta o
que tem por incurável. E acrescenta que uma divisão boa terminou com a
má paz que havia na torre de Babel e que São Paulo, por sua vez, dividiu
a todos os que se haviam unido contra ele (Atos 23), porque nem sempre a
concórdia é boa e os ladrões também se unem [para fazer suas
delinquências]
Estimados fiéis: o fumo de Satanás, o liberalismo, entrou na Tradição por uma greta aberta desde dentro. Por isso agora se busca uma paz que não é de Cristo.
DEUS DECLAROU GUERRA
De
Deus, e tanto assim que é a única guerra declarada por Deus. Em efeito,
ensina São Luis Maria Grignon de Montfort em seu “Tratado da Verdadeira
Devoção”, que “Deus não fez nem formou nunca mais que uma só
inimizade – e inimizade irreconciliável -, que durará e aumentará até o
fim; e é entre Maria e o diabo; entre os filos e servidores da
Santíssima Virgem e os filos e sequazes de Lúcifer”.
E disse Deus: “Eu porei inimizades entre ti e a mulher e entre tua descendência e a dela (Gen. 3,15). Aí
está a declaração de guerra. É Deus quem declarou a guerra. É sua
guerra, não é nossa. Nosso dever é combater sem pretender colocar fim a
essa guerra. Não temos direito a fazer a paz. Não temos direito a nos
render. Temos o dever de guerrear. “Aos soldados cabe combater e a Deus dar a vitória”, dizia Santa Joana d’Arc.
Sendo assim,
nenhum homem deve pretender fazer uma trégua com os liberais inimigos de
Cristo, nem negociar um acordo de paz com os destruidores da Igreja,
nem aceitar uma paz decretada pelos que – em quanto hereges modernistas –
são soldados do diabo. Isso tem um nome: traição. E quem o busque ou está disposto a aceitar essa paz também tem um nome: traidor.
Que
pela intercessão de nossa Mãe, a Santíssima Virgem Maria, Deus nos
conceda seguir as pegadas de todos os mártires e de todos os santos, e
receber do Céu a ferrenha resolução de combater até o fim e a graça de
morrer antes de trair.
“Ouvi,
toda Judá, e vós moradores de Jerusalém, e tú, rei Josafá. O Senhor os
disse: não temais nem se amedronteis diante desta tão grande multidão, porque a guerra não é vossa senão de Deus.
Retirado de A Grande Guerra.
Para que servem as denominações Protestantes ?
Reconheço que é direito de todo e qualquer cidadão professar sua crença livremente, sem embaraços.
Repudio toda e qualquer forma ou mesmo tentativa de cerceamento religioso.
Não concordo também com ataques dirigidos a honra das pessoas e que por vezes materializam situações caluniosas, difamatórias e injuriosas.
As críticas e divergências devem ser limitadas às questões de fé e doutrina, excluindo ataques dirigidos a dignidade e honra das pessoas.
Não admito deboches ou zombarias de qualquer tipo.
Introdução:
Para que servem as denominações protestantes ?
Os protestantes dizem que já estão salvos.
Eles dizem que Igreja não salva ninguém. Dizem também que placa de Igreja não salva ninguém.
Dizem ainda que religião não serve para nada.
Então para que servem os templos protestantes ?
Se o crente já está salvo, o protestante teoricamente corre o risco de perder sua salvação freqüentando a denominação errada.
Escutando outras pessoas, o crente que já estava “salvo” pode até mesmo comprometer sua salvação.
Outros mais ousados afirmam inclusive que salvação não pode ser perdida.
Ora, se salvação nem mesmo pode ser perdida, aí mesmo é que a pergunta inicial encontra eco:
“Para que servem as denominações protestantes se o crente já está salvo e se a salvação não pode ser perdida ?”
A maior parte diz que basta crer para ser salvo. Fácil assim. Levantou o dedo indicador e “aceitou” Jesus em qualquer templo protestante que pregue qualquer doutrina, já está salvo.
Será ?
Não é bem assim. A teoria é uma e a prática é outra.
Basta crer, desde que não seja católico.
Nós católicos também cremos. E nem por isto eles dizem que estamos salvos.
É preciso ter fé e ao mesmo tempo não ser católico.
Ou seja, ao contrário do que dizem de que placa de igreja não salva ninguém, o fator decisivo é ser evangélico ou protestante.
O curioso é que recebendo o rótulo evangélico tanto faz a denominação ou o “cristianismo” que se prega ou que se aprende.
Todos são irmãos em cristo, independentemente da doutrina que um ou outro professa.
O crente da denominação que apóia o aborto ou que tem pregadores favoráveis ao aborto é “irmão em cristo” do crente que abomina o aborto.
O crente que crê na Trindade é “irmão em cristo” do crente que não crê na Trindade.
Os crentes que assumem a Teologia da Prosperidade criticam os seus opositores e vice-versa.
Tem gente chamada e tem gente chamando outros de hereges.
Outros com menos educação chamam seus opositores de trouxas, idiotas ou filhos do diabo. E para fins estatísticos, acusados e acusadores são “irmãos em Cristo.”
O pregador que nega a perfeição da obra de Jesus Cristo é recebido como celebridade na denominação que diz que a obra de Jesus Cristo foi perfeita.
O pregador que diz Jesus é criação de DEUS é aplaudido e ouvido pelos crentes de outras denominações que abominaram tal afirmação.
Se entre eles não há unidade, certo mesmo é que todos são contra o catolicismo.
Mas afinal para que servem os templos protestantes se o importante é apenas crer ?
Eles utilizam o Sola Scriputra de Lutero. “Só a Bíblia”. Cada crente pode ler e interpretar a Bíblia livremente.
Eles dizem que o Espírito Santo auxilia cada crente na sua interpretação.
Se cada crente pode interpretar livremente a Bíblia, por que são necessários pastores ?
E se pastores são dispensáveis, por que ouvi-los se cada qual pode entender e compreender individualmente ?
Os próprios pastores dizem: “Só a palavra. Vai na palavra. Não é o que o pastor fala é o que a Bíblia ensina”
Eles mesmo dizem que não há infalíveis.
E se pastores são descartáveis, para que servem os cultos protestantes ?
E se os cultos protestantes são desnecessários, para que servem templos protestantes ?
Alguns dirão que vão às denominações para louvar o Senhor.
Mas e se o crente não louvar o Senhor, perde a salvação ?
Se o crente não louvar ou não bater palmas o que acontece ?
Crer não é suficiente ?
Para que louvar se o crente já está salvo ?
E por que o louvor tem ser feito na denominação junto com outros crentes ?
Se todos podem interpretar a Bíblia individualmente com a “assistência” infalível do Espírito Santo, por que cada denominação tem doutrina própria ?
Por que uma denominação não é igual a outra ?
Seria possível o Espírito Santo propor doutrinas diferentes para este ou aquele crente ou pastor ou denominação ?
Por que alguns batizam e outros não ?
Por que alguns casam pessoas do mesmo sexo e outros condenam esse tipo de enlace ?
Por que algumas denominações apóiam o aborto e grande parte critica ?
Por que alguns acreditam na Trindade e outros a renegam ?
A freqüência na Igreja somente se justifica para o um católico, pois não nos consideramos salvos antes que o Grande e Unico Senhor e Juíz assim decida.
Consideramos que devemos perseverar até o fim, tal como nos ensina a Bíblia Católica. “Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo”. Mateus 24:13
Neste sentido, a Santa Missa é uma oportunidade de recebermos graças e indulgências pelos pecados que cometemos.
Se temos que perseverar até o fim é sinal que ainda não estamos salvos.
Acreditamos que haverá um julgamento e este excepcional evento é primazia de Deus. Não nos compete definir de véspera quem está ou não salvo.
Já o protestante não precisa de ensino porque ele mesmo pode interpretar a Bíblia.
O protestante não precisa de indulgências e nem de boas obras porque ele já está salvo.
Ele não precisa se confessar a um sacerdote porque acredita que tem uma linha direta com Deus.
Em algumas denominações nem mesmo há necessidade de pedir alguma graça, já que basta determinar em nome de Jesus.
Em outras denominações DEUS está obrigado a atender a todos os caprichos do crente. As expressões mais usadas por estes são:
“Eu profetizo.” “Eu amarro.” “Eu exijo.” “Eu não aceito derrota.” “Eu decreto minha vitória.” “Eu tomo posse da minha benção.”
Na Igreja Católica seguimos o ensino de Jesus: Mateus 26:39: “Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”. Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O protestante não precisa perseverar até o fim, pois ele entende que está salvo tão e somente porque creu.
O que é a Santa Missa para nós católicos ?
É a renovação incurenta(sem derramamento de sangue) do Sacrifício do Calvário. É o mesmo e único sacrifício de Jesus Cristo na cruz.
Nessa cerimônia, Cristo é ao mesmo tempo sacerdote e vítima, oferecendo-se a DEUS para pagar as nossas dívidas.
Seus méritos infinitos são aplicados a cada fiel.
A Missa é Santa porque o autor de toda a santidade se oferece como vítima em um sacrifício perfeito, agradável, eficaz, perpétuo a Deus.
Apenas para os católicos faz sentido freqüentar Igreja.
Nós precisamos desta Santa Eucaristia. E precisamos de confissão, indulgências, homilias, obras, penitência, comunhão com os demais, sacramentos, etc…
No caso do protestante, não faz sentido algum freqüentar denominação. Ele já está “salvo.”
E ele mesmo pode interpretar a Bíblia. Ele não precisa do magistério da Igreja ou de pregador.
Nós precisamos da Igreja, porque a consideramos coluna e sustentáculo da verdade (1 Tm 3,15),
O protestante não precisaria de pastor se de fato acredita que pode contar com a assistência infalível do Espírito Santo.
O pastor poderia acabar atrapalhando.
Não é o nosso caso.
A Bíblia católica proíbe a interpretação privada. “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.” 2 Pedro 1:20
Estamos sujeitos a interpretação de Pedro e seus sucessores.
Lucas 10:16: “Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou.”
O protestante crê na interpretação individual.
E se cada crente pode interpretar a Bíblia individualmente, se cada crente só precisa crer, se não há base bíblica para obrigar ao crente frequentar denominação, se não há base bíblica que recomenda perda de salvação por deixar de louvar ou pagar dízimos em denominação, retornamos a pergunta:
Para que servem as denominações e templos protestantes ?
O protestante já estando “salvo” em tese correria o sério risco de perder sua salvação freqüentando a denominação errada ou escutando o pregador que prega errado.
E como o protestante pode saber qual a denominação ou pregador são os mais adequados ?
Quem determina ?
É pela Bíblia que ele sabe qual é a denominação séria ou pregador comprometido ?
E quando o protestante passa a ter direito de sair de uma denominação e ir para outra ?
Quem decide isto ?
Quem está salvo ? O que ficou na denominação, quem dela saiu ou ainda quem fundou uma nova ?
Todos estão salvos ?
Estando salvo de véspera e podendo ser intérprete da Bíblia, pouco importa que denominação se freqüenta.
Para que serve uma denominação protestante se não faz qualquer diferença pertencer a esta ou àquela outra ?
São Paulo, nos ensina que o coração humano faz juízos duvidosos.
Assim sendo, para nós católicos é impossível acreditarmos que Jesus conhecendo nossas inegáveis fraquezas nos deixaria por nossa própria conta após tão eloqüente sacrifício e sofrimento e humilhação atrozes dos quais padeceu.
É incompreensível para nós depois de tudo que Jesus fez, ouvir por exemplo:
“Se vira. Leia e interprete a Bíblia. Julgue o que pregador está falando a partir de tua leitura particular. Escolha por si só a igreja adequada. E se esta igreja não tiver pregando corretamente vá para outra. E vá mudando até encontrar a igreja certa. E se não encontrar funde uma nova denominação.”
Jesus Cristo que nos amou incondicionalmente não nos deixaria sós.
Por isto ele fundou a Igreja. Coluna e sustentáculo da verdade. Não temos que estabelecer por conta própria as questões de fé e doutrina, pois a Igreja é assistida permanentemente pelo Espírito Santo.
E é o próprio Jesus Cristo que lhe dá assistência permanente: “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” Mateus 28:20
Ele mesmo nos garante que as portas do inferno nunca prevalecerão contra sua igreja. Mateus 16,18
Ele pediu somente a Pedro e não a Lutero ou Calvino: “Confirma Teus Irmãos na fé” (LC 22,32) .
E o protestante que não se dá por vencido pergunta: “E se a Igreja tiver escândalos e pecadores ? Quem irá reformar a Igreja ? Lutero ? Calvino ? Malafaia ? Macedo ?”
E nós respondemos com toda certeza que é o próprio Jesus quem irá purifica-la.
Lucas 17, 1-2: “…mas ai do homem pelo qual eles vêm! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos.”
Glória a vós Senhor por tão grande amor dispensado. Quem não creu nas tuas promessas escolheu reformadores mundo afora e assumiu para si tão e somente doutrinas de homens.
Mas alguns dirão que freqüentam a denominação porque o tão alegado “basta crer em Jesus “ é apenas força de expressão.
Dirão que na verdade o crer em Jesus significa não apenas crer que ele morreu na cruz por nossos pecados, mas é preciso fazer tudo que ele diz.
Sem dúvida. E nesse caso, nossos irmãos protestantes terão que concordar com Maria Santíssima nas Bodas de Caná: Sua mãe disse aos serventes: “Fazei tudo quanto ele vos disser.” João 2:5
E com esta afirmação muda tudo.
Ora, se o crente tem que freqüentar denominação, se tem que ter pastor, se apenas quem desfila com os rótulos evangélico ou protestante está salvo, se tem que bater palmas, se tem que pagar o dízimo, e não pode ser católico, então não basta ter fé.
Conclusão:
Temos então dois ensinos protestantes contraditórios.
O primeiro ensino, meramente teórico, diz que basta ter fé para ser salvo. É o Sola Fide de Lutero, bastando “aceitar” Jesus em um templo evangélico ou protestante. Qualquer um. Só não pode é “aceitar” Jesus sendo e permanecer com o rótulo católico.
E o segundo ensino, a prática que nada mais é do que tradição e que revela que para ser salvo muitas outras coisas são indispensáveis além da fé.
Conforme foi dito acima o crente tem que freqüentar denominação, tem que ter pastor, tem que desfilar com os rótulos evangélico ou protestante, tem que bater palmas, tem que pagar o dízimo e não pode ser católico.
Problema com este conflito ?
Problema com uma tradição própria assumida ?
De modo algum. Um protestante não precisa concordar com outro protestante. Eles podem ter doutrinas diferentes usando a mesma Bíblia que ambos estariam salvos, ambos pertencem ao povo de Deus e todos são bênçãos, ungidos, sacerdotes, profetas, reis, etc…”
Dizer que basta ter fé significa que fé é suficiente. Nada mais é necessário.
Portanto, templos protestantes, pastores, música Gospel, DVDs, CDs, programas nas rádios e TVs e dízimos não servem para nada.
Nem Lutero. Nem Calvino. Nem qualquer denominação. Nem dízimos.
Então dirão: “Temos que pregar a palavra.”
Não precisa pregar. Basta entregar uma Bíblia para cada pessoa.
Segundo os crentes, cada pessoa pode ler e interpretar por conta própria.
Ainda conforme ensino protestante, quem se torna crente “aceitando” Jesus conta com a “assistência” do Espírito Santo” e assim não precisa de pregador.
Lembramos a máxima protestante: “Não é o que o pregador diz, mas a palavra.”
E se todos que freqüentam as denominações já estão salvos, ainda que fosse indispensável pregar, essa pregação teria que ser feita fora do templo.
Afinal por que se pretende dar remédio a quem não está doente ???
Não são os doentes que precisam de médico e de remédio ???
Por que pregar para quem já está salvo e para quem pode ser intérprete ?
E alguns outros ainda dirão que o pastor é necessário para orientação espiritual. O crente precisa crescer na fé. Precisa crescer espiritualmente.
E o que importa o crescimento espiritual se o crente já está salvo ?
Faz diferença crescer ou não crescer espiritualmente ?
Não basta ter fé ?
Se para o protestante o importante é ter fé e igreja não salva ninguém, que diferença faz freqüentar ou não denominação protestante ?
Alguém fica mais ou menos salvo ?
E se não pagar o dízimo o que acontece ?
Perde a salvação ?
E o pior de tudo que além de se dizer salvo, tem gente dizendo que uma vez salvo sempre salvo.
Aí mesmo que nada faz sentido.
Se a salvação obtida a partir do “aceita Jesus”, é “imperdível”, para que servem templos, pastores, leitura bíblica, escola dominical, DVDs, CDs e palestras para os “eleitos” ?
E o interessante é saber que a Igreja Católica não despreza as comunidades protestantes tal como o protestante o faz em relação as suas próprias denominações e a seus pares.
A Igreja católica vê com respeito os cristãos que estão fora dos seus limites, se não vejamos:
“Os que hoje em dia nascem em comunidades que surgiram de tais rupturas e estão imbuídos da fé em Cristo não podem ser arguidos de pecado de separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor… Justificados pela fé recebida no Batismo, estão incorporados em Cristo, e por isso com razão são chamados com o nome de cristãos, e merecidamente reconhecidos pelos filhos da igreja católica como irmãos no Senhor” (UR,3), (CIC nº 818).
“Muitos elementos de santificação e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja Católica”: a palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons do Espírito Santo” (UR, 3).
“O Espírito Santo de Cristo serve-se dessas igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação cuja força vem da plenitude da graça e da verdade que Cristo confiou à Igreja Católica. Todos esses bens provêm de Cristo e levam a Ele e impelem à “unidade católica”(LG, 8).
Grande parte dos batismos e matrimônios celebrados nestas comunidades são aceitos na Igreja Católica como válidos.
O oposto não ocorre.
A Bíblia diz que ninguém pode dizer que Jesus Cristo é o Senhor se não pelo Espírito Santo, mas o protestante descartando a Bíblia impõe a um católico um novo batismo quando este adere a uma denominação protestante.
São os próprios protestantes que a partir dos seus milhares de conceitos conflitantes entre si que acabam por condenar templos, pregadores, práticas, costumes e o próprio protestantismo em si.
Afinal de contas são eles que dizem:
“Igreja não salva ninguém”
“Não é o que pregador fala, mas a palavra”
“Quem crê já está salvo”
“Uma vez salvo, sempre salvo”
Quem puder que chegue a Roma o quanto antes, pois nesse caminho mais longo e incompreensível do protestantismo alguns podem se perder definitivamente.
Autor: A.Silva com a colaboração de V.De Carvalho. Livre divulgação mencionando-se o autor
Retirado de A Fé Explicada.
Voltemos a Santo Agostinho
“Falar da Igreja apenas em termos de programação leva inevitavelmente a pensar que, tudo somado, o ato de fé parte dos homens. E esta é a transposição, em termos pastorais, do pensamento de Pelágio”.
Entrevista com Francesco Moraglia, patriarca de Veneza
Entrevista com o patriarca de Veneza Francesco Moraglia por Gianni Valente
“Não seremos capazes de oferecer respostas adequadas, sem um acolhimento renovado do dom da Graça; não saberemos conquistar os homens para o Evangelho, se nós mesmos não formos os primeiros a viver uma profunda experiência de Deus”. São palavras de Bento XVI aos bispos italianos reunidos em assembleia plenária, dia 24 de maio passado. Enquanto se aproxima o Ano da Fé, o sucessor de Pedro não perde ocasião para sugerir a única coisa que realmente considera muito. São tempos confusos, a serem vistos, todavia, com “um olhar reconhecido pelo crescimento do trigo bom também num terreno que se apresenta muitas vezes árido”. Tempos em que a atualidade eclesiástica parece tornar mais evidentes e luminosas as palavras de Jesus “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Neste contexto monsenhor Francesco Moraglia viveu os primeiros passos do seu ministério como novo patriarca de Veneza. As suas respostas, na entrevista que segue, são uma ajuda simples para viver como tempo propício o iminente Ano da Fé. Livrando o campo de todo risco de “auto-ocupação” eclesial.
Bento XVI, durante a sua viagem a Portugal, disse: “Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por certo que esta fé exista, o que infelizmente, é cada vez menos realista”. Depois convocou um Ano da Fé. O que o Papa quis sugerir deste modo?
FRANCESCO MORAGLIA: Convocando o Ano da Fé, o Santo Padre quis indicar aquela que desde sempre – portanto hoje também – é a realidade que fundamenta a vida do crente e da Igreja, ou seja, a fé.
É justamente a concepção que se tem da fé que determina o consequente modo de entender o cristianismo, e sendo a fé o início da vida cristã, então para a fé vale o que o evangelista Marcos diz a propósito da parábola do semeador: se não compreendeis esta como podeis entender todas as outras parábolas? Enfim: segundo a ideia que temos da fé, origina-se e desenvolve-se um tipo de cristianismo ou um outro.
Os jornais escrevem: esse Ano da Fé serve para “revitalizar” a fé. Mas nós temos poder para isso? Somos nós – a Igreja, o Papa, ou os fiéis – os artífices da nossa fé?
A Igreja, o Papa, os fiéis, assim como os teólogos, não são a origem do ato de fé e da vida do crente.
Por isso devemos prestar atenção de como falamos. No âmbito humano e eclesial a linguagem reveste uma importância fundamental; ora, falar da Igreja apenas ou principalmente em termos de programação, assim como reduzir a evangelização a uma questão de linguagem, leva inevitavelmente a pensar que, tudo somado, o ato de fé parte dos homens. Desse modo tudo é reduzido a uma operação humana. Mas esta – considerando muito bem – é a transposição, em termos pastorais, do pensamento de Pelágio; no meu modo de ver, hoje, mais do que nunca, devemos recordar o nome de Agostinho, a cuja escola todos, pastores e fiéis, devemos retornar.
Voltando à sua pergunta: a Igreja, o Papa e os fiéis podem – propriamente falando – revitalizar a fé, principalmente, colocando-a com renovada força ao centro da vida eclesial e propondo-a como método de vida, melhor, como o caso sério do cristão.
Como inicia a fé? Pode ser o resultado de um plano educativo que faça transparecer o sentido religioso do homem?
Limito-me a dizer que a fé, sendo o termo da graça, é puro dom! De fato, não gostaria que, principalmente no contexto atual, diminuindo o vigor de tal afirmação se acabasse – como já disse – por qualificar a fé em termos demasiadamente humanos. Certamente a expressão: a fé é pura graça, deve ser entendida no sentido de que a fé sempre nos é oferecida de modo humano, ou seja, interpelando a nossa liberdade e jamais prescindindo desta como da nossa responsabilidade.
Como se mantém, se alimenta e cresce a fé? Como fazer para não perdê-la? É questão de tenacidade?
A fé se mantém simplesmente vivendo-a cotidianamente na companhia da Igreja; dia após dia, portanto, ela se alimenta e cresce se pertencermos ao mundo da fé e renovarmos todos os dias a escolha da fé; em outros termos, deixando-se levar pela fé e recordando que – na realidade da vida – para o cristão tudo é dom. Certamente, descobrir-se criaturas e alegrar-se em sê-lo, sentir-se na própria pessoa e na própria história como parte de um todo, de um projeto que sempre nos precede e acompanha, é esta, podemos dizer, a graça da obra. Considero particularmente eficaz a expressão usada por Bento XVI em Porta fidei: “A fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria....”.
Quando se fala da fé, as chamadas ao Espírito, à Graça, a Jesus, às vezes parecem formulários rituais, premissas obrigadas pelo “jargão” eclesial, para depois passar ao “assunto verdadeiro” em que a atenção é dada à estratégia, à fórmula a ser adotada, ao plano educacional que nos é confiado.
Algumas vezes acontece que estas chamadas estejam quase ausentes da linguagem mesmo dos que se confessam cristãos! Deste modo enfraquecem os fundamentos da vida batismal. E isso é ainda mais grave se pensarmos que a linguagem é a máxima força expressiva da cultura de uma pessoa; em algumas catequeses, por exemplo, passou-se da confissão de Jesus Salvador, a Jesus entendido como mestre, depois amigo, e enfim como força espiritual.
Mas se a fé, que na vida da pessoa e da Igreja é essencialmente dom e cumprimento, é desvalorizada nessa sua dimensão, e tudo leva a se tornar programação pastoral e construção humana, ofuscando o Espírito em escolhas organizativas, então também a salvação se torna um fato de pura programação teológica e organização pastoral. Os exemplos não faltam portanto limito-me a indicar um deles em âmbito celebrativo litúrgico: o hiperativismo criativo e um certo protagonismo diante da assembleia.
Em muitos discursos, a fé é identificada e contrario, como se a sua afirmação fosse antes de tudo uma resposta a tendências e filões culturais da modernidade em que vivemos. O que o senhor pensa desse tipo de abordagem? A fé tem como primeiro andamento expressivo a confutação cultural da não-fé?
Sim é verdade, o risco indicado existe mesmo.
A fé, antes de tudo, deve ser a fiel a si mesma, ou seja, deve dizer Jesus Cristo, dizê-lo bem, dizê-lo a todos, dizê-lo de modo compreensível e a partir – como ensina a Dei Verbum – da Palavra de Deus transmitida pela Igreja.
A crítica que era dirigida a uma certa manualística coincidia justamente pelo deixar-se levar por determinadas “questões” que se queria confutar, terminando por reduzir e até mesmo desvirtuar, de maneira inaceitável, as verdades de fé que, por si, queria-se anunciar.
Concretamente, para aproveitar da ocasião do Ano da Fé, o que é preciso fazer? Tomar iniciativas? Fazer discursos?
A fé é resposta a uma pessoa – à pessoa de Jesus Cristo –; então os discursos, as conferências, os congressos por si são ainda insuficientes diante da realidade humano-divina da fé; seria suficiente se a fé se colocasse unicamente no plano humano, se fosse uma pura escolha ética ou uma tese filosófica. Porém a fé, ao invés, pede para ser colhida e vivida na sua realidade sacramental, ou seja, realidade humana e divina.
Tenho certeza, para fazer um exemplo, que uma mais intensa participação e cuidadosa educação à celebração litúrgica, por parte do povo de Deus – pastores e fiéis –, em vista de uma renovada vida de caridade para com Deus e o próximo, seja uma proposta congruente, um ponto certo de partida, em vista do Ano da Fé.
Trata-se, repito, de envolver toda a comunidade eclesial no evento da Páscoa – morte/ressurreição – de Cristo; deste modo somos logo levados ao centro do evento salvífico que se pode colher somente na fé; o coração do ato eucarístico se caracteriza, justamente como mysterium fidei.
Jesus e a Samaritana, detalhe dos mosaicos da Basílica de São Marcos em Veneza
Se a fé é um dom de graça, no início e em cada passo do caminho, o que isso comporta para a Igreja, para a sua forma e para as suas dinâmicas?
Comporta inúmeras coisas. Indico uma que me parece ajudar a compreender: aludo ao uso do adjetivo possessivo “nossa”, colocado diante do substantivo Igreja; esse é um modo de se exprimir que comunica proximidade, afeto, simpatia para com a Igreja, porém se não se tem a prontidão de mantê-lo unido à outra expressão: “Sua” Igreja, o risco é de considerarmos a Esposa de Cristo como uma nossa criatura, um nosso produto, uma realização humana que, resumindo, justamente porque é “nossa” podemos sempre e de novo reconstruir ou destruir como quisermos. Ao invés, a Igreja antes de tudo, é Sua, ou seja é de Cristo que, segundo a bela simbologia patrística dos primeiros séculos, depois retomada na Idade Média, é o sol, enquanto a Igreja se coloca como mysterium lunae e é totalmente iluminada pelo sol.
Às vezes, também na nossa recente atualidade eclesial, esta percepção do ponto de origem da Igreja parece se ofuscar para muitos cristãos, com uma espécie de inversão: de reflexo da presença de Cristo, passa-se a sentir a estrutura eclesial como uma realidade empenhada em atestar a si mesma a própria presença relevante na história. E esta atestação de si mesma é apresentada como um modo para “demonstrar” a credibilidade do cristianismo. A que podem levar estas dinâmicas?
Se perdermos de vista que o evento cristão é algo real e histórico, que se refere à carne e ao sangue, então este fato nos leva a uma visão “espiritualista” que não consegue mais interceptar o homem concreto feito de carne e sangue.
Assim, se perdermos de vista que a Igreja é corpo de Cristo, então, em cada circunstância, a Igreja estará em busca da sua legitimação e afirmação, tornando-se auto-referencial. Pensemos aos dois discípulos de Emaús que não percebem o Ressuscitado, continuam a falar dos seus problemas, das suas tristezas e não conseguem abrir os olhos para Ele e vê-lo.
É o drama, sempre possível, da auto-referencialidade da Igreja, que quer dizer: perda da sua identidade sacramental; a Igreja, de fato, nos recorda ainda o Vaticano II, na Lumen gentium, é sacramento de Cristo e, assim, o ofuscamento desta realidade não é pouca coisa.
De modo análogo, às vezes parece que a intenção de atestar a fé no mundo seja confiável a iniciativas extraordinárias ou mesmo espetaculares.
Mas encaminhar-se nesta direção quer dizer contrastar o que Jesus disse e fez no Evangelho, e com a própria realidade do viver humano, feito de gestos cotidianos. Fazendo assim, a Igreja se autodestruiria, não se pode viver, com efeito, de coisas extraordinárias, mas ordinárias: as coisas de todos os dias; o Evangelho não é para poucos eleitos e não é feito de coisas vividas una tantum. Ao contrário, é questão de salvação todos os dias e para cada homem.
O início do Ano da Fé coincide com os cinquenta anos do início do Concílio Vaticano II. Alguns atribuem a crise de fé diretamente àquele evento, chegando a interpretá-lo como a origem do retrocesso do cristianismo ou até mesmo como o instrumento de penetração de um pensamento não católico na Igreja. Qual é a sua opinião sobre isso?
A minha ordenação sacerdotal ocorreu em 1977, portanto posso dizer que nasci teologicamente e como sacerdote depois do grande evento eclesial do Concílio Ecumênico Vaticano II. Se relermos os textos conciliares, se interpretarmos o espírito a partir da letra e não contra a letra, se não nos jogarmos em afirmações do tipo: “por fidelidade ao Concílio é preciso ir além do Concílio” (frase na qual cada um pode encontrar o que, a cada vez, mais lhe agrada), então não podemos deixar de considerar o Concílio como uma verdadeira graça para a Igreja do nosso tempo. Aqui também, mais uma vez, Bento XVI nos indica a estrada principal falando da hermenêutica da reforma na continuidade e tomando distância de toda a hermenêutica de ruptura.
O Ano da Fé teve o seu precedente no ano de 1967 com Paulo VI, que culminou na proclamação do Credo do povo de Deus. Como o senhor viveu pessoalmente aquele período, como o recorda?
Na época eu era um adolescente, tinha quatorze anos, recordo bem que se sentia nos meios de comunicação e de consequência na sociedade, o crescimento de um clima suspeito e todavia hostil ao magistério da Igreja. Via-se com clareza a tentativa de dividir as estruturas eclesiais, contrapondo o magistério – principalmente o do Papa – aos fiéis, considerados o verdadeiro povo de Deus. Esquecia-se, ou talvez não se quisesse recordar, que a Lumen gentium, falando do povo de Deus como do depositário do poder profético e carismático, afirma, citando Agostinho: “A universalidade dos fiéis não pode enganar-se na fé...’quando desde os bispos até o último dos fiéis leigos’ (cf. Santo Agostinho, De praedestinatione Sanctorum 14, 27: PL 44, 980) manifesta consenso universal em matéria de fé e de costumes”. Eram anos em que, com uma oportuna catequese, se deveria mais do nunca sustentar e acompanhar a fé dos simples diante do excessivo poder dos especialistas.
O Ano da Fé coincide com uma crise econômica que está abalando até as sociedades mais desenvolvidas. Alguns dirão que se busca refúgio no espiritual para suportar os problemas materiais. Que relação tem a fé, por exemplo, com a perda de emprego que está angustiando milhões de pessoas também na Itália?
Refugiar-se na fé apenas para não sofrer pelos problemas materiais corresponde a uma ideia errada de fé; aquele que crê, com efeito, é aquele que está ao lado do Senhor Jesus independentemente do fato de que as coisas, humanamente, vão bem ou mal.
A fé, “sobretudo”, não se refere a alguma coisa que seja secundária ao homem. O homem não está já realizado em si prescindindo da sua relação com Jesus Cristo. Ao contrário, a fé é aquilo que leva à realização do humano respeitando-o na sua especificidade e autonomia.
Dito isso, certamente a fé sustenta de modo particular os que atravessam momentos difíceis, ajudando-os a vivê-los e colocá-los em um horizonte mais amplo; porém com isso a fé não exime o crente da realização de todos os passos que humanamente deve cumprir e daquilo que tem a possiblidade de fazer .
Em uma historieta, que circulava em âmbito teológico, alguns anos atrás, contava-se que um navio estava afundando e, então o comandante ordenou: “Os ateus às bombas e os crentes a rezar!”.
O senhor nasceu e cresceu em Gênova e agora é patriarca de Veneza. Há alguma coisa particular que caracteriza e aproxima a fé das gentes do mar?
O amor à própria história e a ligação às próprias raízes, o manter vivas as recordações e as tradições, o valor dado à religiosidade popular e, ainda, entender o sentido da vida como viagem, e ir na direção de uma meta. Enfim, também, uma grande abertura ao futuro e aos outros. Por outro lado, o mar une margens de países e continentes diferentes, o mar torna possível a comunicação entre os homens através de encontros e trocas comerciais mas principalmente culturais; enfim, o mar, justamente na sua imensidade, torna-se símbolo de Deus e da sua infinidade.
E o que o senhor diria da sua fé? Como nasceu? Quais acontecimentos e encontros a alimentaram?
A minha fé, como assenso às realidades cridas, é, agora, a mesma de muitos anos atrás enquanto eu me preparava à primeira comunhão e de quando eu era coroinha; considero isso algo muito belo porque reflete mais uma vez a verdade do Evangelho. Aludo ao convite de Jesus: deixai vir a mim as criancinhas; assim é que a fé aparece – como é realmente – para todos: crianças e adultos, simples e doutos, ricos e pobres; aqui aparece, em um sentido verdadeiro, toda a “democraticidade” da fé. A modalidade de adesão, não toca a substância do ato de fé que está, justamente, na graça, adesão ao mistério e não elaboração cultural. Justamente por isso, os diferentes e múltiplos modos de adesão, mais ou menos cultos, não tocam a própria fé, ou seja, o sim que salva.
E quais indicações o senhor dará para viver o Ano da Fé?
A indicação é redescobrir a fé nas suas características próprias, superando qualquer provável redução e desvirtualização. O risco é fazer disso uma realidade intelectual ou sentimental, não colhendo-a mais como evento salvífico que leva a completar a humanidade; o homem, sozinho, não consegue e a fé permite-lhe de completar a sua humanidade, a fé completa aquilo que a minha criaturalidade somente entrevê e preanuncia.
Por isso, a indicação de método que Jesus dá aos seus, quando os chama ao apostolado, é fundamental. À pergunta: mestre, onde moras? Jesus responde convidando-os a segui-lo. Nós também no início deste Ano da Fé, como primeira coisa, devemos redescobrir a vida eclesial como sequela Christi. Trata-se de viver não somente na Igreja mas, como dizia quase um século atrás Romano Guardini, a Igreja. E para fazer isso é fundamental reconcentra-se em uma oração mais autêntica – especialmente a litúrgica – e também descobrir o gesto humilde da peregrinação, sinal de um caminho comum rumo a meta, que é o Senhor Jesus, início e cumprimento da nossa fé.
Papa Luciani, que também foi patriarca de Veneza, como Papa fez as suas primeiras catequeses sobre fé, esperança e caridade. De que modo a figura deste Papa pode oferecer temas de edificação na atividade pastoral?
Este ano se comemora o centenário do seu nascimento e procuraremos celebrá-lo de modo digno. Para alguns foi até mesmo repreendido por ser fiel demais ao Papa e ao seu magistério. Na realidade ele tentou até o fim harmonizar as coisas e encontrar soluções aos problemas. E hoje, há mais de trinta anos da morte, este patriarca permanece uma recordação muito viva no povo e nas paróquias. Os venezianos, tanto da terra quanto do mar, conservam uma lembrança gratificante e afetuosa da passagem deste patriarca. É recordado como um homem de Deus, um pastor que deixou uma marca entre o povo, pela concretitude dos seus sermões e pela sua capacidade de diálogo e de ouvir.
Retirado de 30 Dias.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Relações entre empregado e empregador na Idade Média? Ou uma espécie de relação pai-filho?
Na sociedade medieval os relacionamentos humanos não eram tanto baseados nos contratos de serviço, mas nos contratos pessoais em que um homem se dá inteiro e recebe uma proteção total.
Hoje, os contratos entre patrão e empregado, ou entre patrão e patrão, empregado e empregado, são contratos trabalhistas, contratos de compra, venda, empréstimo, etc., e locação de serviços.
Esse tipo de contratos está restringido aos interesses e vantagens particulares legítimos.
Patroa e criados na colheita: relacionamento de alma
Porém, não se pode dizer que atendem a todos os desejos de relacionamento que existem no homem.
Trata-se de contratos legais onde o relacionamento de alma é secundário ou está ausente. Esta ausência deixa um vazio no espírito.
A sociedade medieval apanhou perfeitamente essa ausência na locação de serviços entre empregador e empregado.
Aliás, as palavras empregador e empregado são muito boas para o mundo do metal e do dinheiro.
Por exemplo, uma cozinheira que vai trabalhar a uma casa às tantas horas, faz o almoço todos os dias, sai, e volta para fazer o jantar. Depois ela recebe o pagamento no fim do mês. E com isto estão esgotadas as relações.
O que o patrão faz fora do jantar, o que a cozinheira faz fora da hora de trabalho? Cada um ignora quase tudo a respeito do outro.
A relação é: eu sou o que come e paga, ela é a que trabalha e vive do que eu dou para ela. Fora disto os contratos humanos estão inteiramente suspensos, não existem entre empregador e empregado.
Por isso o relacionamento é realmente entre empregador e empregado, porque a única relação que há é um emprego de caráter econômico. A expressão então é justa.
Mas, na Idade Média, a palavra patrão continha muito mais. Patrão vem da palavra latina pater, ou seja, pai, com todos os ponderáveis e imponderáveis que a palavra pai traz consigo.
E a palavra criado vem da ideia de criação, quer dizer a pessoa criada dentro da casa, como uma espécie de filho ou filha, com todos os ponderáveis e imponderáveis dos relacionamentos que há entre pai, mãe e filhos.
Então o contrato entre criado e patrão medieval tomava o homem todo também.
Os patrões cuidavam dos criados como se fossem outros filhos, dignificando-os.
Quando o criado entrava a trabalhar na casa do patrão era obrigado, antes de tudo, a morar na casa dele, a viver uma vida entrelaçada com a dele, contente com todos os fatos bons para o patrão, triste com todos os fatos ruins para essa forma de pai.
O casamento de um filho ou de uma filha, um filho que se formava um bom negócio que o patrão fazia, uma viagem, uma promoção, era para o criado um título de alegria, e ele participava do feliz sucesso.
Mas assim como o criado se dava completamente ao patrão, o patrão também se dava completamente ao criado.
E essa proteção atingia também aos filhos do criado, sua parentela, até mesmo quando, por alguma razão, ele deixava a casa.
Isto era algo muito semelhante, no nível doméstico ou do ofício, à vassalagem entre senhores feudais.
O vassalo pertencia ao seu senhor e a quem o senhor pertencia. Não como escravo, mas numa situação que era, de certo modo, uma prolongação da paternidade.
Por outro lado, na escala da nobreza, era a mesma coisa dos nobres inferiores em relação aos superiores e assim por diante, até chegar ao rei.
Conta-se que na noite de 10 de agosto de 1792, quando os revolucionários foram atacar o castelo das Tulherias, este castelo estava cheio de nobres acorridos dos fundos das províncias, alguns trazendo armamentos do tempo das guerras de Religião.
Por quê? Porque eles consideravam-se pertencer inteiramente ao rei, porque participavam da pessoa e da dignidade do monarca. E, portanto, se sentiam obrigados a derramar pelo rei seu próprio sangue.
Eles recebiam do rei todo o seu ser, tudo quanto eles eram. Mas de outro lado, eles davam tudo pelo rei. Era um contrato de homem a homem que toma por inteiro.
Episódios análogos se deram com os camponeses e domésticos defendendo as terras ou o castelo do patrão.
Relacionamento de alma, mais do que de dinheiro
Todos estes traços característicos do relacionamento pessoal na sociedade medieval existiam na Igreja Católica. E, às vezes, tinham sido criados pela própria Igreja.
Depois do Vaticano II estabeleceu-se por via de fato, entre o bispo e seus padres uma relação mais parecida com o frio – mas legítimo – contrato entre empregador e empregado.
Porque o padre trabalha para o bispo. E o bispo é um gerente dos padres. Mas, como a palavra gerente diminui, depaupera, avilta a dignidade do bispo!
Como deforma a realidade dizer que o padre é um empregado do bispo!
Em sentido diverso, qual era o relacionamento medieval do padre com o bispo?
O padre se dá à diocese. E dando-se à diocese, ele se entrega e passa a pertencer ao bispo. E por isso, um padre diz a verdade quando diz que é padre de tal bispo.
Por outro lado, o bispo também se dá à diocese e ao seu clero.
E por causa disto, o padre tinha uma dedicação pelo bispo que chega até ao derramamento de sangue. E vice-versa.
Muito mais frisante é isto nas Ordens religiosas, onde o religioso se dá à Ordem completamente na pessoa do abade ou superior, e onde o superior se dá à Ordem completamente.
Estas relações se parecem extraordinariamente com o princípio da sociedade temporal medieval. E muitas vezes, foram os religiosos – notadamente, os beneditinos – que passaram esse relacionamento de alma à sociedade.
Não havia um contrato de trabalho meramente material, argentário ou de interesses.
O contrato de trabalho é necessário, mas é apenas um dos elementos integrantes de toda uma situação humana de relações afetivas, de contatos morais, de gostos comuns, que se estabelecem na vida real sempre que dois ou mais se relacionam.
Dessa maneira, temos uma noção muito mais verdadeira, aconchegante, simpática e protetora do que era a civilização medieval.
Retirado de A Cidade Medieval.
Relacionamento de alma, mais do que de dinheiro
Todos estes traços característicos do relacionamento pessoal na sociedade medieval existiam na Igreja Católica. E, às vezes, tinham sido criados pela própria Igreja.
Depois do Vaticano II estabeleceu-se por via de fato, entre o bispo e seus padres uma relação mais parecida com o frio – mas legítimo – contrato entre empregador e empregado.
Porque o padre trabalha para o bispo. E o bispo é um gerente dos padres. Mas, como a palavra gerente diminui, depaupera, avilta a dignidade do bispo!
Como deforma a realidade dizer que o padre é um empregado do bispo!
Em sentido diverso, qual era o relacionamento medieval do padre com o bispo?
O padre se dá à diocese. E dando-se à diocese, ele se entrega e passa a pertencer ao bispo. E por isso, um padre diz a verdade quando diz que é padre de tal bispo.
Por outro lado, o bispo também se dá à diocese e ao seu clero.
E por causa disto, o padre tinha uma dedicação pelo bispo que chega até ao derramamento de sangue. E vice-versa.
Muito mais frisante é isto nas Ordens religiosas, onde o religioso se dá à Ordem completamente na pessoa do abade ou superior, e onde o superior se dá à Ordem completamente.
Estas relações se parecem extraordinariamente com o princípio da sociedade temporal medieval. E muitas vezes, foram os religiosos – notadamente, os beneditinos – que passaram esse relacionamento de alma à sociedade.
Não havia um contrato de trabalho meramente material, argentário ou de interesses.
O contrato de trabalho é necessário, mas é apenas um dos elementos integrantes de toda uma situação humana de relações afetivas, de contatos morais, de gostos comuns, que se estabelecem na vida real sempre que dois ou mais se relacionam.
Dessa maneira, temos uma noção muito mais verdadeira, aconchegante, simpática e protetora do que era a civilização medieval.
Retirado de A Cidade Medieval.
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